UOL Notícias Internacional
 

22/08/2009

CIA terceiriza ataques teleguiados para a Blackwater em bases secretas

The New York Times
James Risen e Mark Mazzetti
Em Washington (EUA)
A partir de um departamento secreto de sua sede na Carolina do Norte, a companhia antes conhecida como Blackwater assumiu um papel no programa de contraterrorismo mais importante de Washington: o uso de aviões teleguiados para matar líderes da Al Qaeda, de acordo com autoridades do governo e funcionários atuais e antigos da empresa.

As operações do departamento são realizadas em bases secretas no Paquistão e Afeganistão, onde os funcionários da companhia montam e carregam mísseis Hellfire e bombas de 230 quilos guiadas por laser em aviões Predator teleguiados, trabalho que antes era feito por funcionários da Agência Central de Inteligência dos EUA, a CIA. Eles também fazem a segurança das bases secretas, informaram oficiais.

O papel da companhia no programa Predator deixa claro o nível de dependência da CIA em relação a companhias terceirizadas para fazer algumas das tarefas mais importantes da agência. E ilustra a capacidade de recuperação da Blackwater, agora conhecida como Xe Services, apesar de a maioria das pessoas dentro e fora da companhia ainda se referirem a ela como Blackwater. Ela cresceu com o trabalho para o governo, apesar de ter atraído críticas e acusações de violência no Iraque.

Um assessor de imprensa da CIA recusou-se a dar declarações para esta reportagem.

O New York Times informou na quinta-feira que a agência contratou a Blackwater em 2004 como parte de um programa secreto para localizar e assassinar importantes membros da Al Qaeda.

Em entrevistas na quinta-feira, ex-funcionários e autoridades do governo forneceram novos detalhes sobre a associação da Blackwater com o programa de assassinatos, que começou em 2004, não muito tempo depois que Porter J. Goss assumiu a CIA. Os funcionários disseram que a agência de espionagem não despachou os executivos da Blackwater com uma "licença para matar". Em vez disso, ela ordenou que os contratados começassem a coletar informações sobre o paradeiro de líderes da Al Qaeda, vigiassem esses líderes e treinassem para possíveis missões.

"Puxar o gatilho é de certa forma a parte mais fácil, é a parte que requer menos experiência", disse um funcionário do governo que conhece o programa cancelado pela CIA. "Todos os passos que levam a isso é que são mais complicados."

Qualquer operação para capturar ou matar militantes teria de ser aprovada pelo diretor da CIA a apresentada à Casa Branca antes de ser realizada, disseram os funcionários. O atual diretor da agência, Leon E. Panetta, cancelou o programa e notificou o Congresso sobre sua existência numa reunião de emergência em junho.

A extensão dos negócios da Blackwater com a CIA foi em grande parte escondida, mas seu contrato público com o Departamento de Estado para fornecer segurança privada para diplomatas dos EUA no Iraque gerou muita avaliação e controvérsia.

A companhia perdeu o contrato no Iraque este ano, depois que os guardas da Blackwater se envolveram em tiroteios em 2007 que deixaram
17 iraquianos mortos. Ela ainda tem outro contrato, menos importante, com o Departamento de Estado.

Cinco ex-guardas da Blackwater foram indiciados em tribunal federal por acusações relacionadas com o episódio de 2007.

Um assessor de imprensa da Xe não respondeu à solicitação para falar à reportagem.

Para seu trabalho de inteligência, a sede da companhia na Carolina do Norte tem um departamento especial conhecido como Blackwater Select. O primeiro grande acordo da companhia com a CIA foi assinado em 2002, com um contrato para fornecer segurança para a nova estação da agência em Cabul, Afeganistão. Os funcionários da Blackwater designados para as bases do Predator receberam treinamento na Base Nellis da Força Aérea em Nevada para aprender como carregar os mísseis Hellfire e bombas inteligentes guiadas por laser nos aviões, informaram funcionários atuais e antigos, que pediram para não serem identificados por medo de irritar a companhia.

A CIA opera os aviões Predator teleguiados há anos em bases remotas em Shamsi, Paquistão, mas acrescentou secretamente um segundo ponto de lançamento numa base aéra em Jalalabad, Afeganistão, informaram vários funcionários e ex-funcionários do governo e da companhia. A existência de uma base do Predator em Jalalabad não havia sido relatada até então.

Funcionários disseram que a CIA conduziu a maior parte de seus ataques com mísseis e bombas com o Predator em alvos da região de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão a partir da base de Jalalabad, com aviões teleguiados decolando ou aterrissando praticamente de hora em hora. A base no Paquistão continua em uso. Mas funcionários disseram que os Estados Unidos decidiram inaugurar a operação no Agestanistão em parte por causa da possibilidade de o governo do Paquistão, que enfrenta um crescente sentimento antiamericano em seu território, poder obrigar a CIA a fechar a base no país.

A Blackwater não está envolvida em selecionar alvos ou ataques. Os alvos são selecionados pela CIA, e funcionários da sede da agência em Langley, Virgínia, puxam o gatilho remotamente. Apenas um punhado de funcionários da agência de fato trabalham nas bases do Predator no Afeganistão e Paquistão, informaram funcionários atuais e antigos.

Eles disseram que o papel direto da Blackwater nessas operações levou algumas vezes a disputas com a CIA. Às vezes, quando um Predator erra o alvo, os funcionários da agência acusam a Blackwater de erro na montagem das bombas, disseram. Numa ocasião no ano passado, uma bomba de 230 quilos caiu de um avião Predator antes de chegar ao alvo, levando a uma busca frenética pela bomba não detonada numa região remota da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Ela foi encontrada eventualmente a cerca de 100 metros do alvo original.

O papel das empresas de inteligência terceirizadas se expandiu depois dos ataques de 11 de setembro, uma vez que as agências de espionagem foram obrigadas a preencher as lacunas criadas depois que sua força de trabalho foi reduzida durante os anos 90, depois do fim da Guerra Fria.

Mais de um quarto da força de trabalho dos serviços de inteligência é formada por empresas terceirizadas, encarregadas de missões como coleta e análise de informações e, até recentemente, da interrogação de suspeitos de terrorismo.

"Há habilidades que não temos no governo e das quais podemos precisar imediatamente", disse o general Michael V. Hayden, que comandou a CIA de 2006 até o começo deste ano, durante uma discussão sobre a privatização dos serviços de inteligência na quinta-feira.

Hayden, que sucedeu Goss na CIA, reconheceu que o programa continuou durante seu tempo na agência, apesar de não ser uma prioridade. Ele disse que o programa nunca foi importante durante a sua época na CIA, e por este motivo ele achou que não era necessário notificar o Congresso. Ele disse que o programa não envolvia serviços terceirizados na época em que ele entrou.

A senadora Dianne Feinstein, democrata da Califórnia que preside o Comitê de Inteligência do Senado, disse que a agência deveria ter notificado o Congresso de qualquer forma. "Qualquer operação de inteligência e ação secreta deve ser informada ao Congresso", disse ela. "Se não for, isso é uma violação da lei."

Tradução: Eloise De Vylder

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