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13/08/2009

O futebol argentino está em dificuldades

The New York Times
Rob Hughes
Por uma vez, Diego Maradona está em melhor forma que seu país.

Maradona, o semideus argentino que mais de uma vez foi resgatado da porta da morte em seu passado turbulento, está em Moscou, preparando a seleção argentina para um jogo amistoso contra a Rússia, na quarta-feira.

Maradona está bem e em forma. Ele diz que seu trabalho como técnico da seleção argentina é "tentar enfiar algumas coisas naquelas 25 cabecinhas". Sorte a dele que essas pequenas cabeças incluem talentos maravilhosos como Lionel Messi. E, sorte dos jogadores, a maior parte está empregada fora da Argentina.

Os times argentinos estão falidos e enfrentam a suspensão de seu torneio. O corpo governante do futebol argentino foi fundado em 1893 e tem sido tão integralmente argentino quanto a carne de boi desde então.

"O futebol na Argentina está quebrado", disse Julio H. Grondona, presidente da Associação de Futebol Argentina. "A única solução é dinheiro. As instituições estão gastando mais do que estão ganhando."

Grondona tem um pé em duas finanças bem diferentes. É presidente do comitê financeiro da Fifa, federação mundial do esporte. Ele se tornou diretor da federação nacional argentina em 1979, quando tinha 48 anos.

Hoje, enquanto a Fifa tem participações de US$ 900 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão), a Associação de Futebol Argentina busca doações desesperadamente. Grondona implorou às redes de televisão que pagassem quase três anos de assinatura adiantado. Elas se negaram.

Ele pediu ao governo argentino que perdoasse as dívidas dos clubes, uma forma de subsidiar a falência do futebol. O governo disse não.

Então, Grondona sugeriu uma cobrança de 12 pesos (aproximadamente R$ 6) por mês das taxas de televisão a cabo. Não novamente. Então ele desprezou a luta da Fifa contra apostas no futebol e propôs, sem sucesso, que o governo relaxasse sua proibição de apostas no futebol pela Internet.

A Associated Press informou na terça-feira que a temporada talvez comece no dia 21 de agosto, se a associação concordar com uma proposta do governo de pagar às equipes US$ 154 milhões (em torno de R$ 308 milhões) pelos direitos de televisão. Se concordar, a liga terá que romper o contrato firmado com as redes de mídia privada, que ainda duraria cinco anos.

A imagem de Grondona foi pichada nos muros da sede da associação de futebol no centro de Buenos Aires com a mensagem: "Julio Grondona, bandido!".

Ele está isolado e aparentemente sem saída. A Argentina exporta jogadores desde que Alfredo Di Stefano entrou para o Real Madrid em 1950; durante a geração de Maradona, nos anos 80, até a atual safra de Messi e outros.

Os compradores, entretanto - mesmo clubes europeus - também estão em uma recessão mundial.

Há exceções. O proprietário do Manchester City, de Abu Dhabi, pagou US$ 41 milhões (cerca de R$ 82 milhões) no mês passado por Carlos Tevez. O Real Madrid tem Fernando Gago em sua galáxia de astros. Mas, como Grondona salienta, as taxas de transferência hoje em dia são embolsadas por agentes e cartéis que são proprietários de números crescentes dos talentos argentinos.

Maradona está falando das chances da Argentina de vencer a Copa do Mundo 2010 e pode estar certo. Tevez tem apenas 25 anos, e cada vez que mudou -do Boca Juniors para o Corinthians, para o West Ham United, para o Manchester United e agora o Manchester City - o grupo que é dono de seu registro colheu recompensas.

O grupo é dirigido por um empresário iraniano, Kia Joorabchian, em nome de acionistas não revelados, que seriam russos.

Muitos anos atrás, quando Maradona estava saltando entre clubes europeus, Carlos Menem, então presidente da Argentina, disse que ia parar o tráfico de jovens jogadores para fora da Argentina. A AFA, liderada por Grondona, disse que ia combater tal proposta.

Os negócios no futebol estavam em comprar e vender jogadores. A AFA era e é o conselho governante dos clubes. O modelo do esporte argentino é a Europa, e os europeus não estão gastando como antes.

Em 2008, a venda de jogadores da Argentina superou US$ 150 milhões (cerca de R$ 300 milhões). Neste ano, até agora, o negócio angariou US$ 34 milhões (em torno de R$ 68 milhões).

Sergio Marchi, secretário-geral da união dos jogadores do futebol argentino, diz que a AFA falhou em manter a casa em ordem.

"Eu espero que a AFA siga suas próprias regras e sancione os que não cumprem suas obrigações", Marchi disse na semana passada. Ele acrescentou que o esporte era mal comercializado. "É obsoleto", disse ele. "Você pode ver pelos problemas na infra-estrutura, os banheiros de alguns clubes parecem Kosovo."

A união de Marchi diz que 21 times argentinos estão atoladas em dívidas, inclusive River Plate, Racing, Huracan, Independiente, Newell's, Rosario e San Lorenzo. Juntos, devem cerca de US$ 182 milhões (R$ 364 milhões).

"Os times têm um defunto apodrecendo na sala, e estão por aí fazendo compras", disse Marchi.

Ele se refere aos boatos que o Boca Juniors, com uma dívida de US$ 2,6 milhões (aproximadamente R$ 5,2 milhões) assinou contrato com três novos jogadores neste verão. O Independiente pagou US$ 650.000 (cerca de R$ 1,3 milhão) para o San Lorenzo pelo atacante Andrés Silvera e prometeu US$ 2 milhões (em torno de R$ 4 milhões) para o Sporting Lisbon, por Leandro Romagnoli. Dizem que o Racing gastou US$ 4 milhões (cerca de R$ 8 milhões) em jogadores neste ano.

As somas são minúsculas se comparadas com as do Real Madrid, cujas compras de US$ 400 milhões (aproximadamente R$ 800 milhões) neste verão cobririam três vezes a dívida do futebol argentino.

Ainda assim o povo argentino precisa de seu esporte, talvez mais do que nunca. Eles vêem seus astros atuando na Europa. Assistirão, se puderem pagar a taxa, o amistoso em Moscou na televisão na quarta-feira.

De alguma forma, Grondona, após 30 anos dirigindo o esporte em sua terra em dificuldades e de décadas trabalhando pela lucratividade da Fifa, parece estar sem ideias.

E Maradona, escolhido por Grondona como técnico salvador da seleção nacional, observa a situação e fica agitado. Ele precisa que os jogadores estejam tranquilos, em casa, no exterior e em suas contas bancárias.

Os que estão no futebol argentino não têm recebido ultimamente.

"Os clubes não deveriam fazer o que quisessem", disse Maradona na rádio Del Plata, na semana passada. "Se você compra jogadores, você tem que ser o responsável e não culpar os outros."

Discursos de Diego Maradona sobre responsabilidade. Os tempos mudaram.

Tradução: Deborah Weinberg

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