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12/08/2009

Hillary Clinton apresenta plano para o combate à violência sexual no Congo

The New York Times
Jeffrey Gettleman e Sharon Otterman
Em Goma (Congo)
A secretária de Estado Hillary Clinton anunciou na terça-feira (11) um plano no valor de US$ 17 milhões (R$ 31,3 milhões) para o combate à violência sexual generalizada no leste do Congo, um problema que segundo ela é "o mal na sua forma mais básica".

Falando durante uma visita sem precedentes de uma secretária de Estado norte-americana a Goma, no epicentro do leste do Congo, uma região devastada pela guerra, ela afirmou que o governo norte-americano ajudaria a treinar ginecologistas, forneceria às vítimas de estupro câmeras de vídeo para que elas documentassem a violência e enviaria engenheiros militares ao país para auxiliar a polícia congolesa a reprimir os estupradores.

"Este problema é muito grande para que um país sozinho o resolva", disse ela em uma reunião em mesa redonda aqui, com médicos e defensores dos direitos humanos. "Não estou aqui para deixar um cartão de apresentação, mas também não posso sacudir uma varinha de condão e fazer com que os problemas desapareçam", disse ela quando trabalhadores da área de direitos humanos exigiram assistência concreta.

O leste do Congo está imerso em uma onda de violência sangrenta há mais de uma década, e agora a região passa por um outro período terrível. Recentes operações das forças armadas do Congo e de Ruanda ao longo da fronteira volátil provocaram ataques vingativos e fizeram com que mais de 500 mil pessoas fugissem das suas casas. Dezenas de vilas da região foram queimadas, centenas de moradores massacrados e incontáveis mulheres estupradas. O número de homens vítimas de estupro também começou a aumentar.

Hillary Clinton disse que veio até aqui para denunciar as mortes de civis e a violência sexual endêmica, e para pedir ao governo do Congo, cujos próprios soldados estão envolvidos em vários casos de abusos, que proteja melhor o seu próprio povo.

"Estamos muito preocupados com as baixas civis: mortes, estupros e outras violências vinculadas à ação militar", disse ela em uma entrevista coletiva à imprensa na mansão do governador, à margem do Lago Kivu, após uma reunião com o presidente Joseph Kabila e outras autoridades.

"Conversei bastante com o presidente Kabila sobre as medidas que precisam ser implementadas para proteger os civis", disse ela. "Nós acreditamos que não pode haver impunidade para a violência sexual e baseada no gênero do indivíduo, e que é necessário que haja prisões e punições porque essas ações são contrárias à paz".

Após reunir-se com autoridades governamentais, Hillary Clinton e a sua comitiva foram até o campo de desabrigados na periferia da cidade, onde 18 mil pessoas estão acampadas em uma planície de lava criada por uma devastadora erupção vulcânica vários anos atrás. A sua visita ao campo durou cerca de 15 minutos, e neste período ela esteve cercada por centenas de pessoas que foram obrigadas a deixar as suas vilas devido à violência.

Chantal Mapendo, uma mulher de 32 anos, aproximou-se de Hillary Clinton e lhe disse como mora há três anos com os seis filhos no campo e que para ela é muito perigoso sair para procurar comida, porque as mulheres que fazem isso são frequentemente vítimas de estupro. "A nossa vida é muito ruim", queixou-se Mapendo. "Eu acabei de conversar com o presidente Kabila e disse a ele que nós queremos ajudá-los a voltar para casa", disse a secretária à mulher desabrigada.

Hillary Clinton reuniu-se também com funcionários locais de ajuda humanitária que lhe falaram sobre os horrores que ocorrem na área, incluindo o estupro de um garoto de oito anos de idade na última segunda-feira.

Os funcionários da área de direitos humanos descrevem uma certo "cansaço do Congo" que neste momento se insinua entre aqueles que tentam resolver o conflito no país. Muitas medidas foram tentadas - uma missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no valor de US$ 1 bilhão (R$ 1,84 bilhão); amplos programas de desarmamento; vários tratados regionais de paz; e visitas diplomáticas de alto nível como esta -, mas nada parece funcionar. Este é ainda um conflito intensamente predatório, movido por uma mistura de interesses de natureza étnica, comercial, nacionalista e criminosa.

Desde o início da guerra na metade da década de 1990, a violência sexual tem sido uma manifestação persistente da instabilidade e da ausência de lei no país. Muita gente espera que a visita de Hillary Clinton modifique essa situação.

"O Congo padece de uma desordem de déficit de atenção mortal", afirma John Prendergast, co-fundador do Enough Project (Projeto Basta), um grupo anti-genocídio. "O fato de Hillary Clinton estar aqui, especialmente em Goma, é um importante sinal de que a guerra mais mortífera do mundo subiu alguns degraus na escala de prioridades".

Mas ele diz que Hillary Clinton não deve se restringir à questão da violência sexual e às oportunidades para que as vítimas congolesas tirem fotos. Ele afirma que a secretária precisa debruçar-se sobre as causas fundamentais do conflito, especialmente o comércio ilícito do mineral columbita, que é utilizado em laptops e telefones celulares, bem como a venda ilegal de ouro e outros minerais.

"Os Estados Unidos deveriam trabalhar em conjunto com a indústria eletrônica para fiscalizar e certificar esta atividade, e pressionar Estados vizinhos, como Ruanda, para que deixem de praticar contrabando", diz Prendergast. "Assim como ocorre no caso dos 'diamantes sangrentos' que alimentam guerras em Serra Leoa, Libéria e Angola, não existe possibilidade de paz se o motivo econômico do conflito não for enfrentado".

Hillary Clinton falou sobre aquilo que chamou de "minerais do conflito", e afirmou que o mundo precisa fazer mais para impedir que os lucros obtidos com eles "acabem nas mãos de pessoas que alimentam a violência". Ela disse ainda que pressionou Kabila para que sejam submetidos a julgamento cinco oficiais de alta patente das forças armadas congolesas que recentemente foram acusados de praticar estupro. O exército congolês é famoso pela sua indisciplina, mas Hillary Clinton disse acreditar que com treinamento e pagamento adequado e regular, o comportamento dos militares possa melhorar.

Ela disse que deseja ver uma "nova era" de cooperação com o Congo e que falou com Kabila sobre o aumento da cooperação militar para "profissionalizar" o exército congolês. Ela acrescentou que os Estados Unidos enviarão uma equipe de especialistas em direito, finanças e tecnologia para ajudar o Congo com os seus problemas de governança.

Clinton deixou Goma no final da terça-feira e retornou para Kinshasa, a capital do Congo, em um voo da ONU. De lá, ela deverá seguir para a Nigéria, a quinta escala da sua visita a sete nações africanas.

Tradução: UOL

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