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03/08/2009

Infraestrutura da Guerra Fria ainda pode ser vista nos subúrbios de Nova York

The New York Times
Por Joseph Berger
Em Sandy Hook, Estados Unidos
Um daqueles abomináveis botões da Guerra Fria - a chave que poderia lançar um míssil nuclear contra um avião bombardeiro soviético e possivelmente levar a um apocalipse - pode ser encontrado num trailer enferrujado no meio da vegetação de pinheiros e carvalhos do banco de areia deste estuário próximo a Staten Island.

Outro dia, Bill Jackson espremeu seu robusto corpo de 62 anos para dentro do trailer e lembrou-se de quando era sargento aos 20 anos de idade e chefiava uma das equipes responsáveis pelos 24 mísseis Nike Hercules guardados aqui na época.

Ele se lembrou principalmente de um dia de primavera em 1971, quando um bombardeiro soviético sobrevoou o que os Estados Unidos consideravam seu espaço aéreo e Jackson correu para sua estação de batalha. Dezesseis mísseis logo foram apontados para o céu, apesar de o botão jamais ter sido apertado.

"Estávamos no limiar da 3º Guerra Mundial", disse Jackson, com um certo terror tingido por uma espécie de orgulho pelo fato de ter estado em suas jovens mãos a tarefa de executar altas decisões sobre o futuro da humanidade. À medida que se aproximam os aniversários das bombas de Hiroshima (6 de agosto de 1945) e Nagasaki (9 de agosto), relembrando a aurora da era nuclear, Jackson e outros se recordam de que os mísseis atômicos não ficavam armazenados somente em paisagens desoladas no Oeste do país, mas também no meio dos subúrbios e áreas movimentadas de Nova York. Havia 21 lugares como estes protegendo a cidade de Nova York, e relíquias daquela época - como o trailer de Jackson - ainda existem em lugares como Livingston, Nova Jersey, e Westhampton, em Long Island.

E apesar de muitos desses lugares terem assumido funções muito diferentes há muito tempo, alguns assuntos velhos e novos - como a limpeza da matéria radioativa de um míssil lançado de uma base em Nova Jersey em 1960, e um plano para vender os bens de uma base em Long Island para reduzir o déficit no orçamento local - continuam emergindo.

Há algumas décadas, os moradores das vizinhanças desses postos militares sabiam que havia mísseis atrás das cercas, mas relativamente poucos tinham conhecimento de que eles estavam armados com ogivas nucleares, dizem os especialistas. Mesmo hoje, alguns moradores dos subúrbios acham assustador saber que viveram tão próximos disso tudo.

"Era perto demais de casa", disse Karen Reinhardt, 46, mãe de dois filhos de Highlands, Nova Jersey, que fazia cooper nas proximidades de antigo Nike Ajax e um Hércules em exibição em Sandy Hook. Donald Bender, um historiador amador e consultor militar, disse que a partir do final dos anos 50 o Exército circundou a cidade de Nova York com 180 mísseis Hércules com ogivas nucleares; as dez bases ficavam em lugares no meio do mato como Mahwah, Nova Jersey; Amityville, Nova York; e Fort Tilden, em Rockaways.

As Forças Aéreas tinha duas bases adicionais para seus mísseis nucleares Bomarc, uma em Westhampton e outra na Base Aérea McGuire, no centro de Nova Jersey, e havia nove bases locais que podiam lançar mísseis Ajax convencionais, em lugares como White Plains, Nova York; Spring Valley, Nova York; Summit, Nova Jersey; e Oyster Bay, Nova York.

Outras cidades americanas também tinham anéis de proteção como Nova York, incluindo Bridgeport, Connecticut, que era defendia por bases em cidades dormitório como Westport e Fairfield.

Durante duas décadas, essas bases serviram como a última defesa contra um ataque soviético. Mas os mísseis acabaram se tornando obsoletos com a construção de mísseis de balística mais rápidos e difíceis de serem detectados, que por sua vez geraram a crença de que uma "destruição mútua assegurada" impediria que um inimigo lançasse o primeiro ataque.
Sem mais utilidade, as bases de mísseis foram desativadas em 1974.

Mas traços desse passado Strangeloviano ainda são visíveis, e aficionados como Jackson e Bender oferecem tours nas bases de Sandy Hook e outras, a maioria das quais passou por transformações, trocando a espada pelo arado.

A base em Summit, Nova Jersey, por exemplo, tornou-se um estábulo. As de Wayne e Ramapo, Nova Jersey, viraram estacionamentos de ônibus escolares, e, em Livingstone, Nova Jersey, nove antigos edifícios de comando são usados como estúdios por 40 artistas.

"Antigamente este era um lugar que envolvia estratégia militar, e hoje encoraja a criatividade", disse Leonard DiNardo, 64, um artesão vidreiro para quem esse contraste é particularmente significativo por ter servido a Marinha perto de Hiroshima durante a Guerra do Vietnã.

Os lugares normalmente são grandes o suficiente para acomodar diversos usos. A antiga base em Westhampton cobre 186 acres e tem 56 bunkers de mísseis do tamanho de garagens, cobertos com vinhas, cujos tetos antes se abriam como conchas para o lançamento.

Agora o condado de Suffolk é dono da espaçosa propriedade, e a usa para ensinar manobras de direção para policiais, além de estacionar 3.100 carros confiscados e guardar móveis descartados.

Nos últimos meses, tentando acabar com o déficit no orçamento, o governo regional vendeu a maior parte dos móveis para o ferro-velho e agora quer vender os carros confiscados.

Na Base Área de McGuire, o passado atômico ainda está presente. Em 2000, moradores das vizinhanças ficaram apreensivos ao saber que o solo da base, que havia sido contaminado com 310 gramas de plutônio como resultado de um lançamento de míssil em 1960, seria transportado através de suas cidades.

Uma nova rota de transporte foi criada, e em 2004, quase 17 mil metros cúbicos de terra foram levados embora, apesar de que a sargento Danielle Johnson, oficial de relações públicas, ter dito que fluidos hidráulicos dos lançadores e alguma "contaminação radiológica de baixo nível" ainda seria removida mais tarde este ano.

As bases desativadas relembram uma época de treinamento anti-ataques aéreos nas escolas, abrigos contra chuva radioativa onipresentes e um constante aumento da tensão.

Em 1954, o Exército produziu o míssil convencional Ajax, que tinha um alcance de 40 quilômetros. Mas uma vez que errar o alvo significava que um avião soviético poderia lançar uma bomba em Manhattan, o Exército mudou então para o Hércules, que tinha um alcance maior, de 140 quilômetros, e podia carregar ogivas nucleares em três tamanhos - 3, 20 e 30 quilotons. (A bomba de Hiroshima tinha 12 quilotons.)

Mesmo se não acertasse em cheio, um míssil como esse poderia teoricamente vaporizar um esquadrão soviético.

Em Sangy Hook, os mísseis Hércules eram guardados em compartimentos subterrâneos cobertos por lajes grossas. Só o presidente, o vice-presidente ou o secretário de Defesa poderiam dar a ordem de lançamento, disse Jackson.

E uma ordem como essa, verificada através de antigos livros de código, desencadearia uma rede de comandos aos soldados ordinários dentro do trailer, e seria o seu dedo que apertaria o botão. Todos esses soldados provavelmente tinham 22 anos e ganhavam cerca de US$ 110 por mês, disse Jackson rindo.

Durante uma semana por mês, quando sua equipe estava "quente", disse Jackson, seus homens dormiam de uniforme. "Se você recebesse um alerta, vestia as botas e saía correndo", disse.

Ele e Bender disseram que o Exército acreditava que se um míssil nuclear interceptasse um bombardeiro, a bola de fogo de uma explosão em meio-ar sobre o Atlântico não mataria muitos civis e certamente não chegaria nem perto do número de mortes provocadas por um ataque soviético direto.

"Isso soa um pouco maluco", disse Bender, "mas era a noção que tínhamos". Tradução: Eloise De Vylder

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