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24/07/2009

Adversário político de Karzai faz campanha para as multidões afegãs

The New York Times
Carlota Gall
Herat (Afeganistão)
Quando o médico Abdullah Abdullah, o principal adversário eleitoral do presidente Hamid Karzai, chegou aqui para fazer campanha no último fim de semana, milhares de pessoas que o apoiam encheram a estrada de 10 quilômetros desde o aeroporto. Carros estavam cobertos de pôsteres. Motocicletas levavam bandeiras azuis desfraldadas. Homens jovens usando camisetas com a foto do candidato saltavam sobre o carro dele para abraçá-lo com grande alegria.

Faltando apenas uma semana para a eleição, Abdullah deu início à sua campanha com atraso, mas nas primeiras duas semanas ele visitou seis províncias e atraiu um número crescente de apoiadores e multidões maiores do que se esperava. Recepções animadas como esta o elevaram subitamente ao status de potencial futuro presidente.
  • Abdullah Abdullah, adversário do presidente Hamid Karzai, faz campanha no Afeganistão

"Não tenho dúvida de que o povo deseja mudança", disse Abdullah em uma entrevista após o tumultuado dia de campanha em Herat, no oeste do Afeganistão, acrescentando que o seu ímpeto só está aumentando. "Hoje eles acreditam que a mudança está chegando".

Karzai ainda é amplamente tido como o candidato favorito na campanha para a eleição presidencial de 20 de agosto. Mas Abdullah, que conta com o apoio do maior grupo oposicionista, a Frente Nacional, é o único candidato, de um total de 41, que tem uma chance de obrigar Karzai a ir ao segundo turno, que consiste em uma disputa entre os dois candidatos mais votados, caso nenhum deles obtenha mais de 50% dos votos na primeira votação.

Já bem conhecido pela maioria dos afegãos, Abdullah, 48, que é oftalmologista, foi durante anos membro da resistência contra os soviéticos e o regime do Taleban, além de ter desempenhado um papel crucial na formação do novo governo democrático após a intervenção dos Estados Unidos.

Vestindo-se impecavelmente, e usando roupas afegãs tradicionais sob casacos feitos no Ocidente, ele combina a solidariedade aos ex-combatentes que integravam a resistência com a moderação do intelectual afegão, o que faz com que tenha o potencial para ser admirado por muita gente.

Após ter sido ministro das Relações Exteriores no governo Karzai durante cinco anos, ele deixou o cargo em 2006, e depois disso tornou-se um crítico enérgico da liderança do presidente. Abdullah recusou uma oferta para tornar-se companheiro de chapa de Karzai, e ele alega que o presidente pratica uma política de dividir para governar que polarizou o país.

Atualmente, Abdullah, que tem um diplomata e um cirurgião como companheiros de chapa, é visto como membro de uma geração mais jovem de afegãos ansiosos por afastarem-se da dependência do país em chefes tribais e velhos líderes mujahidin e por sanearem e reformularem a prática de governar.

Para isso, ele defende que o poder seja transferido da forte presidência construída sob Karzai para um sistema parlamentarista que, segundo Abdullah, será mais representativo. Ele pede também um sistema de eleição de autoridades para as 34 províncias e quase 400 distritos do Afeganistão como forma de criar apoio ao governo.

Atualmente esses governadores provinciais são nomeados por Cabul, e muitos têm sido criticados pela prática de nepotismo e corrupção. Clérigos xiitas influentes aqui em Herat, que apoiaram Karzai na última eleição em 2004, estão atualmente tão cansados dessas autoridades nomeadas corruptas que disseram que desta vez apoiarão Abdullah.

"Retomar a comunicação com o povo é algo de essencial para reverter a ausência de lei e a insegurança que atingiram um ponto crítico em grande parte do país", afirma Abdullah. "Eles conseguiram perder o apoio do povo", diz ele, referindo-se ao governo. "Ao combater a insurgência, perde-se não só o apoio do povo, mas também a guerra".

Diante de vários milhares de pessoas no estádio esportivo de Herat, ele provocou um grande aplauso ao prometer construir as instituições afegãs, de forma que as tropas estrangeiras possam ir embora em breve.

Ele prometeu também conter a corrupção generalizada e rever os programas de assistência estrangeira para garantir que eles concentrem-se no desenvolvimento das bases sociais e combatam a pobreza e o desemprego. Nas suas reuniões públicas, Abdullah tem enfatizado o apoio aos direitos das mulheres, dos desempregados, dos deficientes físicos e das vítimas da guerra.

Ele afirmou que trabalhará seriamente pela reconciliação com o Taleban, chamando o atual processo de "uma piada". Mas, em uma entrevista, Abdullah manteve a sua oposição antiga à liderança do Taleban, e disse duvidar de que o líder do grupo, o mulá Muhammad Omar, esteja pronto para negociar a paz.

Esta é a segunda eleição presidencial da história do Afeganistão, e os analistas políticos advertem que é praticamente impossível prever como transcorrerá a eleição ou determinar quais são as intenções do eleitorado. Os diplomatas que calculam o número de facções que apoiam Karzai dizem que ele será reeleito com facilidade, graças em grande parte ao apoio do maior grupo étnico, o dos seus colegas pashtuns.

Mas duas pesquisas de opinião realizadas neste ano sugerem que Karzai perdeu uma apoio considerável desde a sua vitória em 2004, quando conquistou 55% dos votos. Uma dessas pesquisas, conduzida em maio pelo Instituto Republicano Internacional, um grupo pró-democracia sem fins lucrativos, revelou que o apoio a Karzai caiu para 31%. Embora somente 7% dos entrevistados tenham afirmado que votariam em Abdullah, a pesquisa indicou que a eleição iria para um segundo turno.

As pessoas entrevistadas em Herat também falam de uma mudança do estado de espírito popular. "Karzai governou por oito anos e todos os problemas aumentaram", reclama Hosseini, 47, um agricultor que só forneceu um nome e que veio até a cidade para ouvir Abdullah falar.

Embora Abdullah conte com um apoio significativo no norte do país e nos grandes centros populacionais, ele terá dificuldade para fazer campanha no sul, onde a insurgência faz com que seja praticamente impossível a movimentação de políticos.

E embora ele possa se beneficiar do desejo de mudanças após quase oito anos do governo Karzai, pessoas que o apoiam e analistas afirmam que Karzai ainda dominará a eleição na sua região nativa pashtun de Kandahar, no sul do país.

Abdullah também alega ter ligações familiares com Kandahar pela parte do pai, Ghulam Muhayuddine Khan, um pashtun que foi senador na década de setenta. Mas ele é bem mais conhecido pela sua conexão com o Vale do Panjshir, no norte do país, através da família da sua mãe e da relação estreita com o famoso comandante da resistência, Ahmed Shah Massoud, que combateu tanto a ocupação russa quanto o Taleban.

Abdullah repele as sugestões de que não conseguiria obter apoio no sul pashtun e diz que o apoio a Karzai na área caiu drasticamente à medida que a segurança piorou e mais pessoas juntaram-se à insurgência. "O sul do Afeganistão quase anunciou uma jihad contra Karzai", declarou Abdullah.

Tradução: UOL

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