UOL Notícias Internacional
 

10/08/2009

Décadas de imigração desenvolveram região chinesa marginalizando uigures

The New York Times
Por Andrew Jacobs
Shihezi, China
Eles marcharam pelas ruas de Pequim, Xangai e inúmeras pequenas cidades movidos por gritos patrióticos e o som de tambores. Era o ano de 1956, e Mao Tsé-tung conclamava a juventude chinesa para "abrir o Ocidente", a vasta terra fronteiriça conhecida como Xinjiang, que por séculos havia resistido à subjugação.

Depois de uma viagem de um mês de trem e caminhões abertos, milhares chegaram neste posto do Exército no deserto de Gobi para descobrir que os empregos nas fábricas, as banheiras de água quente e telefones em todas as casas não eram nada além de promessas vazias para atraí-los para uma terra distante.

"Nós morávamos em buracos no chão, e tudo o que fazíamos noite e dia era trabalho pesado", lembra-se Han Zuxue, um homem de 72 anos, enrugado pelo Sol, que era adolescente quando deixou sua casa na província de Henan, ao leste. "A princípio nós chorávamos todos os dias, mas com o tempo esquecemos nossa tristeza."
  • Oliver Weiken/EFE

    Militares chineses vigiam rua de bairro muçulmano de Urumqi, capital da Província de Xinjiang


Mais de quatro décadas de trabalho duro depois, homens e mulheres como Hu ajudaram a transformar Shihezi num oásis cheio de árvores, cujos tomates enlatados, o forte álcool de grãos e as enormes safras de algodão são famosos em toda a China.

Essa cidade de 650 mil habitantes é uma espécie de mostruário da Xinjiang Production and Construction Corps, um conglomerado chinês de fazendas e fábricas que foram criadas por soldados dispensados no final da guerra civil.

"Coloquem suas armas de lado e peguem nas ferramentas de construção", dizia um slogan popular na época. "Desenvolva Xinjiang, defenda as fronteiras da nação e proteja a estabilidade social."

Com uma população total de 2,6 milhões, 95% do grupo étnico han, Shihezi e uma série de outros assentamentos criados pelos militares são fortalezas estáveis numa região cuja população em sua maioria não pertence à etnia han e em geral não gosta do governo de Pequim. Em julho, os descontentes se mostraram durante uma revolta étnica nociva que deixou 197 mortos na capital regional de Urumqi, que fica a duas horas dali.

O governo diz que a maioria dos mortos eram chineses han que foram coagidos por grupos de uigures, muçulmanos de ascendência turca cuja presença em Xinjiang tem sido sistematicamente diluída pela migração do leste densamente povoado da China.

"Desde que chegamos eles se ressentem e não reconhecem o quanto nós melhoramos o lugar", disse He Zhenjie, 76, que passou sua vida adulta nivelando dunas de areia, plantando árvores e cavando canais para irrigação. "Mas nós viemos para ficar. Os uigures nunca tomarão Xinjiang novamente."

Embora muitos uigures vejam os migrantes como nada mais do que colonos chineses, muitos chineses consideram os "bituang", ou seja "o corpo de soldados", como um grande sucesso. De uma só vez, Mao enviou 200 mil soldados inativos para ajudar a desenvolver e ocupar a região rica em recursos naturais e politicamente estratégica, que faz fronteira com a Índia, Mongólia e a União Soviética, um antigo aliado que se tornou uma ameaça.

Shihezi e outros assentamentos bingtuan rapidamente se tornaram autossuficientes, um alívio para o governo que não tinha recursos, e seus "guerreiros produtivos" trabalharam sem pagamento durante os primeiros anos, transformando sistematicamente milhares de acres de terras inóspitas em um dos terrenos mais férteis do país.

Com uma produção anual de bens e serviços de U$ 7 bilhões (R$ 12,7 bilhões), os assentamentos bingtuan incluem cinco cidades, 180 comunidades rurais e mil empresas. Eles também respondem diretamente a Pequim e coordenam seus próprios tribunais, faculdades e jornais.

"Durante os tempos de paz, eles são uma força para o desenvolvimento, mas se alguma coisa urgente acontecer, eles se levantarão para manter a estabilidade social e combater os separatistas", disse Li Sheng, pesquisador da Academia Chinesa de Ciências Sociais e ex-integrante dos bintuang que escreve sobre a história da região.

Naqueles primeiros anos, o Exército dos bingtuan foi fortificado com pequenos criminosos, ex-prisioneiros de guerra, prostitutas e intelectuais, todos enviados para o oeste para passar por "reeducação". Durante meados dos anos 50, 40 mil jovens foram atraídas para Xinjinang com a promessa de uma vida boa. Mas quando chegaram lá descobriram que seu principal objetivo era aliviar a solidão dos pioneiros e consolidar a presença han na região por meio de sua progênie.

O crescimento populacional sempre foi um elemento tático da campanha para pacificar a região. Em 1949, quando os comunistas declararam o estabelecimento da República Popular da China, havia apenas 300 mil chineses han em Hinjiang. Hoje, o número de han cresceu para 7,5 milhões, pouco mais de 40% da população da região. A porcentagem de uigures caiu para 45%, ou cerca de 8,3 milhões.

O ressentimento se multiplicou apesar de Xinjiang ter se tornado mais próspera, graças em parte às suas enormes reservas de gás natural, petróleo e minerais. Muitos uigures reclamam da repressão contra a religião islâmica, das políticas oficiais que marginalizam sua língua e da falta de oportunidades de trabalho, especialmente nos escritórios do governo e dentro do bingtuan.

Tradução: Eloise De Vylder

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