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13/08/2009

Estúdios reduzem os seus orçamentos, e espírito de produção independente ajuda cineastas

The New York Times
Michael Cieply
Em Los Angeles (EUA)
Quentin Tarantino nunca teve que passar por isso.

Quando "The Age of Stupid" ("A Era do Estúpido"), um filme sobre a mudança climática, estrear nos Estados Unidos em setembro, ele será exibido em cerca de 400 telas em um evento conjunto na mesma moite, com uma apresentação em vídeo de Thom Yorke, do Radiohead, tudo pago pelos próprios cineastas e pelos indivíduos que os financiam. Enquanto isso, no Reino Unido, o filme vem sendo exibido por um serviço da Internet que permite que qualquer um compre uma licença para a exibição da cópia, monte uma tela e fique com o lucro.

Os dias de glória dos filmes independentes, quando jovens diretores empolgados como Steve Soderbergh e Tarantino faziam com que os executivos dos estúdios brigassem pela chance de produzir os filmes em Sundance e outros festivais repletos de celebridades, parecem uma imagem distante do passado. E algo de novo, e bem mais estranho, assumiu o lugar deles.

O cineasta faz tudo
Eis como as coisas funcionavam: aspirantes a cineastas adotavam a postura de grandes diretores na esperança de atrair a atenção de um agente de Hollywood.

Mas agora o método é outro: os cineastas fazem tudo sozinhos. Pagam pela própria distribuição, fazem marketing dos filmes através de sites de rede social e Twitter, publicam os seus trabalhos gratuitamente na Internet para conquistarem fama, conversam com concierges em hotéis luxuosos das cidades nas quais há festivais de cinema a fim de que eles façam propaganda para as pessoas certas.

A crise econômica e a carência de crédito atingiram a indústria do entretenimento tanto quanto as demais empresas, o que resultou em uma queda significativa dos projetos para grandes produções cinematográficas e em problemas ainda maiores para os projetos independentes de orçamento menor. As companhias de distribuição independente estão relutando muito mais em apresentar verbas, e os grandes estúdios praticamente abandonaram o setor de filmes independentes.

"Não é que a plateia para esses filmes tenha desaparecido por completo", explica Cynthia Swartz, parceira da companhia de publicidade 42 West, que tem suplementado os seus negócios principais ajudando os cineastas a encontrar maneiras de cativar a plateia. "É apenas uma questão de encontrá-los".

Às vezes, a abordagem esquisita de fato funciona.

"Anvil!: The Story of Anvil", um documentário sobre uma banda canadense de rock, transformou-se no equivalente do tipo "faça-você-mesmo" de um hiper-sucesso quando estendeu um lançamento em abril em três cinemas por quatro meses, ainda em andamento, em mais de 150 telas em todo o país.

"Eu arquei com os custos de tudo. Contraí uma segunda hipoteca para a minha casa", diz Sacha Gervasi, o diretor.

Gervasi, cujos créditos de roteiros para estúdios incluem "The Terminal", dirigido por Steven Spielberg, há quase três anos, começou a filmar "Anvil!" com o seu próprio dinheiro na esperança de atrair uma distribuidora convencional. O filme foi bem recebido em Sundance em 2008, mas as ofertas foram baixas.

Assim, Gervasi investiu mais dinheiro - segundo ele o custo total ficou em "várias centenas de milhares" de dólares - para distribuir o filme através de uma companhia chamada Abramorama, enquanto vendia os direitos de DVD e televisão à VH1.

A guerrilha da divulgação
Os maduros roqueiros do Anvil apareceram nos cinemas para tocar para as plateias. Fãs famosos como Courtney Love em breve estavam batendo papo online sobre o filme. E um exército de "virtual street teamers" - indivíduos que atuam na Internet, inundando as redes sociais com comentários de admiração, às vezes cobrando por isso - foram recrutados por uma consultora da Web, Sarah Lewitinn, que geralmente trabalha com o universo musical.

A ideia por trás dessa espécie de guerrilha de divulgação é acumular nas bilheterias apenas o suficiente para financiar o impulso para as vendas de DVD e garantir o retorno do investimento do cineasta, talvez até com um pequeno lucro. "Anvil!" conquistou cerca de US$ 1 milhão nas bilheterias mundias até o momento, segundo a produtora do filme, Rebecca Yeldham.

É claro que encontrar até mesmo pequenas quantias para produzir e fazer o marketing de um filme não é uma tarefa fácil. "The Age of Stupid" obteve um orçamento de produção de cerca de 450 mil libras esterlinas (cerca de US$ 478 mil, ou R$ 877 mil) de 228 acionistas, e os produtores estão pedindo um pouco mais para dar continuidade ao seu lançamento, afirma o diretor Franny Armstrong.

"O dinheiro simplesmente desapareceu", diz Mark Urman, um veterano dos filmes independentes, falando da escassez de dinheiro que obrigou produtores e diretores a assumirem os riscos que há apenas alguns anos eram abraçados por um campo mais robusto de distribuidoras.

As primeiras baixas da indústria
Muitas dessas distribuidoras ou desapareceram ou reduziram bastante as suas operações, incluindo a Warner Independent Pictures, a Picturehouse, a New Line Cinema, a Miramax, a Weinstein Co., a Paramount Classics e a sua sucessora, a Paramount Vantage.

Tipicamente, as distribuidoras pagavam adiantadamente pelos direitos de lançamento de filmes. Elas ajudavam os produtores a recuperar aquilo que haviam gasto na produção, mas isso frequentemente deixava a distribuidora com a maior parte ou todo o lucro.

O próprio cargo de Urman de presidente de distribuição da Senator Entertainment desapareceu neste ano. Assim, ele criou uma nova companhia, a Paladin, para apoiar cineastas dispostos a financiar os seus próprios lançamentos.

Em setembro, a Paladin deverá ajudar o diretor Steve Jacobs e os seus colegas de produção a lançarem "Disgrace", um drama com John Malkovich, baseado em um romance de J.M. Coetzee, que ganhou o Prêmio Nobel.

O filme ganhou um prêmio de crítica no Festival Internacional de Cinema de Toronto no ano passado, mas não obteve nenhuma oferta atraente de distribuição. Segundo Urma, um fator chave para lançá-lo pela Miramax é minimizar a propaganda cara em jornais e na televisão e apelar diretamente para uma plateia amigável - neste caso por meio dos amplos vínculos promocionais com os editores de Coetzee.

"Todos ainda sonham que haverá uma venda convencional para um grande estúdio", diz Kevin Iwashina, que já foi especialista em filmes independentes da Creative Artists Agency, e que agora é sócio da IP Advisors, uma empresa de consultoria da área de vendas e financiamento de filmes. Mas, segundo ele, os produtores e diretores inteligentes estão descobrindo como valorizar projetos por conta própria. Algumas grandes companhias ainda estarão procurando filmes neste ano em Toronto, onde o festival anual terá início em 10 de setembro.

"Estaremos lá com força total", diz Nancy Utley, presidente da Fox Searchlight Pictures, que no ano passado adquiriu os direitos sobre "Slumdog Millionaire" e "The Wrestlers", ambos apresentados em Toronto.

"Esta é uma grande oportunidade para nós", diz Robert G. Friedman, diretor da Summit Entertainment, que adquiriu "The Hurt Locker", dirigido por Kathryn Bigelow. O filme foi oferecido em Toronto no ano passado, e já foi citado bastante como um possível concorrente ao Oscar.

Mas alguns diretores e produtores que participarão do festival já começaram a trabalhar por conta própria, em vez de aguardarem pela aparição dos poucos compradores remanescentes, que estão cada vez mais exigentes.

"Esses caras descobriram como fazer as coisas", diz Barry Avrich, membro da diretoria do festival, referindo-se aos cineastas que fazem tudo por conta própria. "Esses diretores ficarão hospedados em todos os hotéis luxuosos, para fazer com que os concierges pensem neles".

Tradução: UOL

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