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09/08/2009

Um momento de graça em meio à lama: a memória de Woodstock continua viva

The New York Times
Jon Pareles
Os integrantes da geração do baby boom não se esquecem do Festival de Woodstock. Por que deveríamos? É um dos poucos eventos que definiram o final dos anos 60 que teve um claro final feliz.

De 15 a 17 de agosto de 1969, centenas de milhares de pessoas, eu inclusive, reuniram-se num adorável anfiteatro natural em Bethel (não Woodstock), Nova York. Ouvimos alguns dos melhores músicos de rock da época, desfrutamos de outros prazeres legais e ilegais, enfrentamos a chuva e a lama, a exaustão e períodos de fome, nos sentimos como uma comunidade gigante e dispersa, tudo isso sem nenhuma catástrofe.
  • Don Hogan Charles/The New York Times

    Joe Cocker se apresenta no último dia do Festiva de Woodstock em Bethel (EUA), em 1969



Um ano depois dos tumultos na convenção Democrata em Chicago, as expectativas em relação a encontros grandes de jovens eram tão ruins que essa foi considerada uma surpresa. Apesar de o festival não ter saído exatamente como planejado, ele foi, conforme divulgado, três dias de paz e música. Isso tornou Woodstock um idílio, principalmente em retrospectiva, mesmo que tenha sido considerado como uma área de calamidade pelo governo na época.

"Apesar de sua personalidade, roupas e ideias, eles foram e ainda são o grupo de jovens mais gentis, respeitosos e bem comportados com o qual eu já tive contato em meus 24 anos de trabalho policial", disse Lou Yank, chefe de polícia na vizinha Monticello, ao The New York Times.

Mas apesar de todas as boas memórias, Woodstock também desencadeou outros impulsos, mais grosseiros. Enquanto seu resultado imediato foi surpresa e alívio, o legado total do festival teve tanto a ver com o excesso quanto com o idealismo. À medida que as décadas se desenrolam, o festival parece mais do que nunca um golpe de sorte: um momento de graça, lamacento, despenteado e difícil de acreditar. Foi tanto um ponto final quanto um começo, um feriado de ingenuidade e sorte cega antes que as realidades do capitalismo retornassem.

A multidão jovem e de esquerda de Woodstock - jovens simpáticos, incluindo estudantes, artistas, trabalhadores e políticos, assim como hippies viajando com LSD - foi rapidamente reconhecida como um exército de consumidores em potencial, que o mercado não iria subestimar novamente. Havia mais a vender para eles do que papel de seda e discos.

Com o 40º aniversário de Woodstock se aproximando - mas já? - a máquina comemorativa já começa a fazer barulho, e a nostalgia é forte. Hoje há um museu do Festival de Woodstock no Centro de Artes de Bethel Woods e uma casa de shows recentemente construída no local onde o festival aconteceu, a fazenda de Max Yasgur (apesar de a colina original de Woodstock ainda permanecer como era).

Uma nova e mais ampla antologia de músicas gravadas no festival de 1969 foi lançada: a caixa com seis Cds "Woodstock 40 Years On: Back to Yasgur's Farm" (Rhino). Os shows completos de Sly and the Family Stone, Santana, Janis Joplin e outros em Woodstock foram lançados pela Sony Legacy. Canais a cabo e da TV pública já têm seus especiais de Woodstock programados, e há uma nova fornada de livros comemorativos, incluindo "The Road to Woodstock" (Ecco), de um dos idealizadores do festival, Michael Lang, que inclui informações como quanto as bandas receberam de pagamento.

Diferentemente dos aniversários anteriores em 1994 e 1999, entretanto, não haverá nenhum grande festival este ano com o nome de Woodstock - refletindo, talvez, as tristes memórias do Woodstock 99 em Rome, Nova York, onde um público esquentado, irado e irritado com os altos preços ateou fogo, saqueou e vandalizou o local.

Enquanto o Woodstock original mostrou o quanto de desconforto um público poderia aguentar em prol de participar de um evento - algo que os promotores ficaram felizes em saber - o Woodstock 99 ultrapassou o limita da exploração dos fãs.

  • Larry C. Morris/The New York Times

    Jimi Hendrix toca no Festival de Woodstock em Bethel, Nova York (EUA)

Ainda assim o Woodstock original tem seu brilho. Ele foi finito e cheio de sorrisos - bem diferente da Guerra do Vietnã, das tensões raciais e do abismo de gerações muito discutido na mesma época.
Woodstock se tornou livre em ambos os sentidos da palavra: livre no sentido de liberado (das leis antidrogas e códigos de conduta) e livre no sentido de entrada livre, sem cobrar ingressos e oferecendo, como Wavy Gravy disse. "café da manhã na cama para 400 mil pessoas".

Um cínico pode ver o festival como um exemplo perfeito do quanto os integrantes da geração baby boom estavam mimados por uma economia da abundância. A multidão de Woodstock, que chegou com mais drogas do que equipamentos de camping, ganhou um festival de graça, e quando os responsáveis não conseguiram mais lidar com a logística, o governo os abandonou à própria sorte. Alguns assumiram a responsabilidade de ajudar os outros; muitos simplesmente abusaram da boa vontade alheia.

Ainda assim, Woodstock deu a praticamente todos os envolvidos - donos de ingressos, penetras, músicos, médicos, a polícia - uma sensação de fraternidade e cooperação.

Tentando sobreviver ao fim de semana, as pessoas foram simpáticas umas com as outras, o que foi apenas sensato. Músicos tocaram para o maior público de suas vidas. Os moradores da cidade e a Guarda Nacional contribuíram para manter as pessoas alimentadas e saudáveis. Ninguém, relatou o The New York Times, chamou os policiais de "porcos".

Um lunático com uma arma poderia ter mudado tudo. O Festival de Altamont, destruído pela violência durante o dia todo, aconteceu apenas quatro meses depois. Miraculosamente, em Woodkstock, não houve nenhuma.

Aparentemente, minutos depois de terminar Woodstock já era motivo de lenda: um espírito, uma nação, um ideal, amorfo porém vívido, com um filme-documentário vencedor do Oscar, "Woodstock" de 1970, para provar que aquilo tudo não foi uma alucinação. (O filme também foi uma lição imediata do quão lucrativos os direitos sobre seus produtos poderiam ser; o festival em si perdeu dinheiro, mas o filme recompensou muitas vezes mais.)

O próprio tamanho do festival tornou Woodstock importante. Foi imenso.
Os Beatles haviam tocado para 55 mil pessoas no Shea Stadiom; o Festival Folk de Newport em 1965 havia reunido 71 mil pessoas ao longo de quatro dias. Se Woodstock tivesse atraído as 100 a 150 mil pessoas que imaginavam seus organizadores, ele teria sido simplesmente um entre uma série de grandes festivais de Rock que começaram com Monterey Pop em 1967, que teve um total estimado de 200 mil pessoas ao longo de três dias.

Depois que Woodstock desistiu de coletar os ingressos - abandonando as frágeis cercas e declarando a si mesmo um festival gratuito - ele cresceu para uma multidão que foi estimada entre 300 a 400 mil pessoas, mais do que o dobro dos festivais de rock anteriores. Esse número teria sido consideravelmente maior se os problemas de trânsito não tivessem feito com que muitos desistissem; muitas pessoas andaram quilômetros para chegar ao local.

  • Librado Romero/The New York Times

    Jovens aguardam para embarcar em ônibus para o Festival de Woodstock, nos Estados Unidos

Quando a subcultura hippie emergiu em massa em Woodstock, dois anos depois do Summer of Love [Verão do Amor], ela ainda estava em grande parte isolada e se inventando. Havia bolsões esquisitos nas cidades grandes e alguns punhados nas menores, quase todos se sentindo como forasteiros. Para muitas pessoas no festival, ver e se juntar à gigante multidão foi uma revelação bem maior do que qualquer coisa que tenha acontecido no palco. Isso provou que eles não eram uma minoria insignificante, mas sim membros de uma cultura maior - ou, para usar o termo docemente datado, uma contracultura.

Em Woodstock, o modo de ser hippie ao mesmo tempo atingiu seu ápice e se abriu para a imitação e trivialização - mais um brilho de rebelião que seria reduzido a uma afirmação de estilo.

Para os que de fato acreditam, o mote de Woodstock foi a cooperação e a ajuda mútua, e fazer amor em vez de guerra. (Numa época em que o Vietnã havia dividido os Estados Unidos entre aves de rapina e pombas, avia uma pomba da paz pousada sobre uma guitarra no logo do festival.) Mas Woodstock também foi uma multidão de gente se drogando num show de rock, coisa muito mais fácil de fazer do que trabalhar para mudar o mundo.

Depois que o alarido passou, a aura de utopia comunitária de uma Nação Woodstock cedeu espaço, quase que imediatamente, para a realidade de um Mercado Woodstock: um grupo demográfico alvo prestes a ver seus sonhos despidos de seu propósito radical e transformados em mercadorias. Um público maior percebeu que era possível gostar de música, drogas e diversão sem o aparato ideológico.

Em pouco tempo, todos eram quase hippies; cabelos longos não diziam mais nada a respeito dos valores dos homens que os usavam. A rádio FM, que foi o canal para o rock underground, trocou os DJs espirituosos e exploradores por formatos consistentes nos quais os anunciantes poderiam confiar. Agora que estava claro que um grande público estava em jogo - que não eram apenas um bando de esquisitos - os profissionais tomaram novamente as rédeas.

Woodstock e outros festivais do final dos anos 60 mudou a escala dos shows de rock. As bandas mudaram das casas de show para os estádios; uma semana antes de Woodstock, por exemplo, dois de seus números, Jefferson Airplane e Joe Cocker, dividiram o palco no Fillmore East, que tinha ao todo 2.700 lugares. A música logo se expandiu, ou inflou, para preencher suas novas arenas. O começo dos anos 70 foram a época das improvisações e solos de bateria de dez minutos que mais tarde seriam torpedeados, alguns anos depois, pelo punk rock.

Woodstock provou algo ao mundo. O que ele provou - que por pelo menos um fim de semana, os hippies fizeram aquilo que diziam em relação à paz e o amor - foi fugaz e inocente; não sobreviveria à natureza humana de todo dia ou aos trabalhos pragmáticos do mercado. Mas 40 anos depois, a sensação ainda permanece.

Tradução: Eloise De Vylder

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