UOL Notícias Internacional
 

28/07/2009

Os proprietários de terras de Swat, alvos do Taleban, permanecem no exílio

The New York Times
Jane Perlez e Pir Zubair Shah
Em Islamabad (Paquistão)
Enquanto centenas de milhares de pessoas voltam para o Vale de Swat após serem deslocadas por meses de combates, um grupo importante está notadamente ausente: os ricos proprietários de terras que fugiram do Taleban e que são o pilar econômico da sociedade rural.

A relutância dos proprietários em retornar é um golpe significativo contra a campanha das forças armadas paquistanesas para restaurar Swat como uma parte estável e próspera do Paquistão, e representa uma oportunidade contínua para o Taleban remodelar o vale para atender seus interesses.

Cerca de quatro dúzias de proprietários de terras se transformaram em alvo dos militantes nos últimos dois anos, em uma estratégia voltada a fomentar a luta de classes. Em algumas áreas, o Taleban recompensou os camponeses sem-terra com os lucros das plantações dos donos das terras. Alguns camponeses ressentidos até mesmo se alistaram nas tropas de choque do Taleban.

Quantos desses camponeses permaneceram com os militantes talebans durante a ofensiva do exército paquistanês dos últimos meses, e quantos foram para os campos de refugiados, é difícil de avaliar, disseram analistas paquistaneses.

Mas relatos que chegam de Swat mostram que o Taleban ainda tem força para aterrorizar áreas importantes. O exército paquistanês continua enfrentando o Taleban em suas fortalezas, particularmente nas regiões de Matta e Kabal de Swat, não distantes da principal cidade, Mingora, onde muitos refugiados retomaram seus lares.

Naquelas regiões, o Taleban demoliu casas, matou um civil que trabalhava para a polícia em Matta e sequestrou outro, preocupando os especialistas em contrainsurreição, que temem que os refugiados possam ter sido encorajados pelas autoridades paquistanesas a voltar para casa cedo demais.

A reconstrução de Swat, uma área fértil de pomares e florestas, é um teste crítico para o governo paquistanês e suas forças armadas, ao enfrentarem as insurreições do Taleban por todo o cinturão tribal, particularmente no Waziristão, na fronteira com o Afeganistão.

Em um sinal de falta de confiança de que Mingora estava segura, as forças armadas paquistanesas rejeitaram o pedido do emissário especial do governo Obama para o Paquistão, Richard C. Holbrooke, para visitar a cidade na semana passada.

Havia um nervosismo, disse um especialista americano em contrainsurreição, de que os planos das autoridades paquistanesas de formar novas forças policiais comunitárias em Swat não se materializariam rápido o bastante para proteger os o retorno dos civis, que também carecem de serviços como bancos e atendimento médico.

"Não há um aparato posicionado para substituir o exército", disse um funcionário americano de contrainsurreição. "O exército será a proteção."

Cerca de 2 milhões de pessoas fugiram de Swat e áreas ao redor desde que as forças armadas paquistanesas iniciaram sua campanha no final de abril para expulsar o Taleban. A ONU disse na segunda-feira que 478 mil pessoas retornaram para Swat até o momento, mas alertou que foi incapaz de verificar o número, que foi fornecido pelo governo.

Duas viagens de levantamento por funcionários da ONU em Swat, marcadas para segunda e terça-feira, foram canceladas por razões de segurança, e o escritório da ONU em Peshawar, que serve como base para as operações em Swat, estava fechado na segunda-feira devido a uma alta ameaça de sequestro, disse um porta-voz.

Os proprietários de terras, muitos dos quais dispondo de milícias consideráveis que formaram no ano passado para combater pessoalmente o Taleban, disseram que o exército está novamente fracassando em fornecer proteção suficiente para poderem retornar.

Outro obstáculo para a volta, eles disseram, é que a liderança do Taleban -responsável por visar os donos de terras e distribuir a pilhagem entre os camponeses sem-terra- permanece ilesa.

A ausência dos proprietários de terras terá ramificações duradouras não apenas em Swat, mas também para a maior província do Paquistão, o Punjab, onde as propriedades são vastas e os militantes estão ganhando poder, disse Vali Nasr, um alto conselheiro de Holbrooke, o emissário americano.

"Se os grandes proprietários de terras forem mantidos de fora pelo Taleban, o resultado será na prática uma redistribuição de terras", disse Nasr. "Isso criará uma vasta comunidade de apoio ao Taleban, que se beneficiará na ausência dos proprietários."

Em duas grandes reuniões com os grandes proprietários, as autoridades civis e militares do Paquistão pediram que retornassem na vanguarda dos refugiados. Nenhum deles concordou, segundo vários proprietários e um alto oficial do exército.

"Nós já sacrificamos demais; o que o governo e as forças armadas fizeram por nós?" perguntou Sher Shah Khan, um proprietário de terras na área de Kuz Bandai, em Swat.

Ele atualmente está morando com 50 parentes em uma casa alugada a cerca de 100 quilômetros de Swat. Quatro parentes e oito funcionários foram mortos tentando combater o Taleban, ele disse.

Em uma das reuniões, Khan disse ter pedido aos comandantes do exército que fornecessem armas para que os donos de terras pudessem proteger a si mesmos, como fizeram no passado.

Os militares rejeitaram o pedido, ele disse, dizendo que eles mesmos combateriam o Taleban. Mas os soldados paquistaneses fracassaram em proteger suas terras, ele disse. Vinte de suas casas foram demolidas pelo Taleban após o exército ter ordenado que ele e sua família deixassem suas terras com um aviso prévio de apenas duas horas, em setembro passado, segundo ele.

Uma carta que ele enviou no mês passado ao general Ashfaq Parvez Kayani, o chefe das forças armadas paquistanesas, pedindo indenização, segundo ele não foi respondida. Enquanto isso, um de seus arrendatários telefonou para perguntar se podia plantar na propriedade de Khan. Ele recusou, mas tinha pouca ideia do que estava acontecendo em casa.

Outros proprietários se disseram igualmente frustrados. O prefeito de Swat, Jamal Nasir, fugiu depois que seu pai, Shujaat Ali Khan, considerado o maior proprietário de terras em Swat, escapou por pouco de ser morto pelo Taleban. Nasir, ele mesmo um grande proprietário, agora permanece em sua casa em Islamabad.

Os chefões do Taleban ainda permanecem em Swat, ou talvez na vizinha Dir, disse Nasir. "Essas pessoas deviam ser presas", ele disse. "Se não forem presas, elas voltarão."

Outro grande proprietário, Sher Mohammad, disse ainda estar amargo pela recusa do exército em ajudar quando ele, seu irmão e seu sobrinho enfrentaram o Taleban no ano passado por 13 horas, apesar dos soldados estarem estacionados a menos de 2 quilômetros de distância. Mohammad foi atingido na virilha por uma bala e perdeu um dedo na luta.

Em uma das reuniões com os militares em Peshawar, Mohammad, um político proeminente do Partido do Povo do Paquistão, disse ter dito aos oficiais que não estava impressionado com a atuação deles.

"Eles disseram: 'Nós protegeremos vocês'. Eu disse: 'Nós não confiamos em vocês'."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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