UOL Notícias Internacional
 

17/08/2009

A Meca das compras online na China

The New York Times
Por David Barboza
Em Yiwu (China)
Nos meses anteriores à sua formatura na faculdade em junho, Yang Fugang passou a maior parte dos dias longe do campus, gerenciando uma loja online de cosméticos, xampus e outras mercadorias que ele costuma comprar das fábricas locais.

  • Ryan Pyle/The New York Times

    Hoje, a loja de Yang Fugang no site Taobao.com - o shopping online que mais cresce na China - tem 14 funcionários, dois armazéns e pilhas de dinheiro

  • Ryan Pyle/The New York Times

    A febre do Taobao tomou conta da faculdade de Yang, a Yiwu Industrial and Commercial College, onde os administradores dizem que um quarto de seus 8.000 alunos hoje operam lojas no Taobao, normalmente a partir de um quarto no dormitório

  • Ryan Pyle/The New York Times

    "Comecei vendendo tapetes de ioga e agora estou vendendo maquiagem e cosméticos. As margens de lucro são maiores", conta Yang Fugang

Hoje, a loja dele no site Taobao.com - o shopping online que mais cresce na China - tem 14 funcionários, dois armazéns e pilhas de dinheiro.

"Nunca pensei que pudesse fazer isso direito", disse Yang, 23, que ganhou US$ 75 mil no ano passado. "Comecei vendendo tapetes de ioga e agora estou vendendo maquiagem e cosméticos. As margens de lucro são maiores."

A febre do Taobao tomou conta da faculdade de Yang, a Yiwu Industrial and Commercial College, onde os administradores dizem que um quarto de seus 8.000 alunos hoje operam lojas no Taobao, normalmente a partir de um quarto no dormitório.

Em toda a China, milhões de outras pessoas - recém-formados, funcionários de lojas e aposentados - também estão usando o Taobao para vender roupas, telefones celulares, brinquedos e praticamente qualquer coisa que possa ser encontrada nas lojas de bairro, nos mercados atacadistas ou até mesmo contrabandeadas das fábricas.

Os analistas de internet dizem que o mercado em expansão - que faz lembrar os primeiros dias do eBay, quando os norte-americanos começaram a esvaziar seus sótãos para fazer leilões online - transformou o Taobao na última moda da internet chinesa.

Apesar de ter apenas seis anos, Taobao (que em chinês significa "procurar um tesouro") já tem 120 milhões de usuários registrados e 300 milhões de listas de produtos. Seus comerciantes produzem cerca de US$ 15 bilhões em vendas no ano passado.

A companhia diz que as vendas através de seu site já são maiores do que as de qualquer varejista chinês. E, segundo os analistas de internet, as vendas do site este ano superarão a expectativa de vendas de US$ 19 bilhões da Amazon.com.

"Este é o próximo grande segmento para a internet na China", disse Jason Brueschke, analista de internet no Citigroup em Hong Kong. "Esta é a versão chinesa da Amazon e o eBay combinados."

Assim como o eBay, o Taobao não vende nada por conta própria; ele simplesmente coloca os vendedores em contato com os compradores. Ele tem um pé firme na China porque muitas partes do país ainda têm problemas de transportes, e algumas autoridades locais favorecem as lojas do próprio governo, tornando o sistema de vendas no varejo ineficiente.

A recessão global também deixou fábricas que estavam bem das pernas transbordar de mercadorias que o resto do mundo parece não mais querer.

Os chamados viciados em Taobao estão ajudando a enfrentar a crise econômica. "Não consigo viver sem o Taobao", disse Zhang Kangni, estudante graduada em Xangai. "Primeiro, é barato. Encontrei um vestido numa loja de Xangai. É uma marca de Hong Kong vendido por US$ 175. Achei ele no Taobao por US$ 33."

Mas os céticos perguntam: será que o Taobao de fato produz algum lucro e será uma verdadeira potência da internet?

A companhia não está com o capital aberto e portanto não revela suas informações financeiras, mas há inscrições no Taobao são gratuitas e a companhia não ganha nenhum dinheiro com as transações online. Quase todo o luvro de US$ 200 milhões do Taobao vêm da publicidade, que a companhia diz que praticamente cobre todos os seus custos operacionais.

A companhia foi criticada, entretanto, por contribuir com um comércio florescente de bens falsificados. O Taobao rejeita as críticas, dizendo que tem um novo programa que está efetivamente impedir a falsificação.

Executivos da comapnhia também dizem que o Taobao pode ter lucros gigantescos, mas que sua principal prioridade é criar uma comunidade online.

"Nossa visão para o Taobao é construir um paraíso para o consumidor, onde as pessoas possam comprar online e se divertir", disse Jonathan Lu, presidente do Taobao. "Se tornarmos a companhia maior e melhor, os lucros naturalmente virão em seguida."

Sua confiança no futuro do Taobao vêm da linhagem da companhia. Ela é uma divisão do Grupo Alibaba, que foi fundado por Jack Ma. Na última década, Ma criou um conglomerado de internet com um apoio financeiro forte do Yahoo, Goldman Sachs e do Softbank Group do Japão. O Yahoo é dono de cerca de 40% do Alibaba.

O Alibaba.com - o principal site do conglomerado - conecta pequenas lojas de todo o mundo com os exportadores chineses. O Taobao faz algo parecido com os consumidores que querem vender para outros consumidores.

Quando o Taobao foi fundado em 2003, ele parecia não ter nenhuma chance. O eBay e seu parceiro chinês, a EachNet, controlavam 90% das vendas online na China. Mas Ma, ex-professor de inglês, rapidamente enfraqueceu o serviço do eBay, que cobrava pela inscrição, oferecendo a inserção gratuita nas listas do Taobao, essencialmente dando anúncios para qualquer um que quisesse vender.

Na época, os executivos do eBay ridicularizaram a estratégia, com muitos repetindo que "o gratuito não é um modelo de negócio".

Mas quase imediatamente, o site decolou, e em 2006, o eBay se retirou da China, citando uma redução da fatia de mercado e grandes prejuízos. Hoje, é o Taobao que comanda 80% do mercado de e-commerce, de acordo com o iResearch.

"O Taobao é dominante", disse Richard Ji, analista de internet no Morgan Stanley em Hong Kong. "Eles são como uma grande loja de departamentos online". Ji diz que o Taobao é uma ameaça não só para os comerciantes tradicionais mas também para as grandes companhias de internet chinesas, como a Baidu, mecanismo de busca líder de mercado, porque elas competem com o Taobao por muitos dos mesmos anunciantes.

O Taobao prosperou, dizem os analistas de internet, porque as pessoas não precisam de muito capital para abrir suas lojas online. Este ano, o Taobao diz que seu site pode ajudar a criar meio milhão de novos empregos, principalmente entre jovens que abrem lojas online.

Bao Yifen, uma estudante recém-formada de 23 anos, abriu sua loja de roupas com um investimento de US$ 5 mil em 2007. Hoje, sua loja no Taobao tem vendas de cerca de US$ 4 mil por mês.

"Três vezes por semana eu vou para o mercado atacadista", disse Bao. "É um mercado imenso. Cerca de 70 a 80% das coisas são sobras das fábricas. Há até algumas marcas, mas eles simplesmente cortam as etiquetas fora."

Itens contrabandeados de Hong Kong, Europa e Estados Unidos para a China também são vendidos no Taobao, escapando de altos encargos de importações e permitindo aos vendedores lucrar, vendendo mais barato do que as lojas normais. Um Apple MacBook Air que é vendido por US$ 2.225 em Beijing, por exemplo, custa apenas US$ 1.508 em Hong Kong, uma diferença de 33%.

Mercadorias falsificadas também estão disponíveis, embora o Taobao alegue ter removido 2 milhões de "bens de marcas falsas" do site.

Entretanto, muitos vendedores do Taobao reconhecem negociar bens ilegais.

"Eu trabalho numa fábrica OEM que produz laptops e aparelhos eletrônicos para a Sony", disse um desses vendedores, que identificou a si mesmo como Sr. Feng, referindo-se a um produtor original de equipamentos que produz mercadorias para empresas multinacionais. "Temos a tecnologia base da Sony e exatamente os mesmos materiais e componentes, então abrimos nossa própria loja para vender netbooks e laptops no Taobao."

Um assessor de imprensa da Sony, Takashi Uehara, disse que a companhia não tinha comentários, mas que estava investigando o assunto.

Aqui em Yiwu, que afirma ser o lugar do maior mercado atacadista do mundo, o Taobao começou a mudar a cara do Yiwu Industrial and Commercial College.

O vice-reitor da escola, Jia Shaohua, apontou para uma área designada para uma empresa júnior de alunos que queriam enriquecer. Ele apontou para os alunos aceitando pedidos pelo computador, embalando produtos, checando estoque e tirando fotos dos itens para exibi-los online, e então acrescentou: "Por toda a escola agora há toda uma cadeia industrial do Taobao."

Todas as tardes, até neste verão, quando a escolha deveria estar relativamente vazia, é possível ouvir o som maravilhoso da fita adesiva sendo desenrolada em volta de caixas num prédio que poderia se passar por um terminal de encomendas dos Correios.

"Os alunos não precisam de muito dinheiro", disse Jia. "Eles simplesmente pegam os pedidos e vão atrás dos itens nas fábricas locais."

Yang, o vendedor de cosméticos, tornou-se um herói no campus. Ele tem seu próprio depósito a alguns quilômetros da escola, nos porões de alguns prédios residenciais.

No meio de seu depósito lotado, próximo a caixas de filtro soltar Neutrogena, presilhas de cabelo, escovas de dente e uma grande variedade de cosméticos, Yang diz que o negócio não poderia ser melhor.

"Logo, chegarei a US$ 150 mil por mês em vendas", disse ele, com um sorriso largo.

Tradução: Eloise De Vylder

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