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27/07/2009

Crianças enviadas às famílias na China sofrem ao voltar para os EUA

The New York Times
Por Nina Bernstein
Em Nova York
Gordon, 3, não olha seus pais nos olhos e se recusa a chamá-los de mãe e pai. Ele tem explosões de temperamento e às vezes chora sem parar por meia hora.

"Não sabíamos por quê", disse a mãe, Winnie Liu, lembrando do desespero que os levou a um neurologista para verificar se Gordon não tinha autismo, e para um hospital que o encaminhou para o Butterflies, um programa de saúde mental para crianças muito pequenas no Lower East Side de Manhattan.

Finalmente eles descobriram que a razão da angústia de seu filho - e a razão pela qual as agências de serviço social que ajudam as famílias da China estão enfrentando um aumento dramático desses casos de problemas de desenvolvimento.

Como milhares de outros imigrantes chineses que respondem a pressões financeiras e culturais, Liu e seu marido, Tim Fang, haviam enviado Gordon para morar com seus avós, milhares de quilômetros distante na província de Fujian, poucos meses depois de seu nascimento em Nova York. Trabalhando longas horas em restaurante, eles só trouxeram o filho de volta para os Estados Unidos quando ele tinha idade suficiente para ir à pré-escola pública em período integral.

E agora o menino os via como estranhos que o sequestraram para uma terra estranha.

"As crianças que têm essa experiência voltam com necessidades tremendas", diz Nina Piros, diretora de programas de jardim de infância na Universidade Settlement, uma agência sem fins lucrativos que estima que 400 entre as mil crianças que participam do programa Butterflies são crianças que voltaram da China. "Elas chegam aqui e estão totalmente traumatizadas".

Alguns agem de jeitos confusos e ameaçadores, disse ela, batendo suas cabeças nas paredes, recusando-se a falar, ou vagando sem direção na sala de aula. Esses sinais de trauma extremo já foram com frequência mal interpretados como sintomas de autismo. Mas são marcas dos deslocamentos emocionais pelos quais essas crianças passaram.

Crianças afetadas de forma menos severa recebem ajuda de oficinas de apoio para seus professores e pais. Mas cerca de duas dezenas de crianças do programa Butterflies precisam do mesmo tipo de terapia intensiva que eventualmente ajudou Gordon e seus pais a se conectarem, disse Andrea D. Bennet, diretora do Butterflies, que começou há três anos com dinheiro do Conselho Municipal.

O fenômeno de crianças nascidas nos EUA que passam a infância na China é conhecido há anos entre os assistentes sociais, que dizem que é algo comum e preocupante. Cerca de 8 mil mulheres nascidas na China deram à luz em Nova York no ano passado, então o número de crianças em risco é substancial, de acordo com o Conselho de Planejamento Sino-Americano, uma organização de serviço social que espera conseguir financiamento para educar os pais sobre as armadilhas dessa prática e ajudá-los a encontrar alternativas.

Mas ninguém acompanha os números, e o assunto só recentemente atraiu a atenção de pesquisadores da primeira infância como a doutora Yvonne Bohr, psicóloga clínica da Universidade de York em Toronto, que chama esse tipo de crianças de "bebês satélite".

As ligações repetidamente cortadas com membros da família "podem potencialmente provocar uma crise de saúde mental em algumas comunidades de imigrantes", escreveu Bohr num artigo em maio na revista The Infant Mental Health Journal. Ela citou pesquisas clássicas como o trabalho de Anna Freud, que descobriu que crianças pequenas evacuadas durante a ofensiva militar a Londres foram tão prejudicadas pela separação de seus pais que teriam ficado melhor se estivessem em casa, sob o risco de ataques aéreos.

Bohr, que está realizando um estudo longitudinal das famílias com bebês satélite, alerta para o fato de que as pesquisas antigas foram moldadas por valores e expectativas ocidentais. Os pais chineses, incluindo profissionais com ensino superior que ela estudou, são com frequência influenciados pelas tradições culturais: uma ênfase no autossacrifício pelo bem da família, a crença de que os avós são as melhores pessoas para cuidar de seus filhos, e um desejo de estabelecer as crianças em sua herança cultural.

Enviar os bebês para os avós também acontece nas comunidades do sul da Ásia, diz ela.

Mas Amanda Peck, assessora de imprensa da Universidade Settlement, que trabalha com recém-chegados ao Lower East Side desde 1886, disse que enquanto as separações familiares são uma característica da migração em muitos grupos étnicos, o fenômeno dos bebês satélite parece ser raro fora da comunidade chinesa.

Algumas crianças têm mais capacidade de se adaptar, quer seja por causa de uma resiliência natural, de pais mais atenciosos ou da idade em que as separações ocorreram. Mesmo em casos severos como o de Gordon, o programa Butterflies teve sucesso em superar as piores consequências da separação com jogos terapêuticos e apoio para os pais e a criança, disse Victoria Chiu, sua terapeuta bilíngue.

Mas para muitas crianças, novas separações os aguardam mesmo depois que eles voltam para os Estados Unidos. Num caso típico, os pais migraram para trabalhar num restaurante chinês na Carolina do Sul, levando junto as crianças em idade escolar, mas deixando um bebê na China e uma criança de três anos com os avós em Nova York.

"O de três anos nem mesmo sorri", disse Chiu. "Quando ele se sentava em roda, todo o seu corpinho ficava simplesmente largado."

Gordon, hoje com sete anos, acompanha seus colegas de classe da segunda série e aprendeu a controlar seu temperamento, disseram seus pais, que são donos do restaurante Wild Ginger na Broome Street. Num inglês imperfeito, porém fluente, sua mãe contou o galgar difícil até o resultado feliz, e revisitou o local dos principais momentos de
transformação: uma pequena sala de brincadeira sob o beiral da antiga casa de colonos, onde uma casa de bonecas e um cachorro de pelúcia tiveram um papel importante para curar seu filho.

Vestido como super-herói, Gordon com frequência resgatava o cachorro de um fogo imaginário na casa de bonecas, salvando-o das "pessoas más", enquanto Chiu e a mãe dele brincavam junto.

"Eu era a mulher má", lembra-se a mãe de Gordon, 31, com pesar. "Então a brincadeira mudou, e ele tentava salvar a mamãe do homem mau".

A terapeuta explica: "Ele estava tentando dominar as coisas sobre as quais ele ainda não tinha controle. Começamos a introduzir cenários para ajudá-lo a desenvolver a confiança na autoridade de seus pais sobre sua vida."

Liu, que tinha 17 anos quando imigrou para Nova York com um green card pago por seu pai, apertou a mão contra o coração. "Essa maravilhosa terapeuta, esse programa, nos ajudou a ler a mente do nosso filho", disse ela. "Agora ele me abraça e diz 'mamãe' de vez em quando".

Ainda assim, Gordon continua sendo mais retraído do que as outras crianças de sete anos. Liu diz que ele tem problemas com culpa e arrependimento.

"Eu aconselho todas as famílias chinesas, não enviem seus filhos para longe, não importa o quão difícil seja, porque essa perda não pode ser recompensada", disse ela. "O dinheiro não é tão importante. Nada pode substituir a sensação do amor entre os pais e os filhos."

A transferência de bebês atraiu a atenção do público pela primeira vez em Nova York há uma década, quando as trabalhadoras da província de Fujian, profundamente endividadas com as quadrilhas chinesas chamadas "snakeheads", que as haviam traficado para o país, não tinham muita escolha a não ser enviar seus filhos para suas famílias na China.

Normalmente, essas crianças voltavam quando estavam em idade escolar.
A dificuldade de se ajustarem às mudanças de língua, costumes e disciplina dos pais era geralmente comparada aos problemas de outras crianças imigrantes, que com frequência precisam lidar com reencontros muito tempo depois de terem sido abandonadas.

Agora, entretanto, por causa da expansão da pré-escola em tempo integral nos últimos anos, os bebês satélite voltam e entram na escola a partir dos dois anos e nove meses.

Seus pais, incluindo muitos residentes permanentes legalizados e cidadãos como a mãe de Gordon, assumem que seus filhos irão se ajustar mais facilmente porque são mais novos. Mas a primeira infância é uma época crucial para aprender a formar ligações e sentir empatia, e rompimentos sérios podem causar consequências para a vida toda, dizem os psicólogos, incluindo maiores taxas de depressão e disfunção.

Muitas famílias não têm consciência dos danos psicológicos potenciais, disse Hong Shing Lee, chefe operacional da Federação Asiática-Americana em Nova York.

Foi esse o caso da família de Alisa Chen, hoje com quatro anos. Alisa tinha apenas seis meses quando sua mãe, Qiao Yuni Chen, uma garçonete sem condições de pagar berçário, levou-a para a avó na China. Quando Chen voltou para visitá-la, mais de um ano depois - e para deixar a irmãzinha de Alisa, Angie, com a avó - ela ficou desolada com a rejeição de Alisa. Só nas últimas duas semanas da estadia de três meses que Alisa se dispôs a dormir ao lado da mãe.

Alisa entrou na pré-escola da Universidade Settlement em agosto, apenas uma semana depois de chegar a Nova York; dois meses depois, os professores a encaminharam para o Butterflies.

"Ela parecia um pouco perdida, não entendendo inglês, retraída em relação a seus colegas", lembra-se Chiu. "Ela parecia temer que sua mãe não fosse buscá-la". As expectativas da mãe também eram um
problema: o único brinquedo na casa delas era uma lousa, mais apropriada para uma criança de seis anos do que para uma que completaria quatro.

Chen, cujo marido está agora no Exército na Carolina do Sul, dedicou-se a se tornar uma mãe mais atenciosa, disse Chiu. Apesar de falar pouco inglês, ela memorizou foneticamente músicas como "Dona Aranha". Numa loja de 1,99, a terapeuta ajudou-a a escolher brinquedos que permitiriam à filha expressar a si mesma.

O resultado foi óbvio quando a menina voltou de um passeio com a classe ao zoológico do Bronx numa tarde recente. Com o rabo de cavalo balançando e um sorriso cheio de alegria, Alisa se lançou aos braços da mãe. Chiu ficou orgulhosa.

No mês que vem, a irmã de Alisa chegará da China para começar na escola.

Tradução: Eloise De Vylder

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