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08/08/2009

Na Alemanha, carros velhos ganham ilegalmente uma segunda vida

The New York Times
Carter Dougherty
Em Frankfurt (Alemanha)
Quando o governo alemão desenvolveu o seu programa pioneiro para a compra de carros velhos, ele esqueceu-se de um pequeno detalhe: certificar-se de que esses calhambeques parassem de rodar.

Investigadores policiais concluíram que a premissa atraente do programa - fornecer generosos incentivos para as pessoas que substituírem os seus veículos poluidores por modelos menos prejudiciais ao meio ambiente - está sendo sabotada, já que carros que deveriam ter seguido para o ferro-velho acabam ingressando nos mercados da África e da Europa Oriental.

  • AP Photo/Joerg Sarbach

    Plano da chanceler Angela Merkel oferece estímulos financeiros às pessoas que substituírem os seus veículos poluidores por modelos menos prejudiciais ao meio ambiente. Na foto, um ferro-velho em Varel (Alemanha), em janeiro de 2009

Até 50 mil carros velhos escaparam da sepultura automobilística na Alemanha e encontraram vida nova em outros locais, segundo Ronald Schulze, um especialista da Associação de Investigadores Criminais, um grupo profissional de detetives da polícia. Em uma entrevista na sexta-feira (07/08), ele afirmou que ladrões experientes descobriram "uma oportunidade de mercado".

"Existe simplesmente uma rede já estabelecida para o roubo de carros na Alemanha", disse Schulze. "Esses crimes são cometidos por grupos bem organizados que contam com gente e logística para executarem as suas ações".

Agora esses carros estão despejando dióxido de carbono e outros poluentes em vários países estrangeiros, subvertendo os objetivos ecológicos do programa. Segundo os investigadores, alguns deles estão até retornando à Alemanha.

"Este programa dizia respeito à venda de carros", diz Juergen Resch, diretor do grupo ecológico Auxílio Ambiental Alemão. "Deixamos em aberto a questão relativa ao que acontece com os automóveis velhos".

A Alemanha implementou o seu programa de aquisição de carros velhos em janeiro, e pretendia gastar cerca de US$ 2 bilhões (R$ 3,65 bilhões), ou cerca de US$ 3.500 (R$ 6,4 mil) por cada veículo. Mas a demanda explosiva levou os políticos - que disputam a reeleição em setembro - a estenderem o programa até 31 de dezembro, e a mais do que triplicar o orçamento destinado a essa iniciativa, que passou para cerca de US$ 7 bilhões (R$ 12,77 bilhões).

Outros países europeus, incluindo a França, a Espanha e a Áustria, criaram esquemas similares de incentivos projetados para aposentar os carros mais velhos, contanto que os consumidores comprassem veículos menos poluentes. Os Estados Unidos seguiram o exemplo com um programa popular que foi ampliado pelo congresso nesta semana.

Mas a Alemanha esqueceu-se de impor certas medidas como aquelas adotadas nos Estados Unidos, onde exige-se que os vendedores destruam os motores velhos injetando neles silicato de sódio no lugar de óleo. Na Alemanha, só foi exigido dos vendedores que colocassem os carros velhos em ferros-velhos.

Mas a situação anda difícil para os operadores daquelas impressionantes máquinas de esmagar automóveis. Devido à impiedosa recessão global, o preço da tonelada de carros velhos despencou de quase US$ 600 (R$ 1.100) em 2008 para até US$ 14 (R$ 25,55) nos dias de hoje.

"O crime organizado ofereceu bastante dinheiro e alguém que já se encontrava imprensado contra a parede naturalmente disse: 'Ok, antes de ir à falência farei esta tentativa'", disse Gottfried Hoell, presidente da Associação de Ferros-Velhos Automobilísticos Alemães, à rádio pública da Alemanha.

Segundo Schulze, comerciantes que vendem para exportadores são indiciados apenas de evasão fiscal caso não declarem o lucro.

O comércio de carros usados entre a Europa Ocidental e as periferias subdesenvolvidas constitui-se há muito tempo em um nicho comercial legal.

Os viajantes na África estão acostumados a serem imprensados como sardinhas dentro de um caminhão Mercedes modificado para atuar como micro-ônibus. E na Europa Oriental, veículos usados atraem uma população cujo poder de compra na era pós-comunista ainda é inferior ao ocidental.

Conforme o programa alemão era implementado, as autoridades da alfândega passaram a notar um grande aumento do número de carros usados exportados pelos portos de Hamburgo e Bremerhaven, ambos no norte da Alemanha. Inquéritos revelaram que os vendedores alemães de ferro-velho estavam abordando abertamente compradores da África, propondo-lhes a venda de carros velhos comercializados no âmbito do programa.

Resch, o ambientalista, participou de uma investigação disfarçada com uma rede de televisão alemã no início deste ano. Eles viram um carro velho alemão ser contrabandeado para a Polônia e licenciado para a utilização legal naquele país.

Pouco depois, o dono passou com ele pela longa fronteira teuto-polonesa - que não é controlada na Europa atual -, e voltou a registrar o veículo na Alemanha.

Tradução: UOL

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