UOL Notícias Internacional
 

19/07/2009

Nova York tem um governador acidental? Ou um governo?

The New York Times
Por Clyde Haberman
David A. Paterson pode ter deixado de lado a questão de ser um "governador acidental", mas a realidade é que ele é um dos quatro políticos em cargos estaduais que não foram escolhidos pelo povo.

Quando falou na convenção da Associação Nacional pelo Avanço das Pessoas de Cor (NAACP, em inglês) no ano passado, o governador David A. Paterson reclamou de ser uma vítima do racismo. Ele não usou a palavra racismo propriamente dita. Mas sua intenção foi clara.

Que forma esse racismo tomou? As pessoas se referem a ele como um "governador acidental", disse Paterson (que se tornou governador apenas por causa do gosto de Eliot Spitzer pelo sexo pago). Foi um rótulo pejorativo que não se aplicou aos outros, disse ele no encontro, em Cincinnati.

Nova Jersey e Connecticut tiveram mudanças repentinas no governo, mas ninguém falou em governadores acidentais nessas situações, disse ele.
Ninguém, disse, chamou Theodore Roosevelt, Harry S. Truman ou Lyndon B. Johnson de presidentes acidentais quando eles substituíram homens que haviam morrido no poder.

"Então por que esse título pouco ilustre persistiu ao longo dos anos para mim?", perguntou Paterson. "Vou deixar a resposta a cargo de todos vocês e dos freudianos da plateia, porque eu não tive oportunidade de pensar sobre isso."

Claro que não.

Apesar de sermos junguianos de coração, vamos entrar no campo freudiano que ele sugeriu e especular que o que ele queria era que todos acreditassem que ele havia de fato sido discriminado injustamente, e só porque é negro. Todas as pessoas que ele mencionou eram brancas.

É uma teoria interessante. Uma pena que esteja distante da realidade.

Vários jornais, incluindo este, usaram o termo "governador acidental"
para Richard J. Codey e M. Jodi Rell depois de terem sido inesperadamente incumbidos da administração de Nova Jersey e Connecticut, respectivamente. Roosevelt, Truman e Johnson foram todos chamados de presidentes acidentais. Robert Sherrill até intitulou seu livro de 1967 sobre Johnson de "O Presidente Acidental". Gerald R.
Ford recebeu esse rótulo ao se mudar para a Casa Branca depois da renúncia de Richard M. Nixon. "O Presidente Acidental" também foi título do livro de 2001 de David A. Kaplan sobre George W. Bush.

Na segunda-feira, Paterson foi para o New York Hilton falar na abertura da convenção da NAACP de 2009. Foi nesta cidade que a organização pelos direitos civis foi fundada há cem anos.

Dessa vez, o governador deixou as insinuações contestadas pelos fatos na porta de entrada. A maior parte do tempo, ele se restringiu a elogiar a NAACP pelos esforços durante o último século, que "estabeleceram uma base para a liberdade e a justiça nesse país" - não somente para os negros, disse ele, mas para todos. "A liberação dos afro-americanos é a liberação dos Estados Unidos", disse.

Mesmo que Paterson tenha desistido do tema este ano, a realidade é que Nova York tem um governador acidental. Mais do que isso, o Estado tem um governo acidental.

Há seis cargos eletivos em todo o Estado. Quatro deles estão preenchidos por políticos que não foram escolhidos pelo povo. Eles caíram nessas posições em virtude da ambição ou dos crimes dos outros.

O governador, conforme observado, não foi eleito. Ele nomeou um vice-governador, numa indicação cuja legalidade é incerta. O administrador do Estado recebeu o cargo de seus colegas da Assembleia depois que seu predecessor eleito renunciou em desgraça. O senador júnior dos EUA também é nomeado, escolhido por um governador - ai se ousarmos dizer acidental - não eleito.

Este é o estado da democracia em Nova York. Não vamos nem entrar na crise do Senado estadual, que paralisou Albany por mais de um mês, ou na forma como o prefeito Michael R. Bloomberg e o conselho da cidade de Nova York anularam a vontade expressa do povo para estender seus limites de mandato.

A propósito, as pessoas que parecem ter mais prosperado são os integrantes das equipes dos políticos. Enquanto o Senado estava ocupado em não fazer nada, 11 assessores-chefes receberam aumentos salariais consideráveis. Bloomberg, que constantemente alega a pobreza municipal, simplesmente deu US$ 69 milhões eu aumentos ao longo de dois anos para 6.692 pessoas em sua folha de pagamento. Seu secretário de imprensa comentou brevemente essa informação na tarde de sexta-feira - usando o método consagrado pela prefeitura de inserir uma notícia impalatável em meio a outras na esperança de que ninguém perceba.

Pelo menos Paterson deixou de lado a autopiedade do ano passado, e falou com uma certa ousadia na segunda-feira. Ele disse ao público da NAACP que a ajuda do Estado para os negócios administrados por minorias havia aumentado em seu mandato. "E sabem por quê?", disse ele. "Porque há um novo xerife na cidade."

Seria bom se ele fosse mais cuidadoso com suas palavras. O último governador também era conhecido como xerife: um xerife de Wall Street.

Veja só o que aconteceu com ele.

Tradução: Eloise De Vylder

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