UOL Notícias Internacional
 

10/08/2009

Funcionário iraniano reconhece tortura contra manifestantes

The New York Times
Por Robert F. Worth, em Beirute, e Nazila Fathi, em Toronto*
Um alto funcionário da Justiça iraniana reconheceu no sábado que alguns manifestantes presos depois dos protestos pós-eleitorais foram torturados em prisões iranianas; esta foi a primeira vez que uma autoridade iraniana reconheceu algo parecido.

Enquanto isso, um julgamento em massa de reformistas e manifestantes, com mais de cem pessoas acusadas de tentar derrubar o governo, entrava em seu segundo dia de depoimentos. Entre os acusados estavam uma pesquisadora francesa e funcionários das Embaixadas francesa e britânica, o que incitou respostas irritadas por parte da Inglaterra, França e União Europeia.

Embora o julgamento pareça levar adiante a campanha do "establishment" linha-dura iraniano para intimidar e silenciar a oposição, buscando isolar os moderados iranianos e o Ocidente, a declaração sobre tortura do promotor-geral da Justiça iraniana trouxe à tona as divisões dentro do governo.

UM PRESIDENTE ULTRACONSERVADOR

  • Mahmoud Ahmadinejad, de 52 anos, é casado e pai de três filhos. Durante a Revolução Islâmica de 1979, fez parte do Guardiões da Revolução, o exército ideológico do regime. Assumiu seu primeiro cargo político como governador da província de Ardebil. Em 2003, tornou-se prefeito de Teerã, cargo que o levou à presidência do Irã em 2005. Tornou-se famoso ao afirmar que Israel deveria ser varrido do mapa e que o Holocausto era um "mito". Foi criticado por sua política de distribuição de petrodólares que gerou forte inflação (23,6%) sem, no entanto, reduzir o desemprego e a pobreza. Foi reeleito em 12 de junho deste ano para seu segundo mandato presidencial, com quase 63% dos votos.



Falando a repórteres numa coletiva de imprensa, o promotor-geral Qorbanali Dori-Najafabadi disse que alguns "erros" levaram "dolorosos acidentes que não podem ser defendidos, e que os envolvidos devem ser punidos".

Esses erros, disse ele, incluem "o incidente de Kahrizak", numa referência às mortes de vários detentos na prisão de Kahrizak no sudoeste de Teerã.

Seus comentários vieram depois de semanas de relatos de que os detentos haviam sido torturados e o tom deles ficou entre a admissão e a acusação, uma vez que a maioria das prisões foi feita pela Guarda Revolucionária e pela milícia paramilitar Basij, grupos que não estão sob o controle do Judiciário.

Mesmo assim, a declaração poderá ser incendiária no Irã, onde as alegações de tortura do xá Mohammed Reza Pahlavi se tornaram uma justificativa central para a revolução de 1979, que levou os clérigos linha-dura ao poder.

As acusações de tortura de presos já desencadearam uma investigação parlamentar de abusos em Kahrizak, que foi encerrada no mês passado por ordem do líder supremo do Irã, Ayatollah Ali Khamenei.

Dori-Najafabadi disse que sua equipe tentou mudar a situação depois de assumir o controle das prisões no mês passado, informou a agência de notícias Ilna, e encorajou as pessoas a apresentarem queixas.

"Talvez tenha havido casos de tortura nos primeiros dias depois das eleições, mas estamos dispostos a investigar quaisquer queixas ou irregularidades que sejam apresentadas", disse ele segundo a agência.

Em outra indicação da dissensão no poder iraniano, ele disse que um comitê judiciário especial havia recomendado a soltura do proeminente reformista Saeed Hajjarian. A família de Hajjarian disse que ele havia sido torturado e expressou preocupação em relação à sua saúde.

Na semana passada, autoridades iranianas disseram que Hajjarian havia sido transferido para um lugar com acesso a médicos.

Dori-Najafabadi também disse que cem pessoas haviam sido presas por dia depois que as manifestações pós-eleitorais começaram, e que havia uma iniciativa para soltar o mesmo número diariamente. Há quase 200 presos hoje, disse ele.

No julgamento do sábado, as famílias dos réus se reuniram do lado de fora do tribunal e foram atacadas pela polícia de choque quando começaram a entoar gritos de protesto, informaram sites da internet.

Zahra Mir-Younessi, mulher de um dos presos, e vários outros foram presos.

Dentro do tribunal, a pesquisadora francesa e um analista da Embaixada francesa que foram acusados de espionagem testemunharam pedindo desculpas, dizendo que tudo o que queriam era informar suas embaixadas sobre os recentes distúrbios políticos no Irã.

A pesquisadora Clotilde Reiss, que estava trabalhando na universidade Isfahan, disse que havia reunido notícias e informações sobre políticos e manifestantes e apresentado algumas delas a oficiais da Embaixada francesa em Teerã.

"Percebi que isso foi um erro", disse ela, de acordo com uma transcrição fornecida pela agência de notícias semi-oficial Fars.

"Peço desculpas ao tribunal e ao povo do Irã, e espero que eles me perdoem."

Hossein Rassam, cidadão iraniano e analista político da Embaixada britânica em Teerã, também testemunhou depois que acusações de espionagem foram lidas contra ele. Ele disse que seu trabalho exigia que ele reunisse informação sobre políticos iranianos para transmiti-las a seus empregadores.

Ele então expressou seu "arrependimento", de acordo com a Fars, e pediu perdão e a oportunidade de redimir qualquer ação que possa ter prejudicado o governo. Seu advogado então se levantou para dizer que as atividades de Rassam não eram espionagem, mas sim exigências de seu trabalho na Embaixada.

O julgamento, que começou no último sábado, incluiu as confissões de importantes reformistas, que foram coagidos por meio de tortura segundo amigos e parentes. As confissões de sábado pareceram ser parte de uma estratégia para ligar a oposição, que sustenta que a vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad nas eleições de 12 de junho foi fraudada, às potências internacionais.

As aparições no tribunal vieram depois de mais de um mês de esforços diplomáticos intensos da Inglaterra e da França para persuadir o Irã a não acusar os funcionários e a pesquisadora de suas Embaixadas.

O ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, David Miliband, disse que as acusações contra Rassam eram injustificadas, e que a ação contra Rassam e Reiss "apenas traz mais descrédito ao regime iraniano".

O governo francês pediu que o Irã solte imediatamente Reiss e o integrante da equipe da Embaixada, Nazak Afshar, dizendo que as acusações de espionagem contra eles não têm base.

Miliband disse que a Reino Unido levantou esses pontos numa reunião em Teerã entre o embaixador britânico e o vice-ministro de Relações Exteriores iraniano e em Londres, onde um funcionário do Ministério das Relações Exteriores se encontrou com o embaixador do Irã.

Autoridades do Ministério das Relações Exteriores disseram anteriormente que acreditavam ter a garantia do Irã de que Rassam não enfrentaria julgamento.

Autoridades britânicas, falando em condição de anonimato de acordo com o protocolo diplomático, disseram que Rassam parece ter sido escolhido como bode expiatório depois que Khamenei identificou o Reino Unido como um alvo durante os protestos depois da eleição.

Num discurso durante as orações de sexta-feira em Teerã, Khamenei disse que o Reino Unido, com seu longo histórico de interferência colonial no Irã, estava liderando um esforço internacional dissimulado para manipular os resultados da eleição.

Assim como na sessão da semana passada, os promotores começaram no sábado pela leitura de uma ampla lista de acusações que pareciam implicar todas as organizações ocidentais que têm algum interesse no Irã - incluindo organizações da mídia, grupos de direitos humanos e institutos de pesquisa - numa vasta conspiração contra o governo iraniano.

Entre os outros réus em julgamento no sábado estavam dois analistas políticos proeminentes, Ahmad Zeidabadi e Bijan Khajehpour, assim como pessoas que o governo acusa de serem integrantes de um grupo monarquista e de um grupo terrorista e que foram acusadas de planejar ataques a bomba.

Um réu acusado de planejar ataques a bomba na época das eleições, Muhammad-Reza Ali-Zamani, testemunhou que havia encontrado vários estrangeiros. Entre eles estava um funcionário da inteligência norte-americana no Curdistão, no Iraque, conhecido como "Frank", que teria lhe dado dinheiro, um telefone e mais ajuda.

John F.Burns contribuiu com a reportagem de Cambridge, Inglaterra.

Tradução: Eloise De Vylder

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