UOL Notícias Internacional
 

03/08/2009

Na Índia, uma nova cruzada contra a corrupção

The New York Times
Por Heather Timmons
Em Nova Déli
Quando Ashwani Kumar assumiu como a principal autoridade anticorrupção da Índia no ano passado, o primeiro-ministro Manmohan Singh, seu novo chefe, o aconselhou: "Siga o caminho da honestidade".

Mas o trabalho já havia frustrado muitos de seus antecessores. A Índia está em 85º lugar no índice de percepção de corrupção criado pela organização sem fins lucrativos Transparência Internacional, pior do que a China, México e Brasil.

Kumar, 58, policial de carreira e diretor do Departamento Central de Investigação, mergulho de cabeça na tarefa hercúlea. Em apenas pouco meses, ele aumentou a visibilidade da briga da Índia contra os complexos crimes corporativos e conseguiu apoio público para seus programas para lutar contra a corrupção no governo.

Mas notoriamente, a capacidade investigativa de sua agência sobre sobre os negócios foi aclamada internacionalmente, depois que o fundador e presidente de uma das maiores companhias de tecnologia da Índia, a Satyam Computer Systems, confessou ter falsificado US$ 1 bilhão em dinheiro em seu balancete em janeiro, a maior e mais ampla fraude moderna da Índia.

Apenas 45 dias depois de assumir o caso, o Departamento Central de Investigação havia acusado seis pessoas e produzido um relatório completo de como os investigadores suspeitavam que a fraude tivesse acontecido, baseado em centenas de entrevistas e sustentado por milhares de páginas de documentos. O Departamento descreveu até as minúcias dos truques de contabilidade e táticas de duplo-faturamento usadas para cometer a fraude.

Por outro lado, o Departamento de Justiça dos EUA levou anos para elaborar um caso constrangedor contra os altos executivos da Enron, companhia de energia hoje falida. A comparação pode não ser totalmente adequada, porque a fraude da Satyam foi revelada por uma confissão.
Mas o tamanho do esquema de contabilidade levou os analistas e acadêmicos a chamarem a Satyam de "Enron da Índia".

Sudhakar V. Balachandran, professor-assistente de contabilidade na Columbia Business School, disse que os Estados Unidos poderiam aprender muito com a rápida resposta da Índia à Satyam.

Os investidores estrangeiros "sabem que ações rápidas e decisivas foram tomadas", disse Balachandran. "Seu eu fosse um investidor buscando um mercado emergente, procuraria sinais de que ele funciona bem". Isso inclui assumir uma rápida investigação ao primeiro indício de corrupção ou fraude, disse ele.

Alguns defensores dos direitos dizem que o Departamento foi cauteloso demais e ignorou direitos básicos. Sob as ordens do Departamento, dois contadores da Satyam estão presos há sete meses antes de serem julgados, muito embora alegassem inocência e até hoje não tenham sido condenados por crime algum. O Departamento de Kumar, entretanto, afirma que a prisão deles é justificada.

Além da Satyam, Kumar tem ambições maiores para o Departamento. Com apenas 5 mil agentes, ele tem menos da metade do tamanho do seu equivalente norte-americano, o FBI, apesar de a população da Índia ser mais do que quatro vezes maior do que a dos Estados Unidos. Mas o Departamento da Índia está tentando novos métodos para lutar contra as fraudes e subornos que podem ajudar a compensar pela falta de funcionários.

Por exemplo, o Departamento está embarcando numa campanha nacional para restringir a corrupção, que conta com o apoio do público, pedindo às pessoas para usarem seus telefones celulares para enviar mensagens detalhadas sobre casos de corrupção.

O crescimento econômico, o aumento da industrialização e da globalização significam que o crime econômico está aumentando, disse Kumar. "Os crimes tradicionais estão desaparecendo no pano de fundo"
em favor de crimes digitais e fraudes de cartões de crédito, disse ele.

Desde que Kumar assumiu a função, o Departamento prendeu dezenas de gerentes de bancos, burocratas, engenheiros e empreiteiros suspeitos de crimes que incluíam a aceitação de suborno, fraude de documentos e roubo de petróleo. Uma investigação recente de altos oficiais do Conselho para Educação Técnica All India, um grupo criado para melhorar a educação profissionalizante para os jovens, descobriu 36 contas bancárias que haviam sido usadas para esconder dinheiro ilícito.

Numa reunião este ano com banqueiros do setor privado, Kumar disse que o Departamento agiria como um "facilitador para o crescimento do setor financeiro", impedindo algo que os reguladores dos Estados Unidos não conseguiram deter - as fraudes das hipotecas e empréstimos de risco.

A princípio Kumar parece um improvável cruzado na luta contra a complexa fraude financeira. Ele passou a maior parte de sua carreira de 35 anos nas floretas do Estado montanhoso de Himachal Pradesh, lutando contra o desmatamento e caça ilegal. Mas logo ascendeu na hierarquia do serviço civil da Índia, tornando-se diretor-geral de polícia do Estado. Seu sucesso então chamou a atenção do governo de Singh.

A lei teve um papel importante na vida da família de Kumar. Seu pai era policial, e ele é casado com a filha de um policial.

Discutir o respeito pelo meio-ambiente o deixa inflamado, e ele fica entusiasmado ao contar que a nova sede do Departamento será num prédio "verde". Sua sala é imaculada, ele é extremamente educado e segue uma agenda rigorosa que envolve acordar as 4h da manhã para duas horas de trabalho, depois uma hora de exercícios.

Kumar diz que seus casos importantes rendeu-lhe inimigos. E ele alerta que o Departamento não é capaz de impedir a corrupção sozinho. O Departamento lida com a investigação, "mas a punição é dada pelos tribunais", disse.

E ele reconhece prontamente que a corrupção às vezes acontece dentro do próprio Departamento.

"Os seres humanos são sempre fracos, e esses incidentes acontecem", disse ele. "A questão é se nós toleraremos esse tipo de comportamento?
A resposta é: de jeito nenhum."

Especialistas em corrupção dizem que sua luta pode ser eficaz, mesmo que esteja cercado por um sistema corrupto.

"Uma pessoa pode fazer a diferença, assim como todos os líderes podem fazer a diferença", disse Christiaan Poortman, diretor geral de programas da Transparência Internacional. No caso de Kumar, Poortman disse que os esforços anticorrupção podem gerar frutos.

"Se ele tem a atenção do primeiro-ministro, quem sabe? Pode funcionar", disse Poortman. Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,32
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,56
    63.760,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host