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02/08/2009

Com escassez de empregos no Japão, mulheres se tornam paqueradoras profissionais

The New York Times
Hiroko Tabuchi
Em Tóquio (Japão)
As mulheres que servem bebidas nos elegantes clubes masculinos do Japão já foram vítimas de preconceito porque suas funções eram consideradas despudoradas: oferecer atenção amorosa (apesar de não sexual) aos homens, por um preço salgado.

Mas o trabalho de "hostess" está entre os mais lucrativos para as mulheres, e na profunda recessão pela qual o Japão está passando, as vagas são cada vez mais cobiçadas. As próprias hostesses estão ganhando respeito e até mesmo admiração. A pior recessão do Japão desde a Segunda Guerra está transformando os costumes.

"Cada vez mais mulheres de diversas formações estão procurando trabalho como hostess", disse Kentaro Miura, que ajuda a gerenciar sete clubes noturnos em Kabuki-cho, o bairro da luz vermelha de Tóquio. "Há menos resistência quanto a se tornar uma hostess. De fato, isso é visto como um trabalho glamouroso."

Mas por trás dessa tendência está uma realidade bem menos glamourosa. As oportunidades de trabalho para jovens mulheres, especialmente para aquelas sem estudo superior, estão normalmente limitadas a empregos sem perspectiva e mal pagos ou vagas temporárias.

Mesmo antes da crise econômica, quase 70% das mulheres entre 20 e 24 anos trabalhavam em empregos com poucos benefícios e pouca segurança, de acordo com a pesquisa de emprego do governo. A situação piorou com a recessão.

Por esse motivo, um número cada vez maior de mulheres japonesas parece acreditar que trabalhar como hostess, em empregos que podem render facilmente US$ 100 mil por ano e até US$ 300 mil para as mais concorridas, faz sentido economicamente.

Até as hostesses que trabalham meio período ou as que ganham menos recebem pelo menos US$ 20 por hora, quase duas vezes mais do que o valor pago nos empregos temporários.

Numa pesquisa de 2009 com 1.154 jovens estudantes, feita pelo Instituto de Estudos Culturais em Tóquio, o trabalho de hostess ficou em 12º lugar entre as 40 profissões mais populares, acima dos funcionários públicos (18º) e enfermeiras (22º).

"Só quando você é jovem pode ganhar dinheiro só por beber com os homens", disse Mari Hamada, 17.

Muitos dos clubes-cabaré, ou kyabakura, são estabelecimentos elegantes com madeira escura e almofadas de pelúcia, onde garçons de gravata borboleta ou hostess de vestidos de noite caminham entre os clientes bebendo vinhos excepcionalmente caros.

Algumas hostesses trabalham para pagar a faculdade ou um curso técnico, ou para economizar e abrir seus próprios negócios.

O trabalho de hostess não envolve prostituição, apesar de grupos religiosos e de defesa das mulheres afirmaram que elas podem ser pressionadas para fazer sexo com os clientes, e que o trabalho pode ser uma porta de entrada para o crescente mercado clandestino do sexo no Japão.

As hostesses dizem que essas são ocasiões raras, e que a exaustão de uma vida de festas é o prejuízo mais comum em sua profissão.

As jovens entretanto são atraídas por histórias de Cinderella como a de Eri Momoka, uma mãe solteira que se tornou hostess e trabalhou até sair da miséria e começar uma carreira na televisão e criar sua própria linha de roupas e acessórios.

"Com frequência recebo e-mail de fãs que ainda estão na escola e dizem que querem ser como eu", disse Momoka, 27, do alto de seus sapatos de salto 18, que são sua marca registrada. "Para as meninas, a hostess é como uma princesa dos tempos modernos."

Até uma integrante do Parlamento japonês, Kazumi Ota, já foi hostess. Antigamente, essa revelação teria provocado um enorme escândalo, mas isso não aconteceu. Ela concorrerá à reeleição pela legenda do principal partido de oposição, o Partido Democrático do Japão, nas eleições nacionais no mês que vem, e espera-se que a legenda tire o partido governista do poder.

Não se sabe exatamente quantas hostesses trabalham no Japão. Só em Tóquio, cerca de 13 mil estabelecimentos oferecem entretenimento noturno com hostess (incluindo alguns homens), incluindo clubes exclusivos para sócios, frequentados por políticos e executivos, assim como clubes-cabaré mais baratos.

Elas servem bebidas, oferecem atenção e conversa e acompanham os homens em encontros de última hora, mas em geral não faze sexo por dinheiro. (Os homens que querem isso podem procurar prostitutas, apesar de ser uma atividade ilegal.)

Hostesses são normalmente classificadas de acordo com sua popularidade entre os clientes, com a número um de cada clube assumindo o status de uma estrela.

Mineri Hayashi se tornou a primeira de seu clube, Celux, seis anos depois de chegar a Tóquio do norte do Japão. Numa noite recente, ela estava se preparando para um evento elaborado de aniversário que o clube estava fazendo em sua homenagem.

Fora do clube, posteres de Hayashi adornavam a rua. Lá dentro, uma dúzia de homens penduravam bexigas e enfileiravam garrafas de champanhe.

A clientela dos clubes é diversa, incluindo assalariados, empresários e outros homens relaxando depois do trabalho.

O Celux espera lucrar mais de US$ 60 mil com a festa de aniversário de Hayashi, à qual comparecerão hordas de clientes regulares.

"A vida tem sido divertida, e eu quero continuar me divertindo", disse Hayashi, colocando uma tiara na cabeça. Ela diz ter planos de se aposentar no ano que vem e viajar para fora do país.

Sua irmã de 17 anos, que também quer ser uma hostess, pode sucedê-la. Hayashi a incentiva. "Só quero que ela seja feliz", disse.

A cultura popular também está alimentando a popularidade das hostesses. Comédias de televisão estão começando a retratar as mulheres de cabarés, ou kyabakura, enquanto as mulheres constroem carreiras de sucesso. Há também hostesses escrevendo bestsellers, seja sobre administração financeira ou a arte da conversação.

Uma revista que trata da moda das profissão tem se tornado bastante popular com as mulheres que não trabalham na área, mas imitam seus olhos pesadamente maquiados seus grandes penteados.

Mas Serina Hoshino, 24, outra hostess de Tóquio, está cansada das noites mal dormidas e do excesso de bebida.

Com uma postura largada na cadeira do salão de cabeleireiros MAC, ela falou sobre os encontros intermináveis com os clientes depois do expediente. Cambaleando de volta para casa ao nascer do sol, ele dorme o resto do dia. Em seus dias de folga, ela raramente deixa o apartamento.

Sua recompensa é cerca de US$ 16 mil por mês, quase dez vezes mais do que o salário da maioria das mulheres de sua idade.

"É legal ser independente, mas é muito estressante", disse Hoshino, em meio a uma nuvem de spray de cabelo e fumaça de cigarro.

Nos últimos meses, os clubes também começaram a sentir o aperto da crise econômica. Os salários das hostesses começaram a cair para US$
16 por hora. Ainda assim, o valor continua acima da maioria dos trabalhos diurnos aqui.

Então, as jovens continuam chegando. O bairro Kabuki-cho está cheio de seguranças de terno escuro recrutando mulheres. Um deles disse que algumas mulheres chegam na cidade para as entrevistas acompanhadas de suas mães, o que nunca aconteceria se o trabalho fosse menos respeitável.

"As mulheres estão sendo demitidas de trabalhos diurnos e acabam procurando emprego conosco", disse Hana Nakagawa, que comanda uma agência de empregos para os clubes mais elegantes de Tóquio.

Ela recebe cerca de 40 pedidos por semana de mulheres procurando trabalho, duas vezes mais do que antes da crise econômica.

Atsushi Miura, especialistas no assunto, diz que o trabalho de hostess será popular entre as mulheres japonesas enquanto outros empregos que paguem bem forem escassos.

"Algumas pessoas ainda dizem que as hostesses estão jogando suas vidas fora", disse. "Mas em vez de criticá-las, o Japão deveria criar mais empregos para as mulheres jovens".

Tradução: Eloise De Vylder

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