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08/08/2009

Um fantasma da Guerra Fria reaparece em Honduras, em uma missão solitária

The New York Times
Ginger Thompson
Em Tegucigalpa (Honduras)
O golpe ocorrido aqui trouxe de volta muitos fantasmas centro-americanos da Guerra Fria, mas poucos tão polarizadores quanto Billy Joya, o ex-capitão de polícia acusado de ser o ex-líder de um esquadrão da morte.

Ele não voltou discretamente à política nacional. Ele fez sua reaparição em um popular talk show do horário nobre, poucas horas após as tropas tirarem o presidente Manuel Zelaya de sua cama e colocá-lo em um avião que deixava o país.

O propósito de Joya, ele disse, era defender a derrubada e ajudar a acalmar uma população que se libertou do governo militar há menos de três décadas. Em vez disso, ele disparou os alarmes entre os ativistas de direitos humanos ao redor do mundo, que temiam que os piores elementos das forças armadas hondurenhas estavam assumindo o controle.

"O nome Billy Joya teve uma repercussão muito maior do que Micheletti", protestou Joya, talvez um pouco exageradamente, se referindo ao atual chefe do governo, Roberto Micheletti, colocado no poder pelas forças armadas. "Instantaneamente, minha imagem estava em toda parte."

As imagens conflitantes de Joya -uma figura vilificada que retrata a si mesmo como vítima- são difíceis de conciliar com a história de sua vida. Grupos de direitos humanos o consideram um dos ex-agentes mais cruéis de uma unidade militar apoiada pelos Estados Unidos, conhecida como Batalhão 316, responsável por sequestrar, torturar e assassinar centenas de suspeitos de serem esquerdistas durante os anos 80.

Hoje, Joya, 52 anos, casado e pai de quatro, se tornou um consultor político para algumas das pessoas mais poderosas do país, incluindo Micheletti, durante a campanha fracassada deste para se tornar presidente no ano passado. Agora que Micheletti conseguiu o cargo, Joya ressurgiu novamente como uma espécie de ligação entre Micheletti e a mídia internacional.

Joya parece uma pessoa integrante do elenco principal, mas não do papel de vilão. Ele tem um aspecto elegante, suave, de um protagonista. E nos 14 anos desde que foi julgado sob acusações de deter ilegalmente e torturar seis estudantes universitários, ele assumiu uma missão solitária -uma que às vezes beira a obsessão- de não apenas defender a si mesmo, mas também a antiga luta do governo contra o comunismo.

Em 1995, ele lançou um volume de 779 páginas de recortes de jornal, documentos do governo e relatórios de direitos humanos visando substanciar a narrativa das forças armadas da Guerra Fria, que basicamente acusam seus oponentes de também terem sangue em suas mãos. E, em 1998, após viver por dois anos em exílio na Espanha, Joya disse que foi o primeiro e único oficial militar a se entregar para julgamento.

"Nem uma única vez em 14 anos houve uma única peça de evidência legítima me associando a esses crimes", ele disse. Referindo-se às organizações de direitos humanos, ele disse: "O que elas fizeram foi me condenar na mídia, porque sabem que se levassem esses casos aos tribunais, elas perderiam".

Joya parece estar em vantagem. Em 1989, a Corte Interamericana de Direitos Humanos determinou que os militares hondurenhos foram responsáveis por abusos sistemáticos contra oponentes do governo. Ainda assim, nos 27 anos desde que seu país retornou ao governo civil, dizem as autoridades, os tribunais hondurenhos julgaram apenas dois oficiais militares -o coronel Juan Blas Salazar Mesa e o tenente Marco Tulio Regalado- responsáveis por violações de direitos humanos.

Apenas cerca de uma dúzia de outros oficiais enfrentaram acusações formais. E a maioria desses casos, como o de Joya, permanece não concluída em um sistema judicial que permanece debilitado pela corrupção.

Enquanto isso, Joya não sofreu silenciosamente no limbo legal. De certa forma, ele nem sofreu. Seu negócio como consultor de segurança e conselheiro político para alguns dos mais poderosos empresários e autoridades eleitas do país é lucrativo.

"Ele é como um daqueles caras que foram ao Vietnã", disse Antonio Tavel, presidente da Xerox em Honduras. "No passado ele teve um trabalho sujo a fazer, mas agora é um homem de família comum."

Joya é filho de um empresário que ajudou a abrir várias empresas bem-sucedidas em Honduras, mas perdeu mais dinheiro do que ganhou. Joya, um de quatro filhos, disse que ingressou na academia militar aos 14 anos, principalmente como forma de obter uma independência precoce.

Ele foi expulso da academia, ele disse, quando um professor o pegou colando em uma prova. Mas em vez de desistir de seu sonho de ser militar, ele se alistou como recruta e em dois anos tinha ascendido ao posto de sargento mais jovem do exército.

Joya ingressou na polícia militar e, em 1981 -enquanto o governo Reagan gastava dezenas de milhões de dólares para transformar esse país empobrecido na principal área de manobras para uma guerra secreta contra os grupos guerrilheiros de esquerda da região- ele e outros 12 hondurenhos receberam seis semanas de treinamento nos Estados Unidos.

Ele reconheceu que se tornou membro do Batalhão 316. Mas a partir daí sua versão dos eventos diverge das de seus acusadores. Ele foi acusado de 27 crimes, incluindo detenção ilegal, tortura e assassinato.

O caso mais digno de nota envolveu a detenção ilegal e tortura de seus estudantes universitários em abril de 1982. Os estudantes disseram que foram mantidos em uma série de cadeias secretas por oito dias. Naquele período, testemunharam os estudantes, eles foram mantidos vendados e nus, lhes foi negada comida e água, e foram sujeitos a surras e tortura psicológica.

Entre os detidos estava Milton Jimenez, que posteriormente se tornou advogado e membro do Gabinete de Zelaya. Em 1995, Jimenez disse ao jornal "The Baltimore Sun" que oficiais do batalhão o colocarão diante de um pelotão de fuzilamento e ameaçaram atirar.

"Eles disseram que estavam terminando minha cova", ele disse na época. "Eu estava convencido de que ia morrer."

Edmundo Orellana, o ex-promotor público hondurenho que foi o primeiro a tentar processar os crimes contra os direitos humanos, disse que era "absurdo" Joya permanecer livre.

"Billy Joya é a prova de que o governo civil tem sido uma farsa cruel contra o povo hondurenho", disse Orellana. "Ele mostra que ignorância e cumplicidade ainda reinam dentro de nossos tribunais, especialmente quando se trata das forças armadas."

As acusações contra ele são absurdas, rebateu Joya. Após sua aparição na televisão, ele disse que recebeu tantas ameaças que levou sua esposa e filha mais nova para os Estados Unidos. Agora ele retorna para Honduras apenas ocasionalmente, para se encontrar com seus clientes.

Apresentando dezenas de recortes de jornais e sumários de tribunal durante uma entrevista, Joya argumentou que o Batalhão 316 só foi criado dois anos após a detenção de Jimenez, e que era uma unidade técnica especializada em ações armadas, não em contrainsurreição.

Joya também argumentou que o testemunho dos ex-estudantes contra ele está repleto de contradições. Ele disse que Jimenez, por exemplo, retirou posteriormente sua acusação de que Joya esteve envolvido em seu interrogatório.

"Nunca foi minha responsabilidade deter pessoas, torturar pessoas ou fazer pessoas desaparecerem", disse Joya. "Mas se essas fossem as minhas ordens, eu certamente as cumpriria, porque fui treinado a obedecer ordens."

"A política na época era: 'Comunista bom é comunista morto'. Eu apoiava essa política."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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