UOL Notícias Internacional
 

06/08/2009

Aumento do estupro de homens é a mais recente atrocidade no conflito no Congo

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Goma (Congo)
Eram cerca de 11 horas da noite quando homens armados invadiram a cabana de Kazungu Ziwa, colocaram um facão no seu pescoço e baixaram suas calças. Ziwa é um homem pequeno, de cerca de 1,36 metro. Ele tentou reagir, mas disse que foi rapidamente vencido.

"Então eles me estupraram", ele disse. "Foi horrível, fisicamente. Eu fiquei tonto. Eu não conseguia pensar."

  • Jehad Nga/The New York Times

    Homens vítimas de estupro, fotografados em Goma (Congo) em julho de 2009

Por anos, as colinas de florestas densas e lagos claros e profundos do leste do Congo são um reservatório de atrocidades. Agora, ao que parece, há outro problema crescente: homens estuprando homens.

Segundo a Oxfam, a Human Right Watch, representantes da ONU e várias organizações de ajuda humanitária congolesas, o número de homens que foram estuprados está crescendo rapidamente nos últimos meses, uma consequência das operações militares conjuntas de Congo e Ruanda contra os rebeldes, que promoveram um nível chocante de violência contra os civis.

Funcionários de ajuda humanitária lutam para explicar a alta repentina de casos de estupro de homens. A melhor resposta, eles disseram, é que a violência sexual contra os homens é outra forma dos grupos armados humilharem e desmoralizarem as comunidades congolesas até a submissão.

A ONU já considera o leste do Congo como a capital mundial do estupro, e a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deverá se encontrar com os sobreviventes em sua visita ao país na próxima semana. Centenas de milhares de mulheres foram atacadas sexualmente por vários grupos armados que vagam por estas colinas, e no momento esta área passa por um de seus períodos mais sangrentos em anos.

As operações militares conjuntas que tiveram início em janeiro entre Ruanda e Congo, vizinhos Davi e Golias que até recentemente eram inimigos amargos, supostamente visam colocar um fim ao problema dos rebeldes homicidas ao longo da fronteira e promover uma nova época de cooperação e paz. As esperanças aumentaram após a rápida captura de um general renegado que tinha derrotado as tropas do governo e ameaçado marchar pelo país.

Mas as organizações de ajuda humanitária disseram que as manobras militares provocaram horríveis ataques de retaliação, com mais de 500 mil pessoas expulsas de suas casas, dezenas de aldeias incendiadas e centenas de aldeões massacrados, incluindo bebês jogados em fogueiras.

E não são apenas os rebeldes que são acusados. Segundo grupos de direitos humanos, soldados do exército congolês estão executando civis, estuprando mulheres e convocando aldeões para transportarem seus alimentos, munição e equipamento pela floresta. Frequentemente é uma marcha da morte por uma das paisagens tropicais mais impressionantes da África, mas que também é cenário de uma guerra devastadoramente complicada por mais de uma década.

"De um ponto de vista humanitário e de direitos humanos, as operações conjuntas são desastrosas", disse Anneke Van Woudenberg, uma pesquisadora do Human Rights Watch.

Os casos de estupro masculino cobrem várias centenas de quilômetros e possivelmente incluem centenas de vítimas. A Ordem dos Advogados Americanos, que conta com um escritório legal para violência sexual em Goma, disse que mais de 10% de seus casos em junho envolviam homens.

Brandi Walker, uma funcionária de ajuda humanitária no hospital de Panzi, perto de Bukavu, disse: "Em todo lugar onde vamos, as pessoas dizem que os homens também estão sendo estuprados".

Mas ninguém sabe o número exato. Os homens daqui, como em todo lugar, relutam em se apresentar. Vários que o fizeram disseram ter sido instantaneamente alienados em suas aldeias -figuras solitárias e ridicularizadas, tratados zombeteiramente como "esposas do mato".

Desde que foi estuprado há várias semanas, Ziwa, 53 anos, não tem demonstrado interesse em praticar veterinária, seu ofício por anos. Ele caminha mancando (sua perna esquerda foi esmagada no ataque) em um avental branco sujo com "veterinário" marcado em caneta vermelha, carregando algumas pílulas do tamanho de biscoitos para cães e ovelhas.

"O simples pensar no que aconteceu me deixa cansado", ele disse.

O mesmo vale para Tupapo Mukuli, que disse ter sido rendido e estuprado por vários homens em sua plantação de mandioca há vários meses. Mukuli agora é um homem solitário na ala de estupro do hospital de Panzi, que está cheio de centenas de mulheres que se recuperam de ferimentos relacionados a estupro. Muitas costuram roupas ou urdem cestas para ganhar um pouco de dinheiro enquanto se recuperam.

Mas Mukuli é deixado de fora.

"Eu não sei fazer cestas", ele disse. Então ele passa seus dias sentado em um banco, sozinho.

Os casos de estupro de homens ainda são apenas uma fração dos cometidos contra mulheres. Mas para os homens envolvidos, disseram os funcionários de ajuda humanitária, a recuperação é muito mais difícil.

"A identidade dos homens está muito ligada ao poder e controle", disse Walker.

E em um lugar onde homossexualidade é tabu, os estupros impõem uma dose extra de vergonha.

"As pessoas riem de mim", disse Mukuli. "As pessoas na minha aldeia dizem: 'Você não é mais um homem. Aqueles homens do mato fizeram de você a esposa deles'."

Os funcionários de ajuda humanitária disseram que a humilhação frequentemente é tão severa que os homens que são vítimas de estupro frequentemente só se apresentam se tiverem problemas de saúde urgentes, como inchaço do estômago ou sangramento contínuo.

Às vezes nem isso é suficiente. Van Woudenberg disse que dois homens cujos pênis foram apertados com corda morreram poucos dias depois, porque ficaram embaraçados demais para procurar ajuda. As castrações também parecem estar aumentando, com mais homens mutilados aparecendo nos grandes hospitais.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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