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03/08/2009

Novas propostas para combater enchentes em Mumbai

The New York Times
Vikas Bajaj
Em Mumbai (Índia)
Enquanto a cidade se preparava, recentemente, para inaugurar uma nova ponte (que promete melhorar o trânsito crônico de Mumbai), Dilip da Cunha observava os pontos fracos dos canais e sistemas de drenagem da cidade.

Ao levar dois visitantes num passeio por uma congestionada estrada em dique, onde o sujo Rio Mithi encontra o Mar Arábico perto da nova ponte, a Bandra-Worli, ele apontou um grupo de árvores ali próximo, sob o qual vários homens defecavam.

As árvores representavam uma das últimas espécies dos mangues que já dominaram a ecologia de Mumbai, capital financeira da Índia e sua cidade mais populosa.

Ao longo das décadas, a maioria dos pântanos do estuário do Rio Mithi que abrigavam essas árvores deu lugar a estradas, favelas, edifícios comerciais e torres de apartamentos.

Apesar de que o refúgio dos mangues ofereceu um espaço valioso para o crescimento de Mumbai, Da Cunha, que recentemente terminou, junto com sua mulher, um estudo profundo da paisagem da cidade, disse que o desaparecimento das espécies, além da degradação dos canais locais, tornou a cidade cada vez mais vulnerável a enchentes durantes as monções.

"Em algum momento, havia muitas espécies de mangue aqui, e elas faziam do local um pântano fantástico", disse ele. "Reduzimos esses mangues a quase uma única espécie, que sobreviveu com as águas poluídas, o esgoto que está por aqui".

No verão de 2005, algumas semanas antes que o furacão Katrina devastasse Nova Orleans e partes do Mississipi, Mumbai presenciou um recorde de 95 centímetros de chuva em 24 horas. Cerca de 900 pessoas morreram nessas enchentes, na cidade e nas redondezas.

Apesar de ter gasto milhões de dólares em sistemas de drenagem desde então, recentemente uma chuva noturna, com um décimo da gravidade da de 2005, fez com que o trânsito e os trens em muitas partes da cidade virassem um caos durante o horário de pico da manhã.

Inspirados pelas enchentes de 2005, Da Cunha e sua mulher, Anuradha Mathur, professora de design e arquitetura de paisagem da Universidade da Pensilvânia, passaram os últimos dois anos e meio estudando Mumbai e sua relação conturbada com a água. Recentemente, eles divulgaram suas descobertas, além de 12 propostas para tornar a cidade mais resistente a enchentes, na forma de uma exibição de museu e um livro, ambos intitulados: "Encharcados: Mumbai num estuário".

Eles documentaram o estado atual dos canais e mangues da cidade. Também coletaram vários mapas históricos, imagens e documentos com centenas de anos. Eles fizeram um trabalho similar no passado, apesar de menos abrangente, sobre os rios Mississipi e Bangalore.

Suas descobertas mostram que uma série de características naturais, como manguezais e riachos interconectados já protegeram e moldaram Mumbai, assim como os antigos pântanos do delta do rio Mississipi protegiam Nova Orleans. No entanto, essas defesas foram enfraquecidas com o passar dos anos, desde a época do domínio britânico, quando os pântanos foram aterrados e os riachos foram estreitados ou desviados.

Os mapas e documentos históricos mostram pouca valorização desses recursos naturais perdidos. A maioria dos mapas antigos não faz menção a pântanos, que eram rotulados simplesmente de "terras ruins". Há poucas imagens de árvores e plantas que formaram essas áreas. Mais que isso, as fronteiras entre terra e mar nunca foram desenhadas como eram durante as monções, quando os pântanos dos estuários expandiam, mas somente como elas eram durante o verão ou inverno. "As monções eram vistas como tempo ruim", disse Mathur. "Todo o planejamento era baseado em mapas com tempo bom".

Mathur e Da Cunha, que cresceram na Índia, mas se conheceram em São Francisco, disseram ter começado o trabalho em parte para oferecer uma interpretação alternativa de Mumbai - que ela fosse considera um estuário onde águas salgadas e frescas coincidem, em vez de uma ilha deve ser protegida da água.

"Estamos tentando encontrar formas de visualizar essas paisagens complexas", disse Da Cunha.


Ainda assim, eles também parecem ser realistas e não defendem o retorno da cidade a uma paisagem anterior, mais idílica. Eles propõem uma série de projetos que alterariam e inclinariam a paisagens capazes de reduzir ou conter enchentes durante as monções, sem deslocar sua população e comércio vibrantes.

Por exemplo, eles defendem que os maidans, ou áreas abertas, muitas vezes usadas como playgrounds, deveriam ser reprojetados, a fim de poderem segurar água da enchente durante tempestades e conectar cursos d'águas uns aos outros. Eles também recomendam criar mais passagens para o mar para o Rio Mithi, que atualmente não tem nenhuma saída. Outra proposta é criar e ampliar canais que possam servir de cinturões verdes no tempo bom, mas que possam carregar água da chuva e água salgada do mar, do oeste para as saídas no leste.

Mathur, Da Cunha e parceiros, como a Sociedade Asiática, contaram com a ajuda de apoiadores poderosos e influentes para seu trabalho. Um deles, o principal ministro do estado de Maharashtra, do qual Mumbai é a capital, falou na abertura ao público da exibição e fez com que a Galeria Nacional de Arte Moderna abrigasse as obras.

Entretanto, não está claro quanta atenção será dada a suas ideias, que estão muito distantes dos planos municipais e estaduais para usar abordagens mais tradicionais de controle de enchentes, como estações de bombeamento e dragagem de rios.

Mesmo assim, Mathur e Da Cunha têm esperanças de que suas ideias tenham um impacto duradouro. Recentemente, membros de uma família abastada perguntaram sobre como poderiam ajudar. Eles planejam pedir ao patrono que ofereça um prêmio em dinheiro para uma competição na qual engenheiros projetariam protótipos de uma de suas propostas: barcos-banheiro para os pobres que moram próximos à água. Os barcos seriam equipados com tecnologia capaz de tratar o esgoto e talvez até transformá-lo em energia.

Mathur disse que os barcos poderiam até atracar sob a nova ponte Bandra-Worli quando estiverem cheios e processando a carga.

Tradução: Gabriela d'Avila

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