UOL Notícias Internacional
 

20/07/2009

Prussianos de alta classe que desafiaram sua origem

The New York Times
Michael Kimmelman
Em Berlim (Alemanha)
Hoje é o aniversário do complô do dia 20 de julho de 1944 para matar Hitler e haverá uma missa aqui, como acontece todo ano, onde os conspiradores foram executados. Entre os homenageados, talvez o conde Fritz-Dietlof von der Schulenburg não seja conhecido hoje em dia fora da Alemanha ou mesmo dentro dela. Outros ficaram famosamente associados ao complô. Mas como escreveu o historiador alemão Hans Mommsen: "Schulenburg foi a força motora da conspiração."

A irmã de Schulenberg, condessa Elisabeth Von der Schulenberg - Tisa, como era chamada - era artista. Eles constituíam um casal extraordinário.

Os Schulenberg eram um clã muito antigo da alta classe prussiana, fortemente nazista, e como tal demonstram a complexidade das famílias, mesmo as alemãs, aristocráticas ou não. Sua história mostra que se deve ter cautela ao se julgar a história, ou um povo.

  • Cortesia da família de Tisa von der Schulenburg via The New York Times

    Tisa von der Schulenburg frequentemente criou com imagens de trabalho e sofrimento, como nas obras "The Ramp," (e.); "Compressed Air," (c.); e "World: Refugees," (d.)

As esculturas e desenhos de Tisa fazem lembrar o trabalho de Kathe Kollwitz ou de Otto Dix. Os retratos que ela pintou sobre o Holocausto estão entre os primeiros por uma alemã. Carismática, liberada, determinada e destemida, ela era recebida, antes e depois da guerra, nos círculos de Henry Moore e Heinrich Mann, Bertolt Brecht e Oskar Kokoschka. Convertida ao socialismo quando jovem, ela encontrou sua vocação no ensino da arte para mineradores de carvão no Reino Unido, para onde se mudou em 1933 com seu primeiro marido, Fritz Hess, que, para horror da família, era judeu.

Quando soube que seu pai estava gravemente doente em 1938, ela deixou o Reino Unido e voltou para casa. Hitler foi ao funeral. Ansiosa para deixar a Alemanha, foi detida no aeroporto de Croydon pelas autoridades britânicas, que tinham visto no jornal fotografias do Fuehrer com sua família. Para os nazistas, ela era socialista. Para os britânicos, era filha de um nazista. Então, ela passou os anos de guerra na Alemanha.

Criada luterana, descendente, dentre outros, de Bismarck e Von Arnim, filha do comandante de elite da cavalaria da Garde du Corps e mais tarde chefe de gabinete do príncipe herdeiro, Tisa viu as terras da família serem confiscadas e o mundo que conhecia desmoronar e desaparecer. Ambos os pais e todos os cinco irmãos morreram até o final da guerra.

Ela se casou e se divorciou uma segunda vez antes de encontrar consolo no convento de ursulinas em Dorsten, no Rurh, que frequentara durante nos anos 50 - em parte porque espelhava o seu cenário interior e em parte porque as minas de carvão ficavam ali. Como freira católica romana, ela angariava dinheiro para o convento vendendo seus quadros e fundou um museu judeu, um dos primeiros da Alemanha. Ela morreu em Dorsten em 2001, com 97 anos.

Mais tarde, ela lembrou-se que seu pai, apesar de anti-semita, sempre tratou Hess com respeito. O amor de um pai por uma filha pode transcender o preconceito, entendeu Tisa. O perdão deve ser recíproco.

Richard Von Weizsacker, ex-presidente da Alemanha, descreveu seu encontro com Tisa Von der Schulenberg pouco depois da guerra, nas minas de Bochum-Hordenl e Wanne-Eickel.

"Encontrar alguém como ela certamente foi muito surpreendente. Ela parecia com o irmão, uma personalidade peculiar e especial", disse Von Weizsacker durante uma conversa de telefone.

Fritzi, como era chamado o conde Von der Schulenberg, foi oficial do mesmo regimento de infantaria do Potsdam no qual Weizsacker serviu. Ele recrutou vários de seus oficiais mais jovens para o movimento resistência. Weizsacker lembra-se dele com assombro: "Era ele quem nos dizia o que era necessário. Eu o vi apenas quatro semanas antes do dia 20 de julho, e ele me disse que logo estaríamos onde quiséssemos, que seríamos chamados de volta a Berlim, que teríamos trabalho para fazer.

"Ele era um típico nobre", acrescentou. "Fritzi tinha os pés no chão, era provocador e, meu Deus, muito corajoso - foi ele quem nos inspirou, ele que nos fazia ver que não podíamos apenas esperar até que essa guerra terrível encontrasse seu próprio fim."

  • Cortesia da família de Tisa von der Schulenburg via The New York Times

    Elisabeth von der Schulenburg (1903-2001)

A neta de Fritzi, conselheira da Fundação de 20 de julho de 1944 e minha amiga, a editora alemã Elisabeth Ruge, lembrou noutro dia que, só nos anos 50, a mulher de Fritzi, Charlotte, recebeu uma pensão de viúva de guerra. As pensões na Alemanha podiam ser negadas no caso de alta traição, e os burocratas alemães decidiram aplicar a regra aos planejadores do complô executados depois da guerra. Ruge me disse que, quando sua avó protestou, as autoridades responderam que Fritzi tinha ingressado no Partido Nazista em 1932. Ou seja, não contou o fato de Schulenberg ter compensado por seu erro, pagando com sua vida.

Como Mommsen salientou, até os interrogadores de Schulenberg na sede da Gestapo e durante o julgamento - uma formalidade antes de seu enforcamento por corda de piano na prisão de Ploetzensee - ficaram impressionados com a clareza de suas convicções e sua compostura, com sua calma absoluta, como Tisa discerniu em uma fotografia da cena no tribunal. Fritzi tinha sido um menino silencioso, observou em um livro de memórias não publicado, mas: "Durante aqueles anos de guerra ele ficou muito mais sério, um homem de enorme força de vontade e autocontrole, com um olhar intenso e determinado. Sua sabedoria e rapidez se aguçaram, como acontece com um bom esgrimista como ele".

Depois da morte do irmão e com o fim de seu segundo casamento, a condessa precisou de um tempo antes do desespero ceder a um "sonho de comunidade e amor", como escreveu. A igreja prometeu uma redenção dos fardos dos pecados passados, que pareciam "a mochila pesada que carreguei tantas vezes em minhas viagens". Ao mesmo tempo, ela se perguntava se "poderia deixá-la na beira da estrada e sair saltitando, feliz para sempre?"

Em uma frase, essa era a questão que a Alemanha enfrentava. A vida de Tisa Von der Schulenberg tornou-se uma metáfora para a era do pós-guerra, que não passou despercebida para o autor Heinrich Boell e outros que a procuraram. "Eles viram isso nela", disse Ruge, "alguém que tinha uma profunda compreensão do que aconteceu na Alemanha, que representava a nova Alemanha, mas vinha da velha, e que conseguiu encontrar sua independência e liberdade para fazer algo de bom para si mesma."

A condessa desenhava os mineradores de carvão como semideuses; as gotas de tinta nos desenhos dos judeus viraram lágrimas. Isso dito, ela preservou até seus 90 anos sua sagacidade e seu coração leve, seu assombro diante dos mistérios da vida, entre eles os laços de família.

"Tisa via a natureza humana em toda sua complexidade", disse Ruge. "Tantas vezes começou algo novo, encontrando outro lugar para ela no mundo. Ela amava sua família, foi leal apesar de suas diferenças, apesar do fato de, em certa altura, a família ter denunciado Fritzi como traidor, porque ela era tolerante e viu, com as falhas da família, que é possível passar pela vida e ficar cego".

"Mas ela sabia que, para criticar as fraquezas dos outros, você tem que entender as próprias", acrescentou sua neta. "E ela sabia o que perdoar significava."

Tradução: Deborah Weinberg

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