UOL Notícias Internacional
 

15/08/2009

A história das prisões secretas da CIA

The New York Times
David Johnson e Mark Mazzetti
Em Washington (EUA)
Em março de 2003, dois agentes da CIA surpreenderam Kyle D. Foggo, na época o chefe da principal base europeia de suprimentos da agência, com um pedido incomum. Eles queriam a ajuda dele para construir prisões secretas para deter alguns dos terroristas mais ameaçadores do mundo.

Foggo, apelidado de Dusty, era conhecido dentro da agência como um operador que bebe uísque e fuma charuto, alguém que consegue que um avião de carga voe em qualquer parte do mundo ou obtém rapidamente armas, dinheiro, alimentos - qualquer coisa que a CIA precisar. Sua unidade em Frankfurt estava sobrecarregada pelas operações da agência de espionagem no Afeganistão e no Iraque, mas Foggo aceitou a tarefa.

"Era um assunto sensível demais para ser tratado pelo quartel-general", ele disse em uma entrevista. "Eu estava orgulhoso em ajudar meu país."

Foggo passou a supervisionar a construção de três centros de detenção, cada um construído para abrigar cerca de meia dúzia de detidos, segundo ex-funcionários da inteligência e outros informados sobre o assunto.

Uma prisão ficava em um prédio reformado em uma rua movimentada de Bucareste, Romênia, revelaram os funcionários. Outra ficava em uma estrutura de vigas de aço em um local remoto no Marrocos, que aparentemente nunca foi usada. A terceira, outro projeto de reforma, ficava nos arredores de outra cidade do antigo bloco Oriental. Elas foram projetadas para parecer idênticas, de forma que os prisioneiros ficariam desorientados e não saberiam onde estavam caso fossem levados de um lugar para outro. Eles eram mantidos em celas isoladas.

A existência da rede de prisões para deter e interrogar agentes importantes da Al Qaeda há muito é conhecida, mas os detalhes sobre elas eram mantidos em segredo. Em entrevistas recentes, entretanto, vários ex-funcionários da inteligência forneceram um relato mais amplo de como foram construídas, onde ficavam localizadas e como era a vida dentro delas.

Foggo reconheceu seu papel, que nunca antes tinha sido informado. Ele se declarou culpado no ano passado de uma acusação de fraude envolvendo uma empresa que equipou as prisões da CIA e forneceu outros suprimentos para a agência. Ele agora está cumprindo uma pena de três anos em um presídio em Kentucky.

As prisões da CIA se transformariam em um dos programas mais extraordinários de contraterrorismo do governo Bush, mas montá-las foi bastante mundano, segundo funcionários da inteligência.

Foggo fez uso dos contadores e engenheiros da CIA e de trabalhadores das empresas prestadoras de serviço para construir as prisões. Quando elas se aproximaram da conclusão, ele se voltou para uma pequena empresa ligada a Brent R. Wilkes, um velho amigo e um prestador de serviços para as forças armadas em San Diego.

Brent R. Wilkes

  • Monica Almeida/The New York Times

A empresa fornecia toaletes, equipamento de água e esgoto, equipamento de som, videogames, roupa de cama, óculos de visão noturna, tampões de ouvido e óculos de sol. Alguns produtos eram comprados na Target e no Wal-Mart, entre outras lojas de varejo, e enviados para o exterior. Nada exótico era necessário para as infames simulações de afogamento -elas eram preparadas na hora com materiais disponíveis localmente, disseram os funcionários.

Foggo, 55 anos, não discutiu os detalhes confidenciais a respeito das prisões. Ele não foi acusado por nada envolvendo as prisões secretas, mas sim acusado de desviar outros negócios da CIA para as empresas de Wilkes em troca de férias caras e outros favores. Antes de deixar a CIA em 2006, ele era o terceiro na hierarquia, e sua declaração de culpa foi um embaraço para a agência.

Após os ataques terroristas de 2001, a adoção pela inteligência mundial de abduções na calada da noite, prisões escondidas e táticas de interrogatório que os críticos condenam como tortura, mancharam a reputação da CIA e levaram a processos legais, investigações e divisões internas que podem levar anos para serem resolvidos. O Departamento de Justiça agora está considerando abrir uma investigação criminal, com grande parte da atenção voltada para a rede de prisões secretas da agência, que se tornaram conhecidas como "black sites" (locais negros).

As exigências das guerras no Iraque e Afeganistão transformaram Foggo de uma figura marginal a um homem indispensável da CIA. Antes dos ataques do 11 de Setembro, a base de Frankfurt era um centro sonolento de distribuição de suprimentos, realizando um ou dois voos por mês para bases próximas. Poucos dias após os ataques, Foggo tinha um orçamento de US$ 7 milhões, que rapidamente triplicou.

Ele dirigia dezenas de funcionários, direcionando quase que diariamente voos de aviões de cargas carregados com suprimentos, incluindo selas, rédeas e ração para cavalo para forças montadas tribais recrutadas pela agência de espionagem. Em semanas, ele esvaziou o estoque da CIA de rifles AK-47 e munição de um depósito no Meio-Oeste.

Foggo era a opção lógica para o projeto de prisões: agressivo, cheio de recursos, patriota, pronto para distribuir favores; algumas pessoas dentro da CIA o comparavam brincando a Milo Minderbinder, o personagem fictício que ascende de responsável pelo refeitório a magnata do mercado negro no romance passado na Segunda Guerra Mundial, "Ardil 22", de Joseph Heller.

Leia também a primeira parte do especial

  • Carmen Taylor/AP

    Os atentados de 11 de setembro de 2001, que destruíram as torres gêmeas do World Trade Center, levaram à mudança nas táticas de interrogatório da CIA para combater o terrorismo

No início da luta contra a Al Qaeda, os membros da agência dependiam muito dos aliados americanos para ajudar a deter os suspeitos de terrorismo em instalações improvisadas em países como a Tailândia. Mas quando dois funcionários da CIA se encontraram com Foggo em 2003, esse arranjo estava ameaçado, segundo pessoas informadas sobre a situação. Na Tailândia, por exemplo, as autoridades locais estavam ficando cada vez mais incomodadas com o black site nos arredores de Bancoc, de codinome Olho de Gato. (A agência posteriormente mudaria o codinome da prisão tailandesa, temendo que pareceria racialmente insensível.) A CIA queria seus próprios centros de detenção mais permanentes.

No final, a rede da agência abrangeria pelo menos oito centros de detenção, incluindo um no Oriente Médio, um no Iraque, um no Afeganistão e o de segurança máxima e longa duração em Guantánamo, Cuba, que foi apelidado de Strawberry Fields, disseram os funcionários. (Ele foi apelidado com a canção dos Beatles pois os membros da CIA brincavam que os detidos seriam mantidos ali, como diz a letra da música, "para sempre".)

A CIA nunca revelou oficialmente o número exato de prisioneiros que manteve detidos, mas altos funcionários colocam o número em menos de 100.

Nos centros de detenção que Foggo ajudou a construir, disseram vários ex-funcionários da inteligência, as prisões eram pequenas, e apesar de terem sido construídas para receber cerca de meia dúzia de detidos, eles raramente mantinham mais do que quatro.

As celas foram construídas com materiais especiais para impedir que os presos se ferissem durante os interrogatórios: pisos antiderrapantes e paredes flexíveis, revestidas de madeira compensada para absorver parte do impacto de ser atirado contra a parede.

Os detidos, mantidos em celas com distância suficiente para impedir que se comunicassem uns com os outros, eram mantidos em confinamento solitário 23 horas por dia. Para sua única hora de exercício diário, eles eram retirados de suas celas por seguranças da CIA usando máscaras de esqui para ocultar suas identidades e intimidar os detidos, segundo os funcionários de inteligência.

Assim como nos presídios nos Estados Unidos, os carcereiros impunham um sistema de recompensa e punição: os detidos bem-comportados recebiam livros, DVDs e outras formas de entretenimento, que eram retiradas quando se comportavam mal, disseram os funcionários.

Analistas da CIA serviam por 90 dias nas prisões para auxiliar nos interrogatórios. Mas quando as novas prisões foram construídas em meados de 2003 ou depois, as práticas mais duras de interrogatório da CIA -incluindo a simulação de afogamento- foram abandonadas.

O sucesso de Foggo em Frankfurt, incluindo seu trabalho nas prisões, lhe renderam uma promoção em Washington. Em novembro de 2004, ele foi nomeado diretor executivo da CIA, na prática seu chefe administrativo do dia a dia.

A nomeação causou certo incômodo na agência. "Foi como pegar um oficial não comissionado e lhe dizer que agora comanda o regimento", disse A.B. Krongard, o diretor executivo da CIA de 2001 para 2004. "Isso fez as pessoas arregalarem os olhos."

Mas Foggo logo se envolveu em disputas internas na agência. A CIA estava cambaleando devido às críticas de que tinha exagerado os programas de armas do Iraque. Foggo foi para Washington como parte de uma nova equipe que imediatamente começou a demitir altos membros da CIA, causando uma reação negativa entre agentes secretos veteranos. A rápida ascensão e abordagem dura de Foggo incomodaram algumas pessoas no quartel-general, segundo Brant G. Bassett, um ex-funcionário da agência e amigo que serviu com Foggo.

"Dusty chegou lá com um maçarico", disse Bassett. "Algumas pessoas ficaram contentes, mas outras disseram: 'Nós temos que derrubar esse cara'."

Em 2005, antes de ser investigado, Foggo e outros membros da agência, incluindo John Rizzo, o principal advogado da CIA, fizeram uma rara visita a algumas prisões, assegurando aos funcionários da agência que suas atividades eram legais, segundo ex-funcionários da inteligência. Foggo também se encontrou com representantes dos serviços de segurança do Leste Europeu que ajudaram com as prisões. Ele expressou gratidão e ofereceu assistência -um gesto que os representantes educadamente recusaram.

Em fevereiro de 2007, Foggo e Wilkes foram indiciados. Os promotores acreditavam que a CIA tinha pago um preço superfaturado para a Archer Logistics, uma empresa ligada a Wilkes que tinha um contrato de fornecimento de suprimentos para a CIA no valor de US$ 1,7 milhão.

"Eu estava viajando com meu melhor amigo", disse Foggo em sua defesa. "Pode parecer algo ruim, mas nós viajamos juntos desde que tínhamos 17 anos."

Foggo disse que recorreu às empresas de Wilkes para contornar a desajeitada burocracia da CIA, não para beneficiar seu velho amigo. "Eu precisava de algo feito por alguém em quem confiava no setor privado", disse Foggo.

Wilkes mantém sua inocência, mas no final foi condenado em um escândalo de propina envolvendo o ex-deputado Randall Cunningham, da Califórnia. Foggo se declarou culpado e está cumprindo uma pena por fraude, mas ainda sustenta que foi processado injustamente.

Seu advogado, Mark J. MacDougall, disse acreditar que os problemas legais de Foggo derivam em parte de suas controvérsias durante seu cargo como diretor executivo. "Ninguém nunca acusou Dusty Foggo de embolsar um centavo, não cumprir seu dever ou comprometer a segurança nacional", disse MacDougall. "Dusty pode ter cometido alguns erros, mas este caso foi movido por animosidade profissional na CIA e por ambição pessoal."

Quando os advogados de Foggo tentaram sem sucesso obter acesso aos documentos da agência sobre seu papel no programa de prisões, os promotores se queixaram de que ele estava tentando revelar um programa sensível. Foggo alegou que estava relutante em divulgar seu papel em programas secretos e se declarou culpado, em parte, para evitar revelar seus segredos.

Em uma carta de 1º de agosto de 2007, um advogado da CIA informou aos advogados de Foggo que não poderiam analisar quaisquer documentos confidenciais relacionados às prisões. A carta da agência concluiu: "Diante das declarações do presidente em relação ao valor extraordinário e sensibilidade do programa da CIA de detenção e interrogatório de terroristas, a agência nega totalmente seu pedido".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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