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27/07/2009

Funeral domiciliar: prestando os últimos cuidados ao falecido com as próprias mãos

The New York Times
Katie Zezima
Em Peterborough (EUA)
Quando Nathaniel Roe, 92, morreu em sua casa de fazenda do século 18 na manhã de 6 de junho, sua família não ligou para uma funerária para tomar as providências.

Em vez disso, os filhos de Roe, assim como um número cada vez maior de pessoas em todo o país, decidiram cuidar do pai na morte, como haviam feito nos últimos meses de sua vida. Eles lavaram o corpo de Roe, vestiram-no com seu paletó de tweed favorito e uma gravata Brooks Brothers e o deitaram na cama para que os membros da família pudessem dizer seu último adeus em particular.

No dia seguinte, Roe foi colocado num caixão de pinho feito pelo filho, junto com um tufo de lã de uma ovelha da qual ele cuidava. Ele foi enterrado em sua fazenda, num jardim perto de um caminho que ele atravessava todos os dias.

"Pareceu apenas um jeito natural e amoroso de fazer as coisas", disse Jennifer Roe-Ward, neta de Roe. "Isso permitiu que ele tivesse dignidade".

  • Cheryl Senter/The New York Times

    Chuck Lakin, defensor de funerais domésticos, prepara um caixão em sua oficina, em Waterville

Os defensores da ideia dizem que o número de funerais em casa, onde tudo, desde cuidar do morto até as horas de visitas e a construção do caixão é feito em casa, aumentou nos últimos cinco anos, colocando os funerais no mesmo patamar onde os "nascimentos em casa estavam há 30 anos", disse Chuck Lakin, um defensor dos funerais em casa e construtor de caixões em Waterville, Maine.

A economia pode ser considerável, mais importante ainda numa crise econômica. Um funeral médio nos EUA custa cerca de US$ 6 mil (R$
11.450) para os serviços de uma funerária, além dos custos da cremação ou do enterro. Um funeral em casa pode ser tão barato quanto o custo da madeira para o caixão (para um enterro no quintal) ou algumas centenas de dólares para cremação ou várias centenas para custos com o cemitério.

Os Roes gastaram US$ 250 (R$ 480).

Mais pessoas estão perguntando sobre as opções de baixo custo, disse Joshua Slocum, diretor da Funeral Consumers Alliance, uma organização sem fins lucrativos. "Os funerais em casa não são para todos, mas se não há dinheiro suficiente para pagar a hipoteca, com certeza não há dinheiro suficiente para pagar um funeral", disse Slocum.

A geração do baby boom, que está lidando com os arranjos funerários pela primeira vez, está buscando especialmente uma experiência mais íntima.

"É orgânico e informal, e está dentro das nossas condições", disse Nancy Manaham de Minneapolis, que ajudou a cuidar de sua cunhada, Diane Manahan, depois que ela morreu de câncer em 2001, e foi coautora de um livro, ""Living Consciously, Dying Gracefully" [algo como "Vivendo Conscientemente, Morrendo com Graça"], sobre a experiência.
"É não ter estranhos se intrometendo na privacidade da família. É não terceirizar o processo da morte para profissionais."

Apesar de apenas uma porção mínima dos mortos do país serem cuidados em casa, o número está crescendo. Há pelo menos 45 organizações ou indivíduos em todo o país que ajudam as famílias com o processo, comparado a apenas dois em 2002, disse Slocum.

O custo de uma "parteira da morte", como alguns dos consultores se autodenominam, varia de cerca de US$ 200 (R$ 380) para uma consulta inicial a US$ 3 mil (R$ 5.700) se o consultor precisar viajar.

Em Connecticut, Indiana, Louisiana, Michigan, Nebraska e New York, as leis requerem que um agente funerário cuide dos restos humanos em algum ponto do processo. Nos outros 44 Estados e no Distrito de Columbia, os próprios parentes podem se responsabilizar pelo corpo.

Normalmente, exige-se que as famílias obtenham um atestado de morte e uma permissão de trânsito para enterro para que o corpo possa ser transportado do hospital para um cemitério, ou, mais comumente, para um crematório.

Mas mesmo nos Estados onde um agente funerário é exigido, os funerais em casa são bem mais baratos.

"Acho que com nossa economia do jeito que está, e está piorando, muitas pessoas que não escolheriam esse tipo de coisa podem ser forçadas a isso por causa das finanças", disse Verlene McLemore, de Detroit, que fez um funeral em casa para seu filho, Dean, em 2007. Ela gastou cerca de US$ 1.300 (R$ 2.480) para os serviços de um agente funerário.

Algumas famílias, como os Roes, escolhem enterrar em terreno privado, com uma permissão da cidade. Na maioria dos Estados, essas regras são locais. "Podemos enterrar a vovó no jardim? Sim, na maioria dos casos, se o jardim for num terreno rural ou semi-rural", disse Slocum.

(Alguns membros da família de Michael Jackson falaram sobre transformar o Rancho Neverland, próximo a Santa Barbara, no lugar de repouso final do cantor, mas as autoridades disseram que ninguém entrou com requerimento no Cemitério e Serviço Funerário da Califórnia, que deveria aprovar o enterro em casa.)

Recentemente, alguns Estados, que estão apoiando o setor funerário, consideraram restringir a prática de enterros em casa. Os legisladores de Oregon aprovaram uma lei no mês passado que exigiria que os parteiros da morte fossem licenciadas, algum que nenhum Estado faz atualmente.

Muitas parteiros da morte são como Jerrigrace Lyons, que foi solicitada para participar do enterro em casa de uma amiga próxima, uma mulher de 54 anos que morreu inesperadamente em 1994. Lyons ficou inicialmente assustada com a perspectiva de lidar com o corpo, mas participou de qualquer forma.

A experiência mudou sua vida, ela disse, e a inspirou a ajudar outras pessoas a planejarem enterros em casa. Ela abriu a Final Passages em Sebastopol, Califórnia, em 1995, e disse que ajudou mais de 300 famílias com funerais. Os cursos de fim de semana para interessados em funerais em casa tem até lista de espera.

Lyons educa os familiares sobre as realidades do cuidado depois da morte como colocar gelo seco sob o corpo para mantê-lo frio e amarrar a mandíbula para que ela não abra.

O carpinteiro Lakin faz caixões especialmente para funerais em casa.

Com preços entre US$ 480 a US$ 1.200 (R$ 915 a R$ 2.290), eles também servem de estante para livros, aparelhos de entretenimento e como mesas de centro, até que precisem ser usados.

Lakin disse que ele começou a se interessar por enterros em casa depois que seu pai morreu há 30 anos e ele sentiu que havia uma "desconexão" durante o processo funerário. Lakin hoje fornece para agentes funerários no central Maine e para o asilo local.

Seus caixões são vendidos para pessoas como Ginny Landry, 77, que quer um enterro em casa, mas por enquanto está contente em usar seu caixão para exibir as colchas de retalhos que faz. Antes o caixão ficava no quarto dela, mas seu marido, Rudolph, fez ela transferi-lo para o quarto de hóspedes porque toda vez que ele olhava para o caixão imaginava sua mulher lá dentro.

"É muito confortador para mim saber que o tenho ali e meus filhos não terão que fazer uma decisão sobre para onde eu devo ir", disse Landry.

Durante sua luta contra o câncer, Diane Manahan também pediu um enterro em casa, e a família não sabia na época quanto isso os ajudaria a lidar com o luto.

"Há algo em tocar, observar, sentar-se ao lado do corpo que faz com que você saiba que a pessoa não está mais ali", disse Nancy Manahan. "Nós nem mesmo percebemos como esses rituais são importantes emocionalmente quando nós mesmos fazemos, até que fizemos."

Tradução: Eloise De Vylder

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