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28/07/2009

Debate na Islândia: independência versus dinheiro do FMI

The New York Times
London Thomas, Jr.
Em Reykjavík (Islândia)
Apenas meses após um colapso bancário de dimensões épicas ter empurrado a Islândia para os braços do Fundo Monetário Internacional (FMI), esta nação insular está mergulhada em um debate acalorado sobre como pagar os seus credores sem ceder uma parcela muito grande da sua independência.

O equilíbrio que a Islândia obtiver entre o atendimento das exigências da comunidade financeira internacional e a satisfação dos desejos da sua população de 300 mil habitantes, que encontra-se cada vez mais ressentida, será observado atentamente neste momento em que os programas do FMI em países cujas economias encontram-se combalidas, da Letônia à Ucrânia, da Hungria à Romênia, entram em uma fase crucial.

"Quando se impõe austeridade, o processo torna-se muito doloroso e tem um preço", diz Simon Johnson, um ex-economista do FMI que atualmente leciona no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Mas muitos islandeses estão responsabilizando o FMI e, segundo Johnson, neste caso tal acusação não se justifica.

"A Islândia é um país rico que comportou-se de forma descuidada e contribuiu para desestabilizar o sistema financeiro mundial", afirma Johnson. "Eles terão que tomar o remédio prescrito".

Embora os membros do governo de esquerda da Islândia não estejam apresentando a situação de forma tão chocante, a verdade é que eles estão propondo basicamente isso.

A Islândia foi o primeiro país a derrubar o seu governo como resultado da crise financeira global. E os islandeses poderão ver o governo que substituiu o anterior cair também, deixando o país sem rumo - a menos que o atual governo consiga a aprovação de um acordo para pagar ao Reino Unido e à Holanda a dívida de US$ 5,7 bilhões (R$ 10,7 bilhões) que usou para indenizar os investidores estrangeiros pelos prejuízos que estes tiveram nos bancos islandeses.

Na semana que vem a medida será submetida a votação no parlamento do país. Mas até mesmo o governo da Islândia está dividido quanto a isso.

"Isso é um ataque à nossa soberania", critica Ogmundur Jonasson, o ministro da Saúde do país. "Isso me faz lembrar dos velhos tempos coloniais. Gordon Brown não criticou os Estados Unidos quando o Lehman Brothers desmoronou e bilhões de libras esterlinas foram para os Estados Unidos. Foi um ato amigável - 'Peguem o cidadão comum e o preguem à parede'".

O governo afirma (pelo menos a maioria dos seus integrantes) que, se a proposta não for aprovada, o FMI e outras instituições de empréstimo financeiro poderão retirar as suas verbas, agravando ainda mais a situação frágil do país.

Mas os que são contrários à medida afirmam que ela aumentaria a carga da dívida da Islândia para 200% do produto interno bruto, fazendo com que o país se tornasse um daqueles com maior leverage financeiro em todo o mundo. Segundo esses críticos, isso poderia acabar levando a Islândia a uma moratória.

No cerne deste debate encontra-se o "Icesave", ou "Iceslave", como é conhecido aqui. As contas Icesave foram a maior aposta do Landsbanki, o mais agressivo dos bancos islandeses falidos, para captar dinheiro com a ampliação da sua rede de agências da pequena Reykjavík para as ruas famosas de Londres. A reação ao acordo para a indenização das contas resume toda a ira crescente que atualmente os islandeses sentem em relação aos banqueiros, os credores estrangeiros e os tecnocratas do FMI - não necessariamente nesta ordem.

Lilja Mosesdottir é economista e integrante do parlamento pelo governista Partido Verde de Esquerda. Mas ela diz que, se fosse votar agora, votaria contra a proposta do governo. Mosesdottir, que é nova na política, foi alçada ao poder no último inverno do hemisfério norte, quando o partido conservador foi derrubado pela "revolução das panelas".

"É como se tivesse havido uma guerra e tivéssemos perdido", diz ela, fazendo um pequeno intervalo de café durante as negociações sobre o acordo. "Esse é um acordo que provocará uma perda de soberania, e não queremos que isso aconteça".

Estando certa ou não quanto à previsão de perda de soberania, a analogia que ela faz com uma guerra é apropriada. A Islândia perdeu bilhões, e agora outros estão ditando os termos da sua recuperação.

O ressentimento sentido aqui baseia-se na crença de que a auto-suficiência, a virtude central da Islândia, foi maculada pelos seus banqueiros e pelos credores estrangeiros. É um sentimento que está enraizado na história e na cultura do país - das sagas nórdicas à busca de autonomia por parte de Bjartur de Summerhouses, o pastor pobre de "Povo Independente", a mais conhecida obra literária do país, escrita por Halldor Laxness.

À medida que aquece-se a retórica, o ministro das Finanças da Islândia, Steingrimur J. Sigfusson, um antigo político de esquerda, vê-se na posição esquisita de defender o plano Icesave, bem como as severas restrições econômicas que o país têm sido obrigado a suportar para qualificar-se para o recebimento de mais dinheiro do FMI e de outras instituições nórdicas de empréstimo financeiro. Tais medidas incluem cortes drásticos dos gastos com saúde e elevação dos preços dos combustíveis. As altas taxas de juros fizeram com que o desemprego aumentasse de 1% para 8% em um período de pouco mais de um ano.

Sigfusson zomba da ideia de uma moratória, e argumenta que o acordo para pagar os credores foi o melhor que poderia ter sido alcançado. Com um prazo de 15 anos, uma baixa taxa de juros e um período de anistia de sete anos, o acordo é suficientemente flexível para permitir que a Islândia o pague, diz Sigfusson, especialmente se a economia recuperar-se e o governo tiver sucesso em vender os ativos estrangeiros do Landsbanki.

"Esta é a maior tragédia de todas", diz ele, parecendo estar cansado devido às brigas parlamentares que atualmente consomem o seu tempo.

Quanto à crença generalizada de que é o FMI, e não o governo, que dita as políticas do país, Sigfusson reconhece que está mantendo contatos próximos com o representante local da instituição financeira.

Ele afirma que há discórdias frequentes, especialmente devido à recomendação do fundo no sentido de que o governo mantenha altas taxas de juros bem como controles de capital - uma prescrição que ele descreve como sendo similar a usar um cinto e suspensórios ao mesmo tempo. Mas Sigfusson frisa que é a Islândia, e não o FMI, que tem a palavra final.

"Isto é um desafio não só para nós, mas também para o FMI", afirma ele. "Eles têm muita coisa em jogo aqui, já que precisam demonstrar que são suficientemente flexíveis para adaptar o seu programa a um país nórdico desenvolvido que adota o welfare state".

Conhecido por muitos aqui como "o governador da Islândia", Franek Rozwadowski, o representante do FMI, argumenta que essa designação não é correta. Como parte do seu programa, a Islândia precisará transformar em superávit, até 2013, um déficit que atualmente equivale a 13% do seu produto interno bruto.

"Seria mais acurado chamar esta relação de uma colaboração na qual a Islândia recorreu ao fundo para que este ajude a elaborar o programa de recuperação financeira do país", afirma Rozwadowski.

Em 3 de agosto, o FMI deverá decidir se pagará a segunda parcela do seu empréstimo de US$ 2,1 bilhões (R$ 3,94 bilhões) à Islândia (até agora cerca de um quarto foi pago). Rozwadowski diz que a Islândia está dando os passos para equilibrar o seu orçamento sem atrasos, e elogia Sigfusson pela sua coragem política.

Mas tais elogios são de pouca valia para muitos islandeses que viram as suas dívidas pessoais disparar após a queda vertiginosa do valor da moeda da Islândia, a krona.

Gunnar Sigurdsson, um diretor de teatro, diz que a prestação do seu carro - que está indexada por um conjunto financeiro composto de francos suíços e ienes japoneses - dobrou desde o início da crise. As prestações da sua hipoteca aumentaram mais de 35%. Ele diz que a falência pessoal é inevitável, e atualmente tenta fazer um documentário do tipo "Roger e Eu", apontando a sua câmera para os principais políticos, banqueiros e, se tiver sorte, Dominique Strauss-Kahn, o presidente do FMI. "Já sofri o suficiente devido a essa estupidez", afirma Sigurdsson. "Tudo o que quero são respostas".

Tradução: UOL

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