UOL Notícias Internacional
 

20/07/2009

Para combater distúrbios, China abduz centenas de suas casas

The New York Times
Andrew Jacobs*
Em Urumqi (China)
Os dois meninos foram detidos enquanto misturavam a massa em uma padaria. O funcionário da cocheira saiu para beber água e não voltou para casa. Tuer Shunjal, um vendedor de hortifrútis, foi amarrado juntamente com quatro de seus vizinhos quando cometeu o erro de espiar de um banheiro no corredor no momento em que a polícia realizava uma varredura no prédio em que ele estava. "Eles cobriram a cabeça dele com uma camisa e o levaram sem dizer uma palavra", disse sua esposa, Resuangul.

Nas duas semanas desde o início dos distúrbios étnicos que resultaram em mais de 190 mortos e pelo menos 1.700 feridos em Urumqi, a capital regional de Xinjiang, as forças de segurança prenderam centenas de pessoas, muitas delas homens uigures aos quais as autoridades atribuem grande parte do derramamento de sangue.
  • Katharina Hesse/The New York Times

    Nurmen Met, 54, mostra as fotos dos filhos de 19 e 21 anos, presos quando as autoridades entraram na casa de banho público da família



O governo chinês prometeu uma punição dura para aqueles que participaram da violência que estourou em 5 de julho, após um protesto de uigures revoltados com o assassinato de dois operários de fábrica em uma província distante. Primeiro vieram os grupos de jovens uigures, depois os bandos de chineses da etnia han em busca de vingança.

"Para aqueles que cometeram crimes de forma cruel, nós os executaremos", disse Li Zhi, o mais alto funcionário do Partido Comunista em Urumqi, no dia 8 de julho.

A promessa, transmitida repetidamente, espalhou medo em Xiangyang Po, um bairro sujo da cidade dominado pelos uigures, muçulmanos de origem turcomana que costumam ter um relacionamento desconfortável com a maioria han da China. Os uigures são o maior grupo étnico em Xinjiang, mas em Urumqi os hans correspondem a mais de 70% dos 2,3 milhões de habitantes.

Foi aqui nas ruas de Xiangyang Po, em meio às moradias densamente habitadas e barracas que vendem macarrão e espetinhos de cabrito, que muitos hans foram mortos. Enquanto os jovens uigures atacavam nas ruas, os moradores se agachavam dentro de suas casas e lojas, eles disseram; outros alegam que deram abrigo aos vizinhos hans.

"Foi horrível para todos", disse Leitipa Yusufajan, 40, que passou a noite encolhida no fundo de seu mercado junto com sua filha de 10 anos. "Os baderneiros não eram daqui. Nosso povo não se comportaria tão brutalmente."

Porém, para as autoridades de segurança, o bairro há muito é um refúgio de pessoas com a intenção de separar Xinjiang do resto da China. No ano passado, durante uma batida em um apartamento, as autoridades mataram a tiros dois homens que disseram fazer parte de um grupo terrorista que preparava explosivos caseiros. Na última segunda-feira (13), os policiais mataram dois homens e feriram um terceiro, disseram as autoridades, após uma tentativa de ataque a policiais em patrulha. "Este não é um lugar seguro", disse Mao Daqing, um chefe de polícia local.

Os moradores locais discordam, dizendo que o bairro é composto de pessoas pobres, mas cumpridoras da lei. Na maioria, agricultores que vieram para Urumqi em busca de uma fatia da prosperidade da cidade. Entrevistas com duas dúzias de pessoas mostraram uma condenação veemente dos distúrbios. "Aquelas pessoas não são nada mais que lixo humano", disse um homem, cuspindo no chão.

Ainda assim, a resposta da polícia foi indiscriminada, eles disseram. Nurmen Met, 54 anos, disse que seus dois filhos, de 19 e 21 anos, foram levados quando as autoridades invadiram a casa de banho público de propriedade da família. "Eles nem estavam nas ruas no dia dos distúrbios", ele disse, mostrando fotos de dos jovens. "São garotos bons e honestos."

Muitas pessoas disseram temer que seus entes queridos possam ser engolidos por um sistema penal que é vasto e notoriamente opaco. No ano passado, nos meses que antecederam os Jogos Olímpicos de Pequim, as autoridades prenderam e julgaram mais de 1.100 pessoas em Xinjiang durante uma campanha contra o que chamaram de "extremistas religiosos e separatistas". Logo após as prisões, Wang Lequan, o secretário do Partido Comunista da região, descreveu a repressão como uma luta de "vida ou morte".
  • Katharina Hesse/The New York Times

    Patiguli Palachi (à esq.) e sua enteada em Urumqi. Palachi diz que acha que seu marido foi levado pelas autoridades porque um homem han foi espancado até a morte em frente ao seu prédio



Os grupos exilados uigures e defensores de direitos humanos dizem que o governo às vezes usa essas acusações para silenciar aqueles que pressionam por maior liberdade política e religiosa. Os julgamentos, eles dizem, frequentemente são realizados às pressas. "A Justiça é dura em Xinjiang", disse James Seymour, um pesquisador sênior da Universidade Chinesa em Hong Kong.

Em um sinal da sensibilidade em torno dos distúrbios, o Birô de Assuntos Legais em Pequim alertou os advogados a manterem distância dos casos em Xinjiang, sugerindo que aqueles que auxiliarem qualquer um acusado pelos distúrbios representam uma ameaça à unidade nacional.

As autoridades fecharam na sexta-feira (17) a Iniciativa por uma Constituição Aberta, um consórcio de advogados voluntários que pegavam casos que desafiavam o governo e outros interesses poderosos. Separadamente, o birô cancelou as licenças de 53 advogados; alguns tinham ajudado os tibetanos acusados pelos distúrbios do ano passado em Lhasa, a capital do Tibete.

Os defensores de direitos humanos disseram que se os julgamentos em Xinjiang lembrarem aqueles que ocorreram no Tibete, muitos réus receberão penas longas. "Há uma preocupação de que os detidos em Xinjiang não receberão um julgamento justo", disse Wang Songlian, um coordenador de pesquisa dos Defensores dos Direitos Humanos Chineses, um grupo de Hong Kong.

Os moradores de Xiangyang Po disseram que os policiais realizaram duas varreduras matinais no bairro após o início dos distúrbios, prendendo aleatoriamente até mesmo meninos de apenas 16 anos. Isso levou uma multidão de mulheres angustiadas a marcharem no centro de Urumqi para exigir a soltura dos homens.

Mas nenhum dos detidos voltou para casa, disseram os moradores, e as autoridades se recusam a dar informações sobre seus paradeiros.

"Eu vou todo dia à delegacia, mas eles apenas me dizem para ser paciente e esperar", disse Patiguli Palachi, cujo marido, um técnico de oficina de aparelhos eletrônicos, foi levado de pijama juntamente com quatro outros ocupantes de sua moradia. Palachi disse que eles podem ter sido detidos porque um homem han foi morto do lado de fora do prédio. No entanto, ela insistiu que seu marido não estava envolvido. "Nós estávamos escondidos dentro de casa, assustados como todo mundo", ela disse.

Apesar de ser impossível verificar a veracidade dos relatos dos moradores, enquanto Palachi falava, mais de dez pessoas se aproximaram para compartilhar histórias semelhantes.

Encorajado pela presença dos jornalistas estrangeiros, o grupo decidiu caminhar até a delegacia local para confrontar de novo os policiais. "Talvez se vocês estiverem conosco, eles nos darão uma resposta", disse Memet Banjia, uma quitandeira à procura de seu filho. "Provavelmente eles não dirão nada e amanhã nós desapareceremos."

Mas o encontro com a polícia não ocorreu. Quando as moradoras se aproximaram da delegacia, uma viatura avançou em sua direção e a multidão se dispersou. Os estrangeiros foram ordenados a entrar no carro e foram levados para a unidade policial. Após uma hora de espera, duas autoridades chegaram com um sermão e um alerta.

"Vocês não podem ficar aqui; é muito inseguro", disse uma delas, enquanto conduzia os estrangeiros de volta ao centro da cidade, altamente patrulhado. "É para seu próprio bem."


*Zhang Jing contribuiu com pesquisa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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