UOL Notícias Internacional
 

23/07/2009

China teme que conflito étnico possa agitar oásis uigur

The New York Times
Andrew Jacobs
Em Kashgar (China)
O guia turístico, Ali parecia gentil o bastante e seu inglês era perfeitamente fluente -um atributo útil em uma cidade onde a maioria das pessoas fala uma língua túrcica que não soa nada com o chinês.

"Claro, eu levo vocês aonde quiserem, mas primeiro tenho que telefonar para meu amigo e ver se ele pode nos levar de carro", disse Ali, se afastando. Após uma rápida conversa, ele desligou o telefone e informou educadamente que seu amigo era na verdade um supervisor do governo que em breve chegaria para manter os supostos clientes longe de quaisquer problemas.

O destino que seu "amigo" tinha em mente? O aeroporto, para onde os repórteres, sujeitos a uma proibição à imprensa estrangeira, seriam escoltados ao próximo voo para fora da cidade.
  • Alan Chin/The New York Times
"Desculpem", disse Ali aos jornalistas preparados para fugir em um táxi. "Mas se não telefonasse, eu estaria bastante encrencado."

Kashgar, o antigo oásis na Rota da Seda e um ímã de mochileiros, está tomada pelo medo desde que os distúrbios étnicos de duas semanas atrás resultaram em pelo menos 197 mortos em Urumqi, a capital desta área no noroeste conhecida como Região Autônoma Uigur de Xinjiang. Apesar das duas cidades serem separadas por mais de 1.100 quilômetros punitivos de deserto e montanhas cobertas de neve, as autoridades estão particularmente ansiosas com uma possível inquietação em Kashgar, uma cidade de 3,4 milhões que é 90% uigur, uma minoria muçulmana que há muito tem um relacionamento tenso com os chineses da etnia han que governam Xinjiang.

As autoridades têm bons motivos para estarem nervosas. Em agosto passado, pelo menos 16 policiais militares foram mortos em um ataque aqui, enervando o governo no momento em que dignitários e atletas chegavam em Pequim para os Jogos Olímpicos de 2008. A polícia o chamou de ataque terrorista cometido por dois homens uigures armados com explosivos e facões, apesar de algumas testemunhas depois terem contestado essa versão dos fatos.

No início dos anos 90, Kashgar também foi cenário de atentados a bomba e manifestações; pelo menos 21 pessoas foram mortas e milhares foram presas durante uma repressão realizada pelo exército. A cidade há muito é um cadinho para a autodeterminação uigur, mesmo que as aspirações nacionalistas nunca tenham sido as mesmas após um senhor da guerra chinês ter conquistado a recém-nascida República do Turquistão Oriental, um país de vida breve cuja capital foi Kashgar por poucos meses em 1933.

Apesar de estar sendo rapidamente demolida em nome da modernização, a Velha Kashgar e seus antigos bairros de terra continuam sendo o coração da cultura uigur e um atração para os turistas. Para a liderança chinesa, entretanto, a cidade também é uma incubadora daqueles que buscam criar uma pátria uigur na fronteira com o Paquistão, Afeganistão e um punhado de outros países predominantemente muçulmanos, cujos nomes terminam com "istão".

Desta vez, Kashgar se manteve relativamente tranquila. Durante os distúrbios em Urumqi, uma multidão de 200 pessoas tentou protestar do lado de fora da Mesquita Id Kah da cidade, a maior na China, mas foi rapidamente dispersada pela polícia, segundo a "Xinhua", a agência de notícias estatal.

Mas diferente de Urumqi, onde os jornalistas podem circular com relativa liberdade, os poucos repórteres estrangeiros que chegaram a Kashgar foram prontamente retirados da cidade.

"A situação pode parecer calma agora, mas pode mudar a qualquer segundo", disse um funcionário do governo local a Mark MacKinnon, um jornalista do "The Globe and Mail", um jornal canadense, enquanto ele e seus colegas eram conduzidos ao aeroporto.

A incerteza e o senso de isolamento só foram ampliados pela contínua interrupção dos serviços de Internet, mensagens de texto e telefonia internacional, que cortou as comunicações em Kashgar e toda a região. O apagão foi particularmente problemático para empresas exportadoras, bancos, proprietários de fábricas e acadêmicos, e alguns deles disseram que foram informados que o serviço de telefone e Internet permanecerá restrito até pelo menos outubro, quando a China comemorará o 60º aniversário da revolução comunista.

"Eu estou esperando um grupo de turistas suíços na próxima semana, mas não tenho como saber se ainda virão", disse um guia turístico sitiado.

Como Urumqi, que foi tomada por soldados desde 5 de julho, Kashgar é patrulhada por jovens em uniformes de camuflagem, muitos deles circulando pela cidade dia e noite, com seus caminhões verdes do exército cobertos de slogans ostensivamente tranquilizadores como "Os Separatistas São Nosso Inimigo".

Mas a arma mais eficaz do governo contra problemas potenciais é praticamente invisível: os comitês de bairro compostos por cidadãos uigures nomeados que, movidos pelo medo ou ambição, estão prontos a cumprir a vontade do governo.

"É preciso ter cuidado porque há informantes por toda parte", disse Islmail, um professor do ensino médio que disse apenas seu primeiro nome para sua própria segurança. Ele disse que seu irmão foi detido após criticar publicamente os planos para demolição dos velhos lares de pau-a-pique que, até recentemente, margeavam a mesquita histórica de Kashgar. "Eu não confiaria em ninguém se fosse você", ele disse.

Suas palavras não eram exagero. Funcionários de hotéis, guias turísticos e motoristas de táxi foram instruídos a ficar de olho em jornalistas estrangeiros incômodos. Uma funcionária de uma empresa estatal de turismo contou sobre uma reunião na qual seu chefe alertou que pessoas pegas ajudando jornalistas perderiam seu emprego -assim como os membros de sua família.

A campanha parece ter sido extremamente eficaz. Quando seus passageiros pediram para serem levados para um condado rural conhecido por seus moradores desempregados e insatisfeitos, um motorista uigur ligou para a polícia e então alertou outros motoristas a não ajudarem os passageiros a escapar.

Após várias escapadas por pouco das autoridades, os estrangeiros conseguiram chegar ao interior bem irrigado que forma o tampão verdejante entre Kashgar e o vasto Deserto de Taklimakan, que se estende por 950 quilômetros para o leste. Em uma cidade, um grupo de velhos abrindo o solo falou animadamente sobre o ritmo da modernização que tornou a agricultura, e suas vidas, muito mais fácil.

"Agora temos eletricidade, fertilizantes e motos", disse um homem idoso.

Posteriormente, após um pouco de insistência gentil, os agricultores reconheceram que a vida não era sem dificuldades. Um homem, apontando para uma série de casas de tijolos inacabadas, disse que as autoridades locais demoliram as antigas casas dos aldeões e prometeram que o governo pagaria pela construção de novas.

"As casas que estão construindo têm a metade do tamanho e agora temos que pagar por metade do custo", ele disse, enquanto seus vizinhos concordavam com revolta. "Nós não temos esse dinheiro."

Os homens prosseguiram por algum tempo, falando animadamente enquanto o rosto do guia turístico registrava um caleidoscópio de expressões perturbadas. Após o término das queixas, o guia, um estudante de pós-graduação que é melhor permanecer não identificado, fez uma pausa antes de se recusar a traduzir suas palavras para o inglês.

"Lamento", ele disse. "Mas é melhor para todos que eu faça de conta que não ouvi isso."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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