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22/07/2009

Tradição espiritual xamanista ocupa capital da Mongólia

The New York Times
Dan Levin
em Ulan Bator (Mongólia)
Acenando com seu cigarro impacientemente, a xamã declarou que tinha a cura para os males do sujeito. Dois divórcios e uma empresa em ruínas? Sim, sim, ela tinha ouvido esse tipo de coisa antes. Mas primeiro precisava de outro drinque.

Ela observou o homem servir o resto do líquido dourado da garrafa em sua caneca e tomou um gole pensativo. Somente então pôde dar suas instruções.

"Eu beberia vodka, mas meu espírito prefere cerveja", disse ela. "Ele é raivoso e está sempre bêbado."
Enkhtuya, 47, que como muitos mongóis só usa um nome, então disse ao homem que se lavasse com vodka para tirar a energia ruim. Depois, ele deveria colocar pedaços de carne de cavalo, sua camisa úmida e vodka em um pote de água e jogar tudo fora longe de sua casa. Isso expulsaria o demônio que o afligia, disse ela.

O homem a agradeceu, entregando 1.000 togrogs, cerca de R$ 1,40, e deixou seu minúsculo barraco. Rapidamente foi substituído por uma senhora idosa, a próxima em uma longa fila de clientes esperando do lado de fora.

Enkhtuya está entre muitos xamãs que tornaram a tradição espiritual antiga desta nação em uma indústria próspera na capital de rápido crescimento, que abriga um terço dos quase 3 milhões de habitantes. Banido por 70 anos sob o regime comunista, o xamanismo foi protegido pela adoção da liberdade religiosa no Estado na constituição de 1992.

Desde então, os xamãs prosperaram e se tornaram parte da vida da cidade nos últimos anos, oferecendo exorcismos, um site da Web de leitura da sorte e avisos de rua profissionais.

Eles estão em alta. Milhares de burocratas, operários demitidos e nômades que perderam seus rebanhos no mergulho do país para uma economia de mercado lotam blocos de apartamentos de estilo soviético e tendas em busca de trabalho, amor e cura.

"Antigamente, as pessoas pediam chuva. Hoje, pedem dinheiro", disse Chinbat, 30, engenheiro elétrico que acabou de terminar seu treinamento para xamã.

Esse renascimento, contudo, impõe um desafio às antigas noções de poder espiritual, enquanto os xamãs com seus rituais e doutrina competem com as autoridades xamanistas mais tradicionais pela fé -e dinheiro- dos crentes.

O xamanismo mongol nasceu nas savanas milhares de anos antes do budismo chegar do Tibete, no século 16. Em essência, é uma adoração da natureza e dos espíritos que dominam as montanhas, rios e céus.

Com o tempo, várias comunidades emergiram com suas próprias divindades, rituais e instrumentos. Alguns xamãs usam tambores ou tocam harpas para induzir transes, enquanto outros espumam pela boca e falam em línguas estranhas.

Ainda assim, é profunda em sua tradição a crença que as capacidades xamanistas podem ser transmitidas dentro das famílias e que os espíritos forçam seus oráculos escolhidos a adotarem o caminho, frequentemnte por meio de doença ou outras crises pessoais.

Chinbat disse que descobriu sua vocação durante uma visita a um xamã que disse a ele que a doença de fígado do pai era sinal de seu destino místico. A princípio, rejeitou a ideia, mas, depois que seu pai morreu, Chinbat pagou US$ 350 (em torno de R$ 700) por uma semana de treinamento com 11 outros estudantes sob um mestre xamã. O tambor sagrado e as vestes são extra. Agora ele diz que pode ter visões e incorporar espíritos em seus transes regados a vodka. Ele pratica seu ofício em casa e diz que mantém essas novas capacidades secretas da maior parte das pessoas. Ele também pretende manter seu antigo emprego.

"O principal papel do xamanismo é proteger a família, não fazer dinheiro", disse ele.

Mesmo assim, centenas de mongóis alegam ter poderes xamanísticos e se estabeleceram aqui em Ulan Bator, onde um fluxo constante de clientes sofrendo com desemprego, doença ou coração partido estão a um telefonema de distância.

Ser xamã pode trazer prestígio, fama e um modo de vida, disse Matyas Balogh, professor assistente de estudos mongóis da Universidade Eotvos Lorand em Budapeste que estudou o xamanismo mongol contemporâneo. Alguns desses pretensos curandeiros e médiuns inventam seus próprios rituais, disse ele, e são rejeitados como fraudes por xamãs que aderem às práticas mais tradicionais.

"Os neo-xamãs não têm com quem aprender, então inventam", disse ele.

Zorigtbaatar Banzar pratica seu próprio estilo de mágica em uma tenda de feltro redonda, "ger", que ele chama de Centro Xamanista e de Sofisticação Celestial Eterna, ao lado de um bar de karaokê em um dos cruzamentos mais movimentados de Ulan Bator. Um homem barrigudo de nariz vermelho com 50 e poucos anos, Zorigtbaatar diz que descobriu seus poderes sobrenaturais quando jovem. Quando era soldado, perdeu-se no Gobi e foi internado em um hospital para doentes mentais, diz ele, por contar aos outros sobre seus "dons".

Hoje, ele e sua mulher, que também é xamã, construíram uma empresa baseada na adoração de Gengis Khan, lendário governante mongol que eles dizem ter sido o mais poderoso xamã de todos. Durante suas cerimônias, Zorigtbaatar incorpora o espírito de Genghis Khan para o beneficio de centenas de fiéis que se reúnem toda semana.

Com uma coroa incrustada e um manto de seda enfeitado com amuletos, Zorigtbaatar batuca em seu tambor de pele de carneiro e faz invocações diante de um altar decorado com uma cabeça de urso empalhada, a moeda mongol e uma garrafa de gin Gordon. Duas dúzias de fiéis estavam sentados segurando oferendas de doces e biscoitos.

Então, Zorigtbaatar acompanhou os fiéis ao estacionamento, passando por uma grande águia acorrentada a um poste e indo na direção de um monte de crânios de cavalos.

Esforçando-se para esquecer as buzinas fortes de carros enquanto se concentrava no tambor, o grupo murmurou preces para prosperidade e jogou gotas de vodka no ar.

A cerimônia terminou com muitos recebendo uma massagem de Zorigtbaatar na cabeça antes de irem para a casa com um pacote de cubos de açúcar para dar sorte.

Do outro lado da cidade, Suhbat Shagdariin, presidente do Centro Golomt de Xamanismo, instituto dedicado à preservação do xamanismo tradicional, se irrita quando discute as crenças que recentemente se infiltraram na sociedade mongol, de tipos como Zorigtbaatar até missionários mórmons e católicos.

Contudo, até mesmo a organização dele, que já treinou mais de 1.500 xamãs desde sua inauguração em 1996, adaptou-se à modernidade. Muitos crentes batem à porta do centro em busca de conselhos financeiros, inclusive dois mongóis que perderam uma fortuna jogando em Las Vegas. De acordo com Suhbat, o par voltou a Las Vegas e rapidamente ganhou US$ 2 milhões, como previra um dos xamãs do centro e um pouco de tecnologia, apesar de não ter sido possível verificar sua alegação.

"O xamã trabalhava aqui, mas os espíritos foram para lá", explicou Suhbat, segurando seu telefone celular.

Tradução: Deborah Weinberg

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