UOL Notícias Internacional
 

20/07/2009

E se o Irã não quiser o diálogo?

The New York Times
Michael Singh
Seis semanas antes de o Irã cair no caos eleitoral, o clérigo iraniano linha dura Ahmad Khatami censurou severamente os Estados Unidos em seu sermão de sexta-feira, afirmando: "Vocês não querem o diálogo!"

Ayatollah Khatami (sem relação com o ex-presidente Mohammad Khatami) com certeza não é um observador aguçado do cenário em Washington. Dada a persistência dos esforços americanos para entrar em diálogo com o regime iraniano durante os últimos 30 anos, e a resiliência do comprometimento e engajamento do governo Obama, a única constante na política americana em relação ao Irã parece ser que nós de fato queremos o diálogo.
  • Atta Kenare/AFP

    O clérigo iraniano linha dura Ahmad Khatami censurou severamente os EUA em sermão

Consequentemente, conforme a violência diminuiu, a atenção se voltou para a seguinte questão: se o presidente Obama ainda pretende conversar com o Irã, e se sim, como o fará.

Mas a questão deixa um ponto de fora. É um pouco como eu me perguntar se devo convidar Angelina Jolie para jantar: não é exatamente essa a pergunta que devo fazer, mas como nesse mundo eu conseguiria fazer que ela aceitasse o convite. No que diz respeito ao Irã, a questão não é tanto de que forma abordá-lo, mas como conseguir que os líderes iranianos queiram se engajar seriamente conosco.

Apesar de no passado os Estados Unidos terem buscado o engajamento intermitentemente, nos anos recentes o esforço ganhou uma nova urgência à medida que o Irã se aproxima do limiar nuclear. Vale lembrar por que o regime iraniano quer a bomba, apesar de toda a dificuldade envolvida em conseguir uma: prestígio não é a primeira razão, tampouco atingir um equilíbrio de poder com seus inimigos em potencial. O Irã quer uma arma nuclear porque seu regime é inseguro ao ponto da paranoia.

Compreender essa insegurança ajuda a explicar muitas das ações do regime. Apenas um regime tenso iria manipular, de forma tão transparente e atrapalhada, uma eleição na qual concorreram apenas candidatos que ele próprio havia selecionado. Qualquer abertura para os Estados Unidos é uma ameaça, não um prêmio, para um regime que se fortalece com o isolamento e cuja ideologia se baseia no antiamericanismo.

Também evidente na recente violência no Irã, entretanto, foi o fato inescapável de que nem os Estados Unidos nem nenhum de seus aliados pode dar ao regime "garantias de segurança" significativas, que com frequência são oferecidas como a chave para abrir uma grande negociação com Teerã. Nenhum presidente dos EUA iria, ou sequer poderia, proteger o regime contra a maior ameaça à continuidade de sua prosperidade - o ressentimento popular.

Se não pudermos aliviar a pressão sobre o regime para induzi-lo a aceitar nossa oferta de negociar, o único caminho que resta é aumentar essa pressão. O mundo livre deveria responder completa e rapidamente aos pedidos de apoio dos dissidentes iranianos, mas não devemos aspirar suplantar ou dirigir suas atividades.

Há outros meios de pressão que estão dentro do nosso controle, como sanções econômicas e isolamento diplomático voltados para os pesos-pesados do regime. Esses esforços foram recentemente desacelerados por dois motivos: a abordagem sequencial, com o engajamento como primeiro passo, assumida pelo presidente Obama; e a redução do entusiasmo de parceiros como a Rússia e a China.

A crise atual fornece uma oportunidade de reavivar este último, canalizando a aversão internacional pela violência do regime numa ação conjunta, e sugere a necessidade de revisitar o primeiro. Apesar de não haver necessidade de abandonar o engajamento, ele deve ser buscado em paralelo com a pressão. O regime deve ver a iniciativa do presidente não somente como um convite, mas como um desvio de um caminho que leva a penalidades cada vez maiores.

O regime iraniano demonstrou que não está no clima de diálogo, e tampouco está muito ansioso para conquistar o respeito do mundo.
Então, é mais provável que um engajamento sério entre os EUA e o Irã seja produto de uma reorientação fundamental por parte dos líderes iranianos do que da criação de um.

Tradução: Eloise De Vylder

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