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14/08/2009

Dois americanos que arquitetaram as duras táticas pós-11 de Setembro

The New York Times
Scott Shane
Em Washington (EUA)
Jim Mitchell e Bruce Jessen eram psicólogos e militares aposentados à procura de oportunidades de negócios. Eles encontraram um cliente excelente na CIA, onde em 2002 eles se tornaram os arquitetos do mais "importante" programa de interrogatório na história do contraterrorismo americano.

Eles nunca realizaram um interrogatório de verdade, apenas sessões simuladas no treinamento militar que supervisionavam. Eles não tinham um trabalho acadêmico relevante; os trabalhos de Ph.D. deles tratavam de pressão arterial alta e terapia familiar. Eles não tinham conhecimentos linguísticos nem perícia na Al Qaeda.

Mas contavam com credenciais de psicologia e um conhecimento íntimo do regime de tratamento brutal usado décadas atrás pelos comunistas chineses. Para um governo ávido em ser duro com aqueles que mataram 3 mil americanos, isso bastava.

Leia também a segunda parte do especial

  • Carmen Taylor/AP

    Os atentados de 11 de setembro de 2001, que destruíram as torres gêmeas do World Trade Center, levaram à mudança nas táticas da
    CIA para combater o terrorismo



Assim, "Doc Mitchell" e "Doc Jessen", como eram conhecidos na Força Aérea, ajudaram a levar os Estados Unidos a um doloroso debate sobre tortura, terror e valores, que sete anos depois ainda não se esgotou.

Mitchell, com um sotaque sulista carregado e com uma confiança às vezes arrogante de um homem que venceu por esforço próprio, foi um ex-especialista em explosivos da Força Aérea e um vendedor natural. Jessen, criado em uma fazenda de batatas em Idaho, se juntou ao seu colega da Força Aérea para formar um próspero negócio, que rendeu milhões de dólares com a venda de serviços de treinamento e interrogatório para a CIA.

Sete meses após o presidente Barack Obama ter ordenado o fechamento do programa de interrogatório da CIA, suas consequências ainda chamam a atenção. Nas próximas semanas, o secretário de Justiça, Eric Holder, deverá decidir se dará início a uma investigação criminal, na qual o papel dos psicólogos provavelmente será averiguado. O escritório de ética do Departamento de Justiça deverá concluir um relatório sobre os advogados que consideraram os métodos legais. E a CIA em breve divulgará um relatório de 2004, altamente crítico do programa, feito pelo inspetor-geral da agência.

O coronel Steven M. Kleinman, um oficial de inteligência e interrogador da Força Aérea que conhece Mitchell e Jessen, disse achar que a lealdade deles ao seu país nos tempos de pânico pós-ataques do 11 de Setembro os levou à incursão no campo de interrogatórios. Ele acredita que o resultado foi uma tragédia para o país, assim como para eles.

"Eu sinto que a motivação principal foi que acharam que seus conhecimentos e percepções tornariam o país mais seguro", disse Kleinman. "Mas pessoas boas em circunstâncias extremas podem fazer coisas horríveis."

Para a CIA, assim como para Mitchell, 58 anos e cavanhaque grisalho, e Jessen, 60 anos e cabelo curto e escuro, a mudança de governo foi desconcertante. Por anos, o presidente George W. Bush declarou o programa de interrogatório como sendo legal e o elogiou por impedir ataques. Obama, por sua vez, afirmou que sua brutalidade serviu para atrair mais recrutas para a Al Qaeda; chamou um de seus métodos, a simulação de afogamento, de tortura; e, em sua primeira visita à CIA, sugeriu que o programa de interrogatório estava entre os "erros" da agência de espionagem.

A subsequente queda em desgraça dos psicólogos foi tão rápida quanto sua ascensão em 2002. Hoje, os escritórios da Mitchell Jessen & Associates, o lucrativo negócio que operavam de um simpático prédio centenário no centro de Spokane, Washington, está vazio, com seus contratos com a CIA cancelados abruptamente meses atrás.

Com a possibilidade de um inquérito criminal, Mitchell e Jessen mantiveram um renomado advogado de defesa, Henry F. Schuelke III. O advogado disse que eles não fariam comentários para este artigo, que se baseia em dezenas de entrevistas com colegas dos médicos e atuais e ex-autoridades do governo.

Em uma breve troca de e-mails em junho, Mitchell disse que seu acordo de sigilo com a CIA o impedia de comentar. Ele sugeriu que seu trabalho foi caracterizado de forma errada.

"Pergunte por aí", escreveu Mitchell, "e estou certo que você encontrará todo tipo de 'especialistas' que estarão dispostos a inventar o que você estiver interessado em ouvir, sem se preocupar com a realidade".

Uma mudança de carreira
Na época dos ataques do 11 de Setembro, Mitchell tinha acabado de se aposentar de seu último posto militar, como psicólogo de uma unidade de elite de operações especiais na Carolina do Norte. Mostrando seu lado empresarial, ele abriu uma empresa de treinamento chamada Knowledge Works, que operava de sua nova casa na Flórida, para complementar sua aposentadoria.

Mas para alguém com o histórico de Mitchell, era evidente que a campanha contra a Al Qaeda ofereceria oportunidades. Ele começou fazer uso de toda uma carreira de contatos que desenvolveu nos círculos militares e de inteligência.

Ele cresceu pobre na Flórida, disse Mitchell aos amigos, e entrou para a Força Aérea em 1974 em busca de aventura. Estacionado no Alasca, ele aprendeu a arte de desarmar bombas e obteve diplomas de bacharel e mestrado em psicologia.

Robert J. Madigan, um professor de Psicologia da Universidade do Alasca que trabalhou estreitamente com ele, lembrou de ter encontrado Mitchell anos depois. Ele tinha concluído um doutorado pela Universidade do Sul da Flórida em 1986, comparando dieta e exercício no controle da hipertensão, e estava trabalhando para a Força Aérea em Spokane.

"Eu me lembro dele ter dito que estavam preparando pessoas para interrogatórios intensos", disse Madigan.

O treinamento militar de sobrevivência foi expandido após a Guerra na Coréia, quando confissões falsas por prisioneiros americanos levaram a acusações sensacionais de "lavagem cerebral" comunista. Os oficiais militares disseram que dar aos membros do serviço militar um gosto do estilo de interrogatório chinês os prepararia para suportar a agonia.

O treinamento de sobrevivência da Força Aérea foi consolidada em 1966, na Base da Força Aérea em Fairchild, nas colinas nos arredores de Spokane. O nome do treinamento, Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga, ou Sere (na sigla em inglês), sugere sua amplitude: homens e mulheres da Força Aérea aprendem a viver da terra e evitar captura, assim como se comportar caso se tornem prisioneiros.

Nos anos 80, Jessen se tornou psicólogo do Sere na Escola de Sobrevivência da Força Aérea, selecionando instrutores que se passavam por interrogadores inimigos em um falso campo de prisioneiros, assim como cuidando para que o tratamento duro não fosse longe demais. Ele cresceu em uma comunidade mórmon com vista do (monte) Grand Teton e obteve um doutorado pela Universidade Estadual de Utah estudando "escultura familiar", na qual os pacientes fazem modelos físicos de sua família para retratar os relacionamentos familiares.

Jessen se mudou em 1988 para o cargo máximo de psicólogo de uma "escola de doutorado" paralela de treinamento de sobrevivência, a uma curta distância da escola da Força Aérea. Mitchell ocupou seu lugar.

Os dois homens se tornaram parte do que alguns membros do Departamento de Defesa chamavam de "máfia da resistência", especialistas em resistir ao interrogatório inimigo. Ambos tenentes-coronéis e ambos casados e com filhos, eles passaram a viajar juntos nos fins de semana para escalar.

Apesar de muitos subordinados os considerarem líderes capazes e intelectuais, alguns colegas psicólogos eram mais céticos. Em uma conferência anual de psicólogos do Sere, lembraram dois colegas, Mitchell apresentou longas queixas às apresentações que não o agradavam.

Na escola da Força Aérea, Mitchell era conhecido por garantir a segurança dos interrogatórios; poderia surpreender seus críticos posteriores saber que ele eliminou uma tática chamada "manhandling" após ela produzir uma série de ferimentos de pescoço, disse um colega.

Na escola de doutorado do Sere, Jessen é lembrado por uma troca estranha de emprego, de psicólogo supervisor para falso interrogador inimigo.

Jessen se tornou tão agressivo nesse papel que colegas intervieram para contê-lo, mostrando a ele um vídeo de seu desempenho "muito assustador", lembrou outro oficial.

Como sempre, disseram oficiais antigos e atuais do Sere, é entendido que o treinamento imita os métodos de adversários inescrupulosos.

Mark Mays, o primeiro psicólogo da escola da Força Aérea, disse que para tornar a prisão falsa realista, os oficiais consultaram prisioneiros de guerra americanos que tinham acabado de voltar dos terríveis campos do Norte do Vietnã.

"Estava claro que era aquilo que esperaríamos de nossos inimigos", disse Mays, atualmente um psicólogo clínico e advogado em Spokane. "Não era algo que eu imaginaria americanos fazendo."

Início do programa
Em dezembro de 2001, um pequeno grupo de professores e agentes de inteligência e da lei se reuniram nos arredores da Filadélfia, na casa de um proeminente psicólogo, Martin E.P. Seligman, para ter ideias a respeito do extremismo muçulmano. Entre eles estava Mitchell, que participou juntamente com um psicólogo da CIA, Kirk M. Hubbard.

Durante uma pausa, Mitchell se apresentou a Seligman e disse o quanto admirava o trabalho do homem mais velho sobre "impotência aprendida". Seligman ficou tão impressionado com os elogios incontidos de Mitchell, como ele lembrou em uma entrevista, que ele comentou com sua esposa naquela noite. Posteriormente, ele disse, ele ficou "pesaroso e horrorizado" ao saber que seu trabalho tinha sido citado para justificar os interrogatórios brutais.

Seligman tinha descoberto nos anos 60 que cães que aprendiam que não podiam fazer nada para evitar pequenos choques elétricos se tornavam apáticos e simplesmente choramingavam e suportavam os choques, mesmo após receberem uma chance de escapar.

A impotência aprendida, que posteriormente se tornou um conceito influente no tratamento da depressão humana, também era muito discutida no treinamento militar de sobrevivência. Os instrutores tentavam parar antes de produzir a impotência nos aprendizes, já que a meta deles era fortalecer o espírito dos militares capturados por inimigos.

Mitchell, disseram colegas, acreditava que a produção da impotência aprendida em um membro interrogado da Al Qaeda poderia assegurar que ele atenderia às exigências de seu captor. Muitos interrogadores experientes discordavam, afirmando que um prisioneiro tão desmoralizado diria qualquer coisa que achasse que o interrogador desejasse ouvir.

Na CIA em dezembro de 2001, as teorias de Mitchell estavam atraindo atenção do alto escalão. Diretores da agência pediram que ele revisasse um manual da Al Qaeda, capturado na Inglaterra, que treinava os agentes terroristas a resistirem aos interrogatórios. Ele contatou Jessen e os dois homens escreveram a primeira proposta para transformar as técnicas brutais do inimigo -tapas, posições estressantes, privação de sono, choques contra a parede e simulação de afogamento- no programa americano de interrogatórios.

No início de 2002, Mitchell era consultor do Centro de Contraterrorismo da CIA, cujo diretor, Cofer Black, e o diretor-chefe de operações, Jose A. Rodriguez Jr., ficaram impressionados por sua combinação de dureza visceral e jargão psicológico. Uma pessoa que ouviu algumas das discussões disse que Mitchell deu às autoridades da CIA aquilo que queriam ouvir. Nas palavras dessa pessoa, Mitchell sugeriu que os interrogatórios exigiam "um nível comparável de temor e brutalidade ao de lançar aviões contra prédios".

No final de março, quando membros da agência capturaram Abu Zubaydah, inicialmente descrito como o Nº 3 da Al Qaeda, o plano de interrogatório de Mitchell e Jessen estava pronto. Em uma prisão secreta da CIA na Tailândia, como noticiado anteriormente, dois agentes do FBI usavam métodos convencionais de formação de um laço de entendimento para extrair informações vitais de Zubaydah. Então a equipe da CIA, incluindo Mitchell, chegou.

Com o apoio do quartel-general da agência, Mitchell ordenou que Zubaydah fosse despido, exposto ao frio e bombardeado com rock em alto volume para privá-lo de dormir. Não apenas os agentes do FBI, mas também membros da CIA presentes, ficaram incomodados com o tratamento brutal. Entre aqueles que questionaram o uso de pressão física, segundo uma autoridade presente, estavam o chefe da base tailandesa, o oficial que supervisionava a prisão, um interrogador chefe e um importante psicólogo da agência.

Se eles protestaram junto aos seus chefes na CIA não se sabe, devido ao volumoso tráfego de mensagens entre o quartel-general e a base na Tailândia permanecer confidencial. Uma testemunha disse acreditar em "revisionismo", já que a controvérsia da tortura levou alguns participantes a exagerar suas objeções.

À medida que as semanas passavam, o importante psicólogo da agência partiu, seguido por um agente do FBI e depois o outro. Mitchell começou a dirigir os interrogatórios e ocasionalmente falava diretamente com Zubaydah, disse um funcionário.

No final de julho de 2002, Jessen se juntou a seu parceiro na Tailândia. Em 1º de agosto, o Departamento de Justiça concluiu um parecer legal formal autorizando os métodos do Sere, e os psicólogos aumentaram a pressão. Ao longo de cerca de duas semanas, Zubaydah foi confinado em uma caixa, lançado contra a parede e submetido à simulação de afogamento 83 vezes.

O tratamento brutal parou apenas quando Mitchell e Jessen decidiram que Zubaydah não tinha mais informações a oferecer. Diretores do quartel-general chegaram e assistiram mais uma simulação de afogamento antes de concordar que o tratamento poderia parar, segundo um parecer legal do Departamento de Justiça.

Trabalho lucrativo
O caso Zubaydah deu motivos para se questionar o plano de Mitchell e Jessen: o prisioneiro tinha fornecido sua informação mais valiosa sem coerção.

Mas o comando da CIA não promoveu mudanças e os métodos seriam usados em pelo menos 27 outros prisioneiros, incluindo Khalid Shaikh Mohammed, que foi submetido 183 vezes à simulação de afogamento.

Os planos de negócios de Mitchell e Jessen, enquanto isso, estavam funcionando de forma excelente. Cada um deles recebia de US$ 1 mil a US$ 2 mil por dia, disse um funcionário. Eles tinham mesas permanentes no Centro de Contraterrorismo e agora podiam alegar experiência genuína no interrogatório de membros importantes da Al Qaeda.

Mitchell também podia continuar trabalhando fora da CIA. No Ritz-Carlton em Maui, em outubro de 2003, ele participou de um caro seminário para corporações sobre como se comportar em caso de sequestro. Ele criou novas empresas, como a Wizard Shop, posteriormente rebatizada de Mind Science, e a What If. Sua primeira empresa, a Knowledge Works, recebeu em 2004 pela Associação Psicológica Americana o certificado de promotora de educação profissional contínua. (A APA anulou a certificação no ano passado.)

Em 2005, os psicólogos formaram a Mitchell Jessen & Associates, com escritórios em Spokane e Virgínia e cinco acionistas adicionais, quatro deles do programa Sere militar. Em 2007, a empresa empregava cerca de 60 pessoas, algumas delas com currículos impressionantes, incluindo Deuce Martinez, um importante interrogador da CIA de Mohammed; Roger L. Aldrich, um lendário treinador militar de sobrevivência; e Karen Gardner, uma alta oficial de treinamento da Academia do FBI.

Os contratos da CIA com a empresa são confidenciais, mas totalizam milhões de dólares. Em 2007, em um subúrbio de Tampa, Flórida, Mitchell construiu uma casa com piscina, atualmente avaliada em US$ 800 mil.

A influência dos psicólogos permaneceu forte sob quatro diretores da CIA. Em 2006, quando a secretária de Estado, Condoleezza Rice, e seu consultor legal, John B. Bellinger III, pressionaram contra o programa secreto de detenções da CIA e seus métodos, o diretor na época, Michael V. Hayden, pediu a Mitchell e Jessen que prestassem informações às autoridades do Departamento de Estado e as persuadissem a abandonar suas objeções. Eles não foram bem-sucedidos.

Àquela altura, o debate nacional sobre tortura já tinha começado e acabaria com os negócios dos psicólogos.

Em uma declaração aos funcionários em 9 de abril, Leon Panetta, o diretor da CIA de Obama, anunciou a "desativação" das prisões secretas da agência e repetiu a promessa de não usar coerção. E havia mais um item: "Empresas contratadas pela CIA não realizarão interrogatórios".

Membros da agência encerraram os contratos com a Mitchell Jessen & Associates e os lucrativos sete anos dos psicólogos chegaram ao fim. Em questão de dias, a empresa deixou seus escritórios em Spokane. Os telefones foram desativados e, nas empresas vizinhas, ninguém tinha conhecimento de algum endereço para encaminhamento da correspondência.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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