UOL Notícias Internacional
 

06/08/2009

A volta das jornalistas presas na Coreia do Norte: um retorno íntimo, apresentado em público

The New York Times
Jennifer Steinhauer e Rebecca Cathcart
Em Los Angeles (EUA
Durante meses, o tio de Laura Ling enviou a ela uma grande quantidade de e-mails que não foram respondidos, sugerindo que ela praticasse meditação enquanto estivesse na prisão na Coreia do Norte. Durante semanas a fio, a família dela na Califórnia não teve notícia alguma, e mergulhou em preocupações sombrias sobre a saúde e o futuro de Ling, sem poder, no entanto, fazer nada pelo seu bem estar.

E, assim, quando Ling retornou aos Estados Unidos na quarta-feira (5), devido a uma extraordinária missão diplomática, a sua mãe lhe trouxe sopa. "Laura adora esta sopa", disse Mary Ling, em frente à casa da filha, em North Hollywood, levando um buquê de flores e a comida. "é uma sopa chinesa especial a base de ervas".
  • AP/Yonhap

    Jornalistas Laura Ling (acima) e Euna Lee (abaixo), em fotografias sem data divulgadas pela agência sul-coreana Yonhap



Exaustas, emocionalmente esgotadas e nitidamente emocionadas por se reencontrarem com as suas famílias após uma longa viagem de avião de volta para casa com o ex-presidente Bill Clinton, as jornalistas norte-americanas Laura Ling, 32, e Euna Lee, 36, deram início ao resto das suas vidas em Los Angeles na quarta-feira, com os exultantes entes queridos e, pelo menos por ora, ficando do outro lado das câmeras.

Foi um retorno íntimo, que foi notavelmente exibido em um cenário público que misturou política, a família Clinton, jornalismo e o secretismo de um romance de espionagem.

Ambas as mulheres choraram ao descer as escadas do avião particular no qual embarcaram na Coreia. Lee inclinou-se para a frente por um segundo, como se fosse vítima de um excesso de alegria, e Ling agitou os dois punhos no ar. As duas foram recebidas na pista pelos maridos, que elas abraçaram com força. Lee inclinou-se para ver a filha de quatro anos, Hana, cujos braços pequeninos ela segurou.

Ling ligou para a irmã, Lisa, do avião. Lisa pediu a ela que, quando pisasse na pista em Burbank na manhã da quarta-feira, se lembrasse de mencionar a sua surpresa ao ver Bill Clinton na Coreia. E depois as duas irmãs abraçaram-se. "Jamais serei capaz de descrever aquilo pelo qual o meu corpo inteiro passou", disse Lisa Ling.

Laura Ling disse que as duas sentiram as emoções do seu país quando estavam na prisão, mesmo sem comunicação constante. "Pudemos sentir o amor de vocês lá na Coreia do Norte", disse ela. "Foi isso que nos sustentou nos piores momentos. Somos muito gratas por termos recebido anistia do governo da Coreia do Norte".

Iain Clayton, o marido de Ling, disse que a melhor sensação da sua vida foi ver a mulher descer do avião e abraçar-se a ele. "Eu olhei nos olhos dela e vi que ela olhava para a família lá embaixo na escada, e percebi alegria e alívio nela", disse Clayton.

As duas mulheres foram presas em 17 de março perto da fronteira entre a Coreia do Norte e a China, quando faziam uma reportagem sobre tráfico humano para a Current TV, um canal com sede em São Francisco do qual o ex-presidente Al Gore é um dos fundadores. Em junho, as duas foram condenadas a 12 anos de trabalhos forçados por terem entrado ilegalmente no país, mas elas foram soltas na última terça-feira, depois que Clinton negociou a libertação.

Durante o período em que estiveram presas, indivíduos que as apoiavam fizeram vigílias em São Francisco, Washington e outras cidades. Lisa Ling, ex-co-apresentadora do programa "The View" e correspondente do "The Oprah Winfrey Show", desempenhou um papel fundamental para atrair a atenção da imprensa para o problema das duas jornalistas.

Lisa disse que a irmã e Lee foram mantidas em regime de isolamento durante a maior parte do tempo de prisão, sem poderem saber qual era a situação uma da outra. As autoridades norte-coreanas permitiram que as mulheres telefonassem para as suas famílias em algumas ocasiões, e certa vez Laura King disse à sua família pelo telefone que escrevesse para Lee e lhe dissesse que "estava pensando nela e a amava".

Em um telefonema em julho, Ling e Lee disseram às suas famílias que os norte-coreanos lhes informaram que estariam dispostos a conceder-lhes anistia caso "um enviado na pessoa do presidente Clinton concordasse em vir a Pyongyang para negociar a libertação", segundo disse um assessor de Obama aos repórteres. A proposta foi informada a Gore, que a passou adiante.

Após a sua chegada no início da manhã em Los Angeles, as duas mulheres foram para as suas casas, desfrutando da reunião com as suas famílias. Em um muro em frente à casa de Lee havia uma faixa com os dizeres, "Bem-vinda ao lar, Euna", colocada por um vizinho. A polícia de Los Angeles estava no local, mantendo a imprensa distante.
  • AP Photo/Korean Central News Agency via Korea News Service

    Foto divulgada pela agência estatal de notícias da Coreia do Norte mostra o ex-presidente dos EUA Bill Clinton ao lado do líder norte-coreano Kim Jong Il, durante encontro em Pyongyang


A família de Ling foi mais direta. "Ela ficou em regime de isolamento durante três meses e meio", disse Lisa Ling, referindo-se à irmã. "Ela está tentando relaxar. A minha irmã não pode falar livremente há meses. Antes de contar a sua história, ela quer se certificar do seu estado mental. No momento ela está letárgica e cansada".

Jerry Wang, o irmão da mãe de Ling, disse que enviava regularmente e-mails a Ling durante o período que ela passou na prisão, mesmo sabendo que ela não poderia responder. "Mesmo tendo sido tão difícil, foi uma experiência muito boa para a nossa família", disse ele. "O simples fato de estarmos juntos em nossos pensamentos e orações por Laura aproximou mais a família de diversas formas".

Lee ligou para a unidade de jornalismo da Current TV por volta das 11h da quarta-feira, e os funcionários reuniram-se em torno de um telefone com viva-voz para ouvi-la. Ela disse aos funcionários que está muito grata por ter voltado, e agradeceu-lhes pelas cartas que recebeu na prisão, por intermédio do embaixador sueco. Laura Ling contou que leu as cartas várias vezes.

Sem dúvida será questionado se as duas retornarão às suas carreiras jornalísticas. A viagem à China foi o primeiro trabalho no exterior feito por Lee, que fala coreano. Ling às vezes trabalhava 12 horas por dia, e deslocava-se frequentemente entre a sede da Current TV em São Francisco e Los Angeles. Wang disse ter certeza de que a sobrinha continuará praticando jornalismo porque "essa sempre foi a paixão dela".

Por ora, uma questão importante é a comida. "Ela está de fato ansiosa para ingerir frutas e comida frescas", disse Lisa Ling. "Ela nos disse que havia pedras no arroz que lhe forneciam na prisão. Muito em breve teremos um jantar à base de sushi".

Tradução: UOL

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