UOL Notícias Internacional
 

05/08/2009

Brotos verdes na Palestina

The New York Times
Thomas L. Friedman
Em Ramallah (Cisjordânia)
Em 2002, o Programa de Desenvolvimento da ONU divulgou seu primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe, que detalhou de forma franca os déficits de liberdade, empoderamento da mulher e criação de conhecimento que impediam o desenvolvimento do mundo árabe.

Ele foi acompanhado por estatísticas graves: a Grécia sozinha traduzia cinco vezes mais livros por ano do inglês para o grego do que todo o mundo árabe traduzia do inglês para o árabe; o PIB da Espanha era maior do que o de todos os países árabes somados; 65 milhões de adultos árabes eram analfabetos. Era um quadro perturbador, produzido corajosamente por acadêmicos árabes.

Divulgado pouco depois do 11 de Setembro, o relatório parecia um diagnóstico de todo o desgoverno que atormentava o mundo árabe, criando bolsões de jovens desempregados revoltados que se tornavam presas fáceis para os extremistas.

Bem, a boa notícia é que o Programa de Desenvolvimento da ONU e um novo grupo de acadêmicos árabes divulgaram na semana passada um novo relatório de Desenvolvimento Humano Árabe. A má notícia: as coisas pioraram - e muitos governos árabes não querem ouvir a respeito.

Este novo relatório foi provocado por um desejo de descobrir por que os obstáculos ao desenvolvimento humano no mundo árabe "são tão persistentes". O que cerca de 100 autores árabes do estudo de 2009 concluíram foi que cidadãos árabes demais atualmente carecem de "segurança humana - o tipo de fundação material e moral que garante vidas, meios de subsistência e uma qualidade de vida aceitável para a maioria". Um senso de segurança pessoal - econômica, política e social - "é um pré-requisito para o desenvolvimento humano e sua ampla ausência nos países árabes têm impedido seu progresso".

Os autores citaram uma variedade de fatores que minam atualmente a segurança humana na região árabe, começando pela degradação ambiental - a combinação tóxica de crescente desertificação, escassez de água e explosão populacional.

Em 1980, a região árabe tinha 150 milhões de habitantes. Em 2007, ela era o lar de 317 milhões e a projeção é de a população será de 395 milhões em 2015. Cerca de 60% desta população têm menos de 25 anos e serão necessários 51 milhões de novos empregos até 2020.

Outra fonte persistente de insegurança humana árabe é o alto desemprego. "Por quase duas décadas e meia após 1980, a região testemunhou muito pouco crescimento econômico", apontou o relatório. Apesar da presença do dinheiro do petróleo (ou talvez por causa dele), há uma distinta falta de investimento em pesquisa científica, desenvolvimento, indústrias de conhecimento e inovação.

Em vez isso, empregos públicos e contratos públicos dominam. O desemprego médio na região árabe em 2005 era de 14,4%, em comparação a 6,3% no restante do mundo. Muito disso se deve a uma terceira fonte de insegurança humana: os governos árabes autocráticos e não representativos, cujas fraquezas "frequentemente se somam para transformar o Estado em uma ameaça à segurança humana, em vez de seu defensor".

O relatório me deixaria totalmente sem esperança se não tivesse vindo a Ramallah, a sede do governo palestino na Cisjordânia, para encontrar um pouco de ânimo. Sério.

O conflito entre israelenses e palestinos está para o Oriente Médio como a off-Broadway está para a Broadway. É onde todas as boas e más ideias são testadas primeiro. Bem, o primeiro-ministro palestino, Salam Fayyad, um ex-economista do FMI, está testando a nova ideia mais empolgante em governança árabe de todos em tempos. Eu a chamo de "fayyadismo".

O fayyadismo se baseia na noção simples mas rara de que a legitimidade do líder árabe deve se basear não em slogans, rejeicionismo, cultos de personalidade ou serviços de segurança, mas na oferta de administração transparente, com prestação de contas, e serviços.

Fayyad, um ex-ministro das Finanças que se tornou primeiro-ministro depois que o Hamas chegou ao poder em Gaza em junho de 2007, é diferente de qualquer líder árabe atual. Ele é um nacionalista palestino fervoroso, mas toda sua estratégia é dizer: quanto mais construirmos nosso Estado com instituições de qualidade -serviços financeiros, policiais e sociais- mais cedo obteremos nosso direito à independência. Eu considero isso um desafio ao "arafatismo", que se concentrava nos direitos palestinos primeiro, instituições do Estado depois, se é que viriam, e não produzia nenhuma delas.

As coisas estão realmente melhorando na Cisjordânia, graças a uma combinação de fayyadismo, maior segurança palestina e a remoção das barreiras por Israel. Ao todo em 2008, cerca de 1.200 novas empresas foram abertas aqui. Nos primeiros seis meses deste ano, quase 900 abriram. Segundo o FMI, a economia da Cisjordânia deverá crescer 7% neste ano.

Fayyad, famoso aqui por ser incorruptível, diz que sua abordagem é "dizer às pessoas quem você é, quais são suas intenções e o que pretende fazer, e então de fato fazer isso". Em uma época em que todas as grandes ideologias fracassaram em produzir resultados para os árabes, Fayyad diz que deseja um governo baseado na "legitimidade pela realização".

Algo novo está acontecendo aqui. E dada a centralidade da causa palestina aos olhos árabes, se o fayyadismo funcionar, talvez ele possa dar início a uma tendência nesta parte do mundo -uma que contribuiria muito para melhorar a segurança humana árabe- um governo bom e responsável.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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