UOL Notícias Internacional
 

19/08/2009

Papel dos agentes do FBI é transformado pelo combate ao terrorismo

The New York Times
Eric Schmitt
Em Norwalk, Califórnia (EUA)
O relato no mês passado era assustador: um tambor de 208 litros de material radioativo tinha desaparecido durante o transporte da Carolina do Norte para a Califórnia. Ainda pior, a pessoa que assinou o recebimento da carga não era funcionário da empresa que a encomendou.

O Birô Federal de Investigação (FBI) foi acionado, consultando autoridades de saúde, especialistas em radiação e monitorando o caminhoneiro que entregou o material que poderia ser usado em um ataque com bomba radioativa. Três horas depois, a transportadora encontrou o tambor - ainda aguardando na doca de carga a 32 quilômetros de seu destino em Los Angeles - tendo sido confundido com uma entrega semelhante, feita a uma empresa diferente naquele mesmo dia.
  • Michal Czerwonka/The New York Times

    No escritório do FBI em Norwalk, Califórnia, integrantes do esquadrão de ameaças verificam dados e condutas em entrevistas de campo antes de decidir como proceder com cada caso


Para uma equipe do FBI daqui, que faz a triagem das pistas e ameaças sobre possível atividade terrorista, foi mais um falso alarme em um trabalho em grande parte definido por trotes e pistas falsas que precisam ser investigadas até o fim. "Grande parte do tempo nós perseguimos sombras", disse Lee Ann Bernardino, uma agente especial do FBI de 20 anos que cuidou do caso, "mas é melhor fazer isso do que descobrir posteriormente que deixou algo passar".

Passar dois dias com o esquadrão de ameaças de Bernardino, composto por 21 membros e conhecido como "Contraterrorismo 6", ou CT-6, ofereceu uma rara janela para o trabalho diário de um FBI transformado após os ataques de 11 de setembro de 2001. O birô agora considera o combate ao terrorismo como sendo sua prioridade Nº1. Ele dobrou o número de agentes designados às atividades de contraterrorismo para cerca de 5 mil e criou novos esquadrões por todo o país, mais concentrados em dissuadir e deter o terrorismo do que solucionar crimes.

Investimento elevado e sem garantias

Mas os custos de força de trabalho deste foco são altos e os benefícios nem sempre claros. Das 5.500 pistas que o esquadrão daqui investigou desde que foi formado há cinco anos, apenas 5% foram consideradas críveis o bastante para serem enviadas para esquadrões permanentes do FBI para investigações mais extensas, disse a agente especial supervisora Kristen von KleinSmid, a chefe do esquadrão. Apenas um punhado desses casos resultou em processos criminais ou outra ação legal, e nenhuma desbaratou alguma trama terrorista específica, reconheceram as autoridades.

Como parte do debate mais amplo sobre a transformação do FBI, alguns especialistas em contraterrorismo questionam o valor dos esquadrões de ameaças - que também se encontram em Washington, Nova York e algumas poucas outras cidades.

"Apenas seguir pistas queima nossos recursos", disse Amy Zegart, uma professora associada de políticas públicas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que escreve extensamente sobre assuntos de inteligência. "Nós realmente teríamos um retorno maior do investimento se perseguíssemos pistas baseadas em uma avaliação mais profunda sobre quem nos ameaça, sua capacidade e indicadores de ataque iminente. No momento, há mais perseguição do que avaliação."

O diretor do FBI, Robert S. Mueller 3º, reconheceu o custo da transferência de agentes para atividades de contraterrorismo e inteligência. Ela ocorre em detrimento de recursos para combate à fraude corporativa e financeira, assim como para a mortal guerra das drogas no México. Cerca de 40% dos agentes do birô são dedicados ao combate ao terrorismo.

O esquadrão de ameaças daqui é apenas uma parte do escritório de campo do FBI em Los Angeles que se concentra no combate ao terrorismo. Cerca de 30% dos 750 agentes do escritório trabalham em casos de terrorismo, envolvendo a Al Qaeda, Hamas, financiamento do terrorismo e extremistas de direitos dos animais.

Os agentes federais dizem que uma grande lição dos ataques do 11 de Setembro é que todos os relatos críveis de possível atividade terrorista devem ser checados. E eles dizem que é mais eficiente para um esquadrão com investigadores especialmente treinados avaliar essas pistas, permitindo que outros agentes permaneçam concentrados nas investigações mais extensas de casos de terrorismo.

Os resultados da estratégia

O trabalho do esquadrão daqui produziu resultados importantes, dizem as autoridades. Em março de 2008, Seyed Maghloubi, um cidadão americano nascido no Irã, foi sentenciado a 41 meses de prisão por tramar exportar ilegalmente 100 mil submetralhadoras Uzi para o Irã, via Dubai. Sua prisão ocorreu graças a uma dica de um informante da polícia, contatado por Maghloubi a respeito da compra das armas. O esquadrão de ameaça investigou a pista e desenvolveu informações que levaram a uma operação federal contra Maghloubi.

Responsável por supervisionar sete condados e 19 milhões de pessoas no Sul da Califórnia, o esquadrão de ameaça foi criado em maio de 2004, após ameaças aos shopping centers na região oeste de Los Angeles terem desviado cerca de 100 agentes de outras investigações de contraterrorismo. Trabalhando a partir de um prédio de escritórios daqui, a 24 quilômetros a sudeste do centro de Los Angeles, os investigadores fazem uma triagem das pistas e ameaças informadas por telefone pelo público ou repassadas pelo central regional de inteligência. Os agentes checam os bancos de dados e realizam entrevistas de campo antes de decidirem se investigarão o caso imediatamente, repassarão para outro esquadrão do FBI ou o encaminharão para outra força de manutenção da lei.

"Alguém precisa sair para bater às portas", disse Frank Leal, um detetive de 29 anos do Departamento do Xerife do Condado de Los Angeles, que trabalha com o esquadrão de ameaças juntamente com investigadores de 10 outras agências locais, estaduais ou federais. "Ninguém quer deixar que alguma dessas pistas resulte em uma explosão."

O esquadrão atualmente recebe cerca de 80 denúncias por mês, uma queda em comparação ao pico de cerca de 140 por mês há poucos anos, um declínio que KleinSmid atribuiu em parte a uma maior triagem das denúncias por outros analistas de inteligência.

Alarmes falsos

Ameaças relatadas recentemente variam do mundano ao bizarro.

Em 1º de agosto, um homem telefonou sobre uma ameaça de bomba em um hotel da rede Marriott em Hollywood. As autoridades não encontraram nada em uma varredura do hotel. Poucas horas depois, o mesmo homem telefonou para perguntar se havia alguma chance do hotel ter baixado suas diárias e se o faria em caso de ameaça de bomba.

Seguranças denunciaram pessoas tirando fotos de velhas refinarias na área de Los Angeles. Elas eram na verdade estudantes realizando um trabalho para a escola.

Outra ameaça denunciada recentemente soava como um thriller de Hollywood. Em junho, uma estudante universitária informou ao seu professor da Universidade da Califórnia, em Riverside, que seu pai, um microbiólogo paquistanês, estava testando secretamente toxinas de botulismo em animais no porão de sua casa, nos arredores de Los Angeles. Agentes do FBI, apoiados pela polícia e especialistas em materiais perigosos, invadiram a casa apenas para não encontrar nada. A estudante apenas estava tentando impressionar seu professor de uma forma muito estranha, disseram os investigadores.

Nicholas M. Legaspi, o principal agente do FBI no caso falso de biolaboratório, disse que não lamenta o esforço dedicado ao falso alarme, que ele disse que serviu como um excelente exercício de treinamento.

Legaspi disse que sua frustração inicial a respeito de trabalhar no esquadrão de ameaças foi superada por missões no exterior, como a investigação dos ataques em Mumbai, Índia; o trabalho ao lado das Forças Especiais americanas no Afeganistão; e o interrogatório de detidos da Al Qaeda na prisão americana em Guantánamo, Cuba. "Nos primeiros anos, foi muito decepcionante sempre caçar fantasmas", disse Legaspi, que é um ex-policial rodoviário da Califórnia e oficial da cavalaria do Exército. "Mas ver o que acontece no exterior me mantém alerta. Eu percebi que os terroristas são mortalmente sérios. Isso me deixa ávido em realizar este trabalho."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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