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07/08/2009

Para porto-riquenhos, o sucesso de Sotomayor provoca orgulho e reflexão

The New York Times
David Gonzalez
No verão de 1959, Edwin Torres conseguiu um emprego de US$ 60 por semana e foi parar na primeira página do "El Diario". Ele tinha acabado de ser contratado como primeiro promotor público assistente porto-riquenho de Nova York -e provavelmente, ele acha, de todos os Estados Unidos.

Ele ainda lembra da manchete: "Filho Exemplar de El Barrio se Torna Promotor".

"Ninguém nunca imaginaria que eu seria nomeado promotor", ele disse. "É quão grande aquilo foi."

Obama e Sotomayor

  • Alex Brandon/AP

    O presidente norte-americano, Barack Obama, ao lado da juíza Sonia Sotomayor, indicada por ele à Suprema Corte, instituição que é árbitro final na Justiça norte-americana, e decide sobre temas que vão do aborto à pena de morte e direitos civis

Meio século depois, a longa e às vezes meio amarga história dos porto-riquenhos em Nova York ganhou um novo capítulo celebratório na quinta-feira, quando o Senado confirmou a nomeação da juíza Sonia Sotomayor para a Suprema Corte. Sua jornada pessoal -de uma lar nos projetos habitacionais do South Bronx, criada apenas pela mãe (seu pai morreu quando ela era pequena), para uma universidade de elite e uma carreira legal impressionante- tem provocado um forte orgulho em muitos porto-riquenhos, que vislumbram reflexos de suas próprias lutas.

"Isso se trata da aceitação que não recebemos", disse Torres, 78 anos, que também obteve distinção como jurista, romancista e contador de histórias. "Estava além da imaginação de qualquer um quando comecei, que um porto-riquinho poderia ascender a essa posição, à Suprema Corte."

Mas a cidade também foi cenário de decepções. Apesar dos porto-riquenhos terem ganho cidadania em 1917 e um grande número deles ter chegado a Nova York nos anos 50, a pobreza e a falta de oportunidade ainda deixam cicatrizes em muitos em seus bairros. Um relatório de 2004, feito por um grupo de defesa hispânico, mostrou que em comparação a outros grupos latinos em todo o país, os porto-riquenhos apresentam o maior índice de pobreza, a renda média familiar mais baixa e a mais alta taxa de desemprego para os homens.

Na política, o pioneiro Herman Badillo viu sua carreira passar de uma série de emocionantes primeiros lugares nos anos 60 para a frustração nos anos 80, quando seu sonhos de se tornar o primeiro prefeito porto-riquenho da cidade foram arruinados pelos chefes políticos do Harlem. Há quatro anos, Fernando Ferrer sofreu uma derrota esmagadora em sua candidatura contra o prefeito Michael R. Bloomberg.

Todos os revezes perdem força, mesmo que apenas por um momento, com o brilho do feito de Sotomayor, que muitos porto-riquenhos dizem ser tão monumental para eles quanto a vitória do presidente Barack Obama foi para os afro-americanos. Ela afirmou um senso de identidade porto-riquenha em um momento em que essa distinção frequentemente é ofuscada por rótulos mais amplos como latino e hispânico -e mesmo quando está sujeito a comparações negativas.

"Muitos da elite latino-americana deixam implícito que os porto-riquenhos estragaram tudo, porque tínhamos cidadania e não fizemos nada", disse Lillian Jimenez, uma documentarista que co-produziu uma série de propagandas para televisão em apoio à nomeação de Sotomayor. "Mas fomos o maior grupo de língua espanhola em Nova York por décadas e arcamos com o maior fardo da discriminação, especialmente nos anos 50. Nós lutamos pelos nossos direitos. Nós temos pessoas em toda parte fazendo todo tipo de coisas. Mas essa história não é conhecida."

Essa história corre o risco de desaparecer no East Harlem, há muito o berço da Nova York porto-riquenha. Após ondas de valorização imobiliária e desenvolvimento, partes da área agora são anunciadas como Upper Yorkville, um novo anexo do predominantemente branco Upper East Side. Apesar dos pobres terem ficado para trás, muitos das filhas e filhos bem-sucedidos do East Harlem se espalharam pelos subúrbios.

"Nós temos toda uma classe intelectual e profissional que é invisível -pessoas que cresceram no bairro, em meio à classe operária, e que realmente se superaram", disse Angelo Falcon, presidente do Instituto Nacional para Políticas Latinas.

"Mas é tão disperso que as pessoas não veem. Elas não formam uma comunidade física, real, mas têm uma identidade."

Para aqueles que abriram o caminho para Sotomayor, abraçar essa identidade foi o primeiro passo para traçarem suas rotas pessoais e profissionais para sair da dificuldade. Manuel del Valle, 60 anos, uma pessoa com desempenho acima das expectativas que veio dos projetos habitacionais da Amsterdam Avenue, deu os mesmos saltos que a juíza -para a Universidade de Princeton e para a Escola de Direito de Yale- mas a precedeu em cinco anos.

Nomeação de Sotomayor indica que EUA estão mais tolerantes com imigrantes?

Seguindo o exemplo dos estudantes negros em Princeton, ele e um punhado de porto-riquenhos da classe trabalhadora de Nova York pressionaram a direção da universidade a oferecer um curso de história porto-riquenha e promover a admissão de mais estudantes de minorias. A meta deles era a criação de uma classe de advogados, médicos, escritores e ativistas que usariam sua perícia para promover o progresso de seus velhos bairros.

"Quanta arrogância", disse Del Valle, que agora leciona Direito em Porto Rico. "Nós realmente acreditávamos que teríamos um impacto dinâmico em todas as instituições que a sociedade americana tinha a oferecer."

A nomeação de Sotomayor, ele disse, é o resultado desses esforços.

"Nós éramos invisíveis", ele disse. "Ela nos tornou visíveis."

Em Nova York, muitos apreciaram a visibilidade da juíza durante o verão, quando os políticos locais mais célebres -e odiados- eram dois senadores estaduais porto-riquenhos que conduziram o governo estadual a um impasse, ao promoverem um golpe abortivo contra seus companheiros democratas.

"Ela realmente veio em um momento em que há uma reavaliação pública do valor das políticas de identidade devido a esta confusão no Senado", disse Arlene Davila, uma professora de Antropologia da Universidade de Nova York que escreveu extensamente sobre a identidade latina e porto-riquenha. "Eis uma mulher que nos revigorou com a idéia de que uma latina tem muito a contribuir, não apenas para seu próprio grupo, mas para toda a sociedade americana."

Mas é entre os seus, no South Bronx, East Harlem ou o bairro de Los Sures no Brooklyn, que o sucesso de Sotomayor repercute mais forte, pelo simples motivo de muitas pessoas entenderem o grau de perseverança que ela precisou para consegui-lo.

Orlando Plaza, 41 anos, que trancou seus estudos de doutorado em História há cinco anos para abrir o Camaradas, um bar popular em East Harlem, vê seu apelo como uma espécie de teste de Rorschach étnico.

"Seja por ter crescido no Bronx, ter frequentado uma escola católica ou ser de um lar com apenas um dos pais, há muitas pessoas que sentem orgulho por alguém com uma história como a delas ter conseguido algo tão enorme", ele disse. "Esta é uma verdadeira garota do bairro."

E é no bairro, entre os homens e mulheres que deixaram Porto Rico décadas atrás para que seus filhos pudessem ser algum dia profissionais, onde a história dela é mais saboreada. Os rostos de homens e mulheres jogando dominó ou bilhar no Betances Senior Center, no Bronx, atestam décadas de trabalho árduo.

Muitos deles chegaram a Nova York na adolescência, motivados mais pelo desespero do que por sonhos. Lucy Medina, que chegou nos anos 50, trabalhou como perfuradora de cartões e em outros empregos enquanto criava sozinha dois filhos. Hoje, seu filho é um capitão no Departamento Correcional da cidade e sua filha é uma executiva do setor imobiliário.

Por mais impressionantes que sejam os feitos da juíza, Medina está mais impressionada com a mãe da juíza, Celina Sotomayor, que fez o que tinha que fazer para criar dois filhos bem-sucedidos nos projetos habitacionais.

"A mãe dela e eu somos muito parecidas", disse Medina, 77 anos. "Eu sei pelo que ela passou. Nós nos sacrificamos para que nossos filhos recebessem uma educação e pudessem progredir. Muitas mulheres daqui fizeram isso. Nós ficamos em cima de nossos filhos para assegurar que não seriam desviados."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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