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09/08/2009

No Iraque, mulheres praticantes da luta olímpica enfrentam a tradição

The New York Times
Sam Dagher
Em Diwaniya (Iraque)
Isto não é algo que acontece com frequência no mundo árabe, mas, em janeiro, um técnico daqui decidiu criar uma equipe feminina de luta olímpica, a primeira na história do Iraque. As lutadoras adoram o projeto e já sonham em competir nas olimpíadas.

Mas muita gente nesta cidade ao sul de Bagdá - que, assim como grande parte do Iraque, é conservadora e substancialmente governada pela tradição tribal - deseja que as dezenas de garotas e mulheres jovens da equipe parem de lutar imediatamente. Um integrante de um grupo tribal afirmou que elas devem ser "massacradas" caso continuem. Um clérigo xiita disse que a equipe deveria ser banida porque a luta livre pode levar à promiscuidade e a "transgressões" do islamismo.

Como resultado dessa pressão, quatro lutadoras desistiram. Mas as outras, até agora fortalecidas pela promessa de maior democracia e igualdade que se seguiu à invasão norte-americana, estão desafiando as ameaças.

"Eles acham que somos garotas permissivas só porque praticamos esportes", reclama Ikram Hamid, 25, que integra a equipe.

Farah Shakir, 17, afirma: "Isto é de fato uma coisa diferente para o Iraque, mas eu adoro o desafio".

Na verdade, não são apenas as lutadoras que perturbam os tradicionalistas.

"Tenho informações de que a luta olímpica masculina também é problemática, devido a toda a fricção que ocorre", diz o xeque Hussein al-Khalidi, um clérigo de turbante que integra o conselho provincial.

Mas foram as mulheres que tocaram em um nervo exposto, talvez em parte devido às suas ambições. Três outras equipes foram criadas no Iraque depois da formação do grupo de atletas de Diwaniya com o apoio da federação iraquiana de luta olímpica. Em junho, todas as equipes participaram de um campeonato, vencido pelas atletas de Diwaniya, que qualificaram-se para um torneio asiático de luta livre que será disputado em setembro.

Alguns moradores locais ficaram cativados pelas lutadoras e sentem que elas são um desafio perfeito ao establishment tribal e religioso entranhado no Iraque, cujo controle sobre a sociedade e as vidas dos indivíduos tornou-se, paradoxalmente, bem mais rígido após a invasão de 2003. Haidar Walid, 20, um dos indivíduos que apoia as atletas, diz que a equipe constitui-se em um "sinal de evolução e liberdade".

A controvérsia em Diwaniya expõe um embate fundamental que ocorre na sociedade iraquiana como um todo. O controle por parte de grupos armados xiitas e sunitas que obrigaram os iraquianos a adotarem um comportamento moral que eles consideram adequado diminuiu, e muita gente tem atualmente liberdade para expressar-se de várias formas. Isso refletiu-se nas eleições provinciais em janeiro deste ano, na qual os partidos seculares e relativamente liberais apresentaram um bom desempenho.

Em uma recente manhã de temperatura elevadíssima, as lutadoras, algumas com véus e outras não, e usando shorts e camisetas de futebol, ocupavam o ginásio de luta do clube esportivo de Diwaniya. Elas só têm permissão para usar o ginásio quando os lutadores do sexo masculino não estão praticando.

Um piso acolchoado para a prática da luta olímpica, gasto e poeirento, ocupava quase toda a instalação. As paredes estavam adornadas com fotografias emolduradas de lutadores do sexo masculino, pôsteres coloridos de santos xiitas e o retrato do herói local, Abbas Fadhel Jouda, um campeão de luta olímpica iraquiano que foi morto há dois anos por rebeldes armados em Diwaniya por ser policial.

Após um aquecimento, Shakir e as suas colegas de equipe emparelham-se e começam a praticar as técnicas para agarrar e derrubar as adversárias. O treino é supervisionado pelo técnico e fundador da equipe, Hamid al-Hamdani, e por dois assistentes, todos eles lutadores profissionais.

Ao contrário da luta greco-romana, a luta de estilo livre permite que pegadas abaixo da cintura e nas pernas sejam usadas para derrubar o oponente. Trata-se de um esporte reconhecido internacionalmente, mas a modalidade feminina do esporte só estreou nas olimpíadas cinco anos atrás, nos Jogos Olímpicos de Atenas. Dois outros países árabes, Egito e Marrocos, possuem equipes femininas de luta olímpica.

Mas a equipe de Diwaniya poderá enfrentar mais obstáculos do que os comuns na sua rota em busca do ouro. De acordo com Hamdani, a federação iraquiana de luta olímpica aprovou a equipe, mas um membro da diretoria daquela organização recusou-se a ir até Diwaniya para a competição de junho, por temer ser vítima de um assassinato.

Em maio, líderes tribais enfurecidos exigiram que o conselho provincial banisse a equipe, depois que uma estação de televisão mostrou uma das lutadoras praticando com o seu técnico.

Desde então a equipe tem atuado discretamente, obedecendo os costumes locais. Durante os treinamentos, as garotas são acompanhadas pela mãe de Shakir, Nawal Kadhim, e elas só deixam o clube cobertas dos pés à cabeça por véus negros.

Mesmo assim, muitas sofrem assédio e são alvos de palavrões quando se aventuram a ir até o mercado. Elas são evitadas pelas outras alunas na escola, e constantemente pressionadas pelos seus professores.

Nawal Kadhim, que tem cinco filhas na equipe, foi recentemente aconselhada por parentes a ir embora de Diwaniya e recebeu ameaças pelo telefone celular.

"As mulheres perderão a sua feminilidade", argumenta Faris Abbas, 42, um morador local que, assim como muitos outros, é contrário à equipe feminina.

Gaith al-Kassir, 53, um líder tribal, diz que o esporte é contrário ao islamismo e às tradições tribais. "As mulheres podem praticar esportes em casa", sugere ele.

Assim como ocorre quanto a várias outras questões, os líderes religiosos xiitas estão divididos quanto à luta feminina. Alguns dizem que não há problema algum, contanto que as mulheres estejam apropriadamente cobertas, enquanto outros afirmam que tal prática é "terminantemente proibida", segundo um dos técnicos da equipe, que consultou as autoridades religiosas na cidade de Najaf.

Khalidi diz que continuará mobilizando a opinião pública até que o clube de luta olímpica seja fechado. Ele é membro do Supremo Conselho Islâmico do Iraque, um partido religioso simpático ao Irã e que governou a província até as eleições de janeiro, quando perdeu para o partido do primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki em todo o sul. Embora al-Maliki seja um islamita, o seu partido prefere utilizar a persuasão em vez da coerção para modelar os valores da sociedade.

Apesar dos contratempos nas urnas, Khalidi diz que o seu partido ainda está convencido de que os iraquianos estão ficando mais conservadores e ligados aos valores e rituais islâmicos.

Batoul al-Attiyah, uma médica local, diz que discorda da avaliação do xeque Khalidi sobre o rumo seguido pelo Iraque, ainda que ela se oponha à luta olímpica feminina.

"A religião passou a dizer mais respeito às aparências do que à substância", critica al-Attiyah.

Tradução: UOL

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