UOL Notícias Internacional
 

21/08/2009

Após atentados devastadores, premiê iraquiano convoca discretamente os americanos

The New York Times
Rod Nordland
Em Bagdá (Iraque)
Nos últimos meses, o primeiro-ministro do Iraque, Nouri Kamal al Maliki, tem buscado convencer seu país de que a guerra acabou. Ele ordenou a remoção das barreiras de proteção de Bagdá, incluindo aquelas próximas dos ministérios das Relaçoes Exteriores e das Finanças. Ele tem se recusado a pedir ajuda às forças armadas americanas de qualquer modo significativo desde que os soldados iraquianos assumiram plena responsabilidade em 30 de junho.

Então dois caminhões entraram no centro de Bagdá na quarta-feira, detonando bombas imensas que mataram quase 100 pessoas e feriram gravemente o argumento de Al Maliki de que o Iraque está pronto para se defender sem a ajuda americana. Os ataques também aprofundaram a ampla insatisfação com Al Maliki, com alguns críticos o acusando de lustrar sua imagem política como o homem que restaurou a segurança no Iraque às custas da segurança de fato.
  • Johan Spanner/The New York Times

    Jovens acendem velas diante de prédio destruído pelos ataques que mataram 95 pessoas no Iraque



"A remoção das barreiras de proteção das ruas foi apenas uma propaganda que dizia aos iraquianos: 'Nós melhoramos a situação', mas era tudo mentira", disse Qassim Daoud, um político xiita independente e ex-conselheiro de segurança nacional.

Entre as perguntas incômodas que brotaram das pilhas de escombros causadas pelas explosões estava a forma como o governo Maliki acabou pedindo ajuda aos americanos na quarta-feira, aparentemente pela primeira vez desde a transferência da responsabilidade em 30 de junho. Segundo o acordo de segurança entre os dois países, as forças americanas devem ficar de fora das cidades iraquianas a menos que seu retorno seja oficialmente requisitado.

O primeiro pedido na quarta-feira parece ter ocorrido apenas mais de três horas após as explosões. Àquela altura, grande parte dos mortos já tinha sido removida e grande parte do sangramento já tinha sido estancado.

Os hospitais ficaram lotados com os mais de 1.000 feridos, mas apenas um pequeno punhado de vítimas foi encaminhado ao mais próximo, o Hospital Ibn Sina dirigido pelas forças armadas americanas na Zona Verde, a apenas três minutos de distância.

Os oficiais americanos deram a melhor aparência possível ao fato. "Os iraquianos estavam plenamente no comando ontem e permanecem assim hoje", disse o general Stephen R. Lanza, porta-voz das forças armadas americanas no Iraque. "Eles foram os primeiros a responder e a estabelecer a segurança. Eles posteriormente requisitaram assistência às forças americanas, que nós fornecemos para complementar os esforços iraquianos."

Outros viram isso como evidência de que Al Maliki exagerou a prontidão das forças iraquianas e a segurança no Iraque.

"O primeiro-ministro e o povo iraquiano pagaram o preço por tentarem fazer algo além de sua capacidade" disse John A. Nagl, um especialista em contrainsurreição e presidente do Centro para uma Nova Segurança Americana, uma instituição de pesquisa em Washington. "A insurreição não acabou."

Convidar os americanos a voltarem deve ter sido difícil para Al Maliki, porque nenhum porta-voz do governo mencionou publicamente que os americanos ajudaram, apesar das tropas americanas continuarem chegando na quinta-feira.

Os iraquianos também permaneceram calados a respeito da decisão do primeiro-ministro, tarde da noite de quarta-feira, de suspender sua ordem anterior de remoção das barreiras de proteção e outras fortificações semelhantes da cidade até meados de setembro. Um funcionário do governo iraquiano, falando sob a condição de anonimato por não estar autorizado a discutir assuntos de segurança, disse que a suspensão entrou em vigor imediatamente. Não houve anúncio oficial, mas a remoção das barreiras de proteção que estava em andamento na área de Salhiya, em Bagdá, não foi retomada na quinta-feira.

Muitas autoridades culparam as remoções pela facilidade com que os dois caminhões abertos, contendo quase 8 toneladas de explosivos, conseguiram se aproximar mortalmente dos ministérios das Relações Exteriores e das Finanças. As autoridades iraquianas disseram que 95 pessoas morreram e 1.203 foram hospitalizadas.
  • Johan Spanner/The New York Times

    O edifício do Ministério das Relações Exteriores do Iraque também foi atingido pelos ataques em Bagdá



Poderia ter sido pior. Dois outros atentados parecem ter sido planejados para quarta-feira. Um caminhão carregado com 1 tonelada de fertilizante de nitrato de amônia foi encontrado abandonado a poucas quadras do Ministério das Relações Exteriores. Além disso, um carro cheio de explosivos foi parado pela polícia, que disse ter prendido dois extremistas sunitas.

O Comando de Operações de Bagdá, que responde diretamente a Al Maliki, emitiu uma declaração na quinta-feira dizendo que deteve 11 membros das forças de segurança iraquianas para investigação relacionada aos atentados. Entre eles estavam os comandantes dos dois batalhões posicionados nas áreas em que os atentados ocorreram, e os chefes de inteligência, policiais e os principais guardas de trânsito nos dois bairros.

Não se sabe se estes oficiais de baixa patente foram acusados de negligência ou cumplicidade.

As prisões provocaram escárnio. "Eles tomaram essa atitude para conter a raiva das pessoas", disse Zainab Kenani, uma legisladora xiita de um bloco político que costuma apoiar Al Maliki. "Esses pequenos oficiais não tiveram nada a ver com os incidentes."

Hadi al-Ameri, um legislador xiita que é presidente do comitê de segurança do Parlamento, disse que a liderança das forças armadas e das operações de inteligência precisava ser substituída.

"Nós temos seis serviços de inteligência", ele disse na "Iraqiya", a rede de televisão estatal. "Como esses caminhões entraram nessa área sensível?"

Ele se referia ao Ministério das Relações Exteriores, que é próximo do Parlamento, de vários outros prédios do governo e da principal entrada da Zona Verde. As fortificações e barreiras de proteção foram removidas nos últimos meses das principais ruas dali.

Após as explosões, as forças armadas americanas forneceram aos iraquianos apoio de vigilância aérea, equipes antibombas e ajuda no estabelecimento dos cordões de segurança, disse o tenente-coronel Philip Smith, um porta-voz das forças americanas em Bagdá.

Muitos soldados americanos nos locais dos atentados disseram aos repórteres que aguardaram por mais de três horas após as explosões pela permissão para ajudar.

A assistência na quinta-feira "foi mais concentrada na perícia dos locais das explosões e no que restou dos carros-bomba", acrescentou Smith.

O general Jihad al Jabouri, comandante de uma unidade antibombas iraquiana, disse que os caminhões carregavam fertilizante de nitrato de amônia, além de morteiros e projéteis de artilharia.

O caminhão que atingiu o Ministério das Relações Exteriores carregava quase duas toneladas de explosivos, ele disse, enquanto aquele no Ministério das Finanças carregava 1,5 tonelada.

O gabinete de Al Maliki emitiu uma declaração dizendo que os atentados foram "sem dúvida, um chamado para reavaliar nossos planos e mecanismos de segurança para enfrentar o desafio do terrorismo", sugerindo que ele estava disposto a rever o atual arranjo de segurança.

Na noite de quinta-feira, os iraquianos colocaram centenas de velas nos carros queimados, paredes danificadas e calçadas na área do atentado no Ministério das Relações Exteriores.

Um soldado iraquiano abordou um grupo que iria acrescentar mais velas e disse que seu capitão tinha ordenado que os impedisse.

"E onde estava seu capitão quando as explosões ocorreram?" perguntou um jovem. "Por que ele não montou uma barreira aqui? Agora você me pede para não acender uma vela pela minha família. Eu não vou parar. Se você quiser me deter, pode tentar."

O soldado manteve distância.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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