UOL Notícias Internacional
 

10/08/2009

Temores de fraude e insegurança desafiam a credibilidade das eleições afegãs

The New York Times
Carlotta Gall
Em Cabul (Afeganistão)
Pouco mais de três semanas antes das eleições presidenciais, problemas que incluem insegurança e suspeitas de fraude estão levantando preocupações em relação à credibilidade da disputa, que foi chamada pelo presidente Barack Obama de o evento mais importante no Afeganistão este ano.

Com os insurgentes do Taleban ativos em metade do país, muitos afegãos continuam duvidando de que a eleição de 20 de agosto de fato aconteça. O Taleban divulgou uma declaração na semana passada pedindo um boicote, uma ameaça que pode fazer com que os eleitores de boa parte do sul do país, onde a insurgência é mais forte, não compareçam às urnas.

  • Shah Marai/AFP

    Afegão aguarda clientes em loja coberta com cartazes eleitorais, na cidade de Herat. À medida em se aproxima a eleição presidencial afegã, prevista para 20 de agosto, cresce a preocupação entre a comunidade internacional a respeito da organização da votação e do crédito que se poderá conceder ao vencedor

Autoridades eleitorais insistem que a eleição acontecerá. Mas admitem que a insegurança fará com que cerca de 600 seções eleitorais, ou aproximadamente 10%, não sejam abertas. Oficiais ocidentais reconhecem que a eleição será imperfeita, mas dizem que estão lutando por credibilidade suficiente para satisfazer tanto os afegãos quanto os monitores internacionais.

Até mesmo esse objetivo será difícil de ser atingido. Apesar de cada vez mais impopular no país e fora, o presidente Hamid Karzai ainda lidera em meio a cerca de 40 candidatos, e apenas um deles, Dr. Abdullah Abdullah, um ex-ministro de exterior de Karzai, destacou-se como um concorrente sério. Muitos afegãos estão convencidos de que as potências estrangeiras escolherão o vencedor e determinarão o resultado.

Mas não importa quem vença, os inúmeros problemas e a possibilidade de um fraco comparecimento às urnas nas áreas de conflito têm chances de reduzir o mandato do próximo presidente.

Autoridades ocidentais e afegãs temem que a eleição possa ser tão falha que muitos afegãos rejeitem as urnas e seus resultados, com consequência potencialmente perigosas.

Se não puderem votar por causa da insegurança no sul, os pashtuns, maior grupo étnico e o mais associado ao Taleban, podem se distanciar ainda mais do governo e das forças estrangeiras que o apoiam, dizem os analistas políticos.

Eles também alertam contra protestos e instabilidade ao estilo do Irã se a população do norte, que em grande parte apoia uma mudança do governo, sentir que o voto foi manipulado.

"Estamos preocupados com fraudes nos registros dos eleitores, e também com os eleitores que não conseguirão chegar às seções eleitorais por causa da insegurança", disse Richard C. Holbrooke, enviado especial norte-americano durante uma visita ao país na semana passada. "E estamos preocupados com a exatidão da contagem dos votos, e com os direitos das mulheres de votarem".

Philippe Morillon, o general francês aposentado e franco que lidera a missão de observação das eleições da União Europeia no Afeganistão, disse que sua maior prioridade é prevenir a fraude. "São vocês que escolherão seu presidente, e nós estamos aqui simplesmente para garantir que sua escolha não seja traída", disse Morillon a jornalistas afegãos durante uma coletiva de imprensa em Cabul.

Num esforço para acelerar os resultados e reduzir a oportunidade de fraude, as urnas serão contadas em seções eleitorais individuais. Autoridades afegãs disseram que haverá resultados preliminares dentro de 48 horas, seguidos por um período de duas semanas para reclamações e procedimentos de confirmação.

Mas autoridades ocidentais dizem que poderá levar mais tempo para declarar um vencedor, antecipando os desafios das 34 províncias em todo o país, onde eleitores também serão convocados para conselhos provinciais.

"Poderá ser como 34 eleições para o senado de Minnesota", disse um oficial ocidental, referindo-se à disputa corrida eleitoral para o senado do Estado norte-americano entre Al Franken e Norm Coleman, que levou quase oito meses para se decidir em favor de Franken.

Outros oficiais alertam que a frustração do público com a guerra, a corrupção e o atraso na reconstrução e desenvolvimento do país é tão grande que muitas pessoas podem evitar as urnas.

No sul, autoridades eleitorais disseram que estão esperando um comparecimento abaixo dos 30%, disse Abdul Qader Nurzai, chefe do escritório em Kandahar da Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão.

"As pessoas não estão interessadas nas eleições", disse Abdul Hadi, o comissário eleitoral na província vizinha de Helmand, para onde milhares de soldados foram enviados para reconquistar as cidades tomadas pelo Taleban a tempo para as eleições.

"Eles já votaram antes, e não viram nenhum resultado com isso", disse Hadi. "E eles não querem colocar suas vidas em perigo por causa de um voto". Cerca de 70% dos eleitores afegãos em todo o país compareceram às urnas durante a primeira eleição presidencial, em outubro de 2004.

Em Helmand, no sul do Afeganistão, a eleição acontecerá apenas em lugares seguros nas principais cidades, disse Hadi. Um terço dos distritos estão sob controle do Taleban e não serão capazes de participar, disse ele. Em alguns deles, como Kajaki, o Taleban cercou centros administrativos e não permitirá que os civis votem, disse.

Na província de Paktika, ao leste, que faz fronteira com as áreas tribais sem lei do Paquistão, mais de 20% das seções eleitorais terão que ser movidas para outros lugares ou abandonadas por causa da segurança, disseram autoridades.

Autoridades eleitorais afegãs na capital, Kabul, insistem que os eleitores comparecerão. Cerca de 4,5 milhões de pessoas se registraram para obter novos títulos eleitorais este ano, excedendo em muito as expectativas, disse Azizullah Ludin, comissário eleitoral chefe.

Mesmo assim, as irregularidades são generalizadas. Cerca de 3 milhões de títulos eleitorais duplicados devem estar circulando entre os 17 milhões expedidos, de acordo com um observador eleitoral que pediu para não ser identificado por se tratar de um assunto delicado.

Vinte por cento dos novos títulos foram concedidos a meninos menores de idade e outros 20% foram duplicados, descobriu uma organização afegã de observação das eleições, a Free and Fair Eleiction Foundation do Afeganistão, nas seções eleitorais que conseguiu monitorar.

Por motivos culturais e de segurança, o registro eleitoral das mulheres foi muito baixo. Mesmo assim, o número de mulheres registradas excedeu o número de homens em algumas áreas, indicando ainda mais irregularidades. Os homens das famílias conseguiram obter esses títulos eleitorais simplesmente fornecendo uma lista de nomes de mulheres, disseram os monitores afegãos num relatório em maio.

Esta eleição é diferente da primeira disputa presidencial do Afeganistão há cinco anos, uma vez que a maior parte da contagem e do monitoramento está sendo feito por afegãos, com apenas um pequeno número de conselheiros internacionais e observadores, principalmente os 120 membros da missão da União Europeia.

Os organizadores afegãos ainda estão lutando para treinar milhares de policiais extras para manter a segurança nas seções eleitorais. Uma província como Kandahar, no sul, tem 270 seções eleitorais e precisa de 2.800 policiais para sua segurança, mas por enquanto só existem 1.800 em toda a província, disse Nurzai, da comissão de direitos humanos.

Até agora, o Taleban em geral se absteve de ataques específicos ao processo eleitoral ou aos eleitores, e até mesmo concordou em permitir a votação em algumas áreas.

Mesmo assim, a violência aumentou, e em alguns lugares o Taleban está ordenando que as comunidades não participem da votação. Numa declaração incoerente na quinta-feira, através de um porta-voz, os líderes do Taleban incentivaram as pessoas a boicotarem as eleições e os guerrilheiros a sabotarem o processo.

"Estamos pedindo para todos os mujahedeen para fazerem seu melhor para sabotarem o pernicioso processo eleitoral em todos os lugares do Afeganistão", disseram. "Eles devem fazer operações contra as bases inimigas, e proibir as pessoas de irem às urnas um dia antes das eleições".

Richard A. Oppel Jr. contribuiu com a reportagem em Cabul, e Taimoor Shah em Kandahar, Afeganistão

Tradução: Eloise De Vylder

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