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22/08/2009

Em meio a debate sobre a saúde, eleitores idosos reconsideram Obama

The New York Times
Kevin Sack
Em Sunrise, Flórida (EUA)
Era noite de karaokê na vila de aposentados Sunrise Lakes, e Shirley Scrop, de 76 anos, usando uma camiseta comemorativa do barmitzvah de sua neta, cantava um rap sobre assistência médica.

"Eu caminho de manhã e nado na piscina, vou ao médico para tomar vacina", ela cantava, balançando-se como Ray Charles, vestida com saia para jogar tênis. "Do consultório médico eu não gosto nenhum pouco, mas chego lá e fico sentada o dia todo."

Mas, na verdade, depois de inclinar-se para os agradecimentos, Scrop admitiu que não mudaria nada em relação ao seu plano de saúde. Há apenas dois meses, ela fez uma cirurgia para remover um tumor nos seios, e o Medicare e seu plano de saúde suplementar cobriram os custos, e permitiram que ela escolhesse uma variedade maior de cirurgiões e oncologistas.

É por isso que, apesar de ter votado em Barack Obama para presidente em novembro passado, Scrop agora vê o debate sobre a saúde em Washington como uma fonte considerável de preocupação. Como muitos jogadoras de pôquer em tempo integral, caminhantes de esteiras e "guerreiros" de mah-jong que permanecem ativos no clube do condomínio Phase 4, Scrop descobriu que sua lealdade vitalícia ao Partido Democrata compete com seus temores de que o custo para fornecer uma cobertura de saúde universal cairá pesadamente sobre os mais idosos.

"É assustador", disse Scrop, uma contadora aposentada de Long Island que se mudou para o sudeste da Flórida em 1989. "Se eles mudarem a quantidade de benefícios, isso acabará saindo do meu bolso. Tenho certeza que haverá algum tipo de mudança. Espero que não seja muito ruim."

Parecia importar pouco que Obama e seus aliados democratas no Congresso tenham prometido proteger os níveis de benefício do Medicare e tenham negado qualquer interesse em "desligar os aparelhos da vovó", como disse o presidente na semana passada. Scrop e outros moradores dessa vasta comunidade de condomínios coloridos ouviram sobre planos para reduzir centenas de bilhões de dólares nos gastos com o Medicare. Mesmo apesar do maior dos cortes propostos reduzir o reembolso para hospitais, muitos temem que os beneficiários por fim saiam perdendo.

Quer eles acreditem ou nos rumores de que o governo Obama planeja estabelecer "conselhos de morte" - alguns acreditam e outros não - muitos expressam um temor generalizado de que o cuidado com os idosos ficará para escanteio e que o acesso a procedimentos e medicamentos possa ficar restrito. Eles pagaram pelo Medicare durante toda sua vida enquanto trabalhadores, disseram muitos deles, e o mínimo de justiça exigiria que eles possam manter os benefícios que têm.

"Não quero que nada seja cortado daquilo que eu preciso", disse Sandy Burd, 64, diretora social do clube. "Se eu tenho 65 anos e preciso de uma ressonância magnética, não quero que eles digam, 'desculpe, mas isso precisa ir para alguém que tem 45'".

Hal Goldman, 79, que se aposentou há 22 anos na Sears, Roebuck & Co., sente-se da mesma forma.

"O que eles estão tentando fazer - o que Obama está tentando - é tirar dos cidadãos idosos e dar aos pobres e aos imigrantes ilegais", disse Goldman. "Isso prejudicará os cidadãos idosos que trabalharam toda sua vida. Por causa da idade, como no Canadá, você terá que esperar seis meses para fazer uma ressonância magnética."

De fato, os projetos de lei para a saúde que estão circulando no Congresso não estenderão a cobertura para os imigrantes ilegais, apesar de poderem reduzir um pouco as escolhas das quais os beneficiários atuais do Medicare desfrutam hoje.

Na eleição presidencial do ano passado, os eleitores de 60 anos ou mais foram o único grupo etário a apoiar o senador John McCain do Arizona, o candidato republicano. Mas esse não foi o caso em Broward County, que foi crucial para a vitória democrata na Flórida. Nos nove distritos que fazem parte de Sunrise Lakes, dominados por judeus idosos vindos do norte urbano, três entre cada quatro votos foram para Obama.

Isso torna particularmente impressionante que haja tamanha ansiedade aqui em relação às inicitivas dos democratas no que diz respeito à saúde. Apesar de as opiniões não serem gerais, alguns que apoiam Obama dizem que se arrependem, ou pelo menos se ressentem, de sua escolha.

"Eu votei em Obama para presidente, e não tenho vergonha de dizer que sinto muito agora porque não confio no que ele está dizendo", disse Elaine Carl, 71, presidente de recreação no conjunto habitacional Phase 4. "Acho que eles tirarão o Medicare. De fato acho isso."

Na noite de quinta-feira, em três mesas de pôquer montadas no lobby do clube, as discussões em relação à assistência médica interromperam temporariamente as reclamações sobre o ar condicionado quebrado na sala de jogos.

"Posso ir onde quiser, e se me disserem que não posso, isso me deixaria preocupada", disse Ruth P. Fox, 82, enquanto colocava apostava uma moeda no jogo (numa clara contravenção das normas contra apostas). "Tenho uma médica geriatra, e ela é maravilhosa."

Mas Eleanor S. Robinson, que tem 80 anos, disse que seus amigos idosos tendem a se preocupar apenas por se preocupar. "Quando Roosevelt introduziu a Seguridade Social, muitas pessoas também se preocuparam com isso", lembra-se Robinson. "Se se não tivéssemos nosso cheque da Seguridade Social hoje, todos nós estaríamos em dificuldades. Às vezes é preciso ir adiante e assumir algum risco."

Há outros, é claro, cujo entusiasmo por Obama não diminuiu. Ronald A Clifford, 73, que trabalha como segurança meio período, patrulhando a propriedade num carrinho de golfe, culpou os "cabeças-dura" por fomentar a discórdia nas reuniões de condomínio porque "eles odeiam ter um presidente negro."

"No geral, eu apoio Obama não importa o que ele faça", disse Cliford. "O que quer que ele faça, isso é 'emes'. Sabe o que é isso? É verdade em iídiche."

Quaisquer que sejam os sentimentos em relação a Obama, há uma apreciação generalizada de que ele assumiu um programa de governo ambicioso.

"É preciso dar uma chance ao homem; ele assumiu uma grande tarefa", disse Sylvia Bank, que disse que acabou de celebrar seu 88º aniversário, levando uma amiga a bater na madeira. "Se fosse meu filho, eu não deixaria ele ser presidente, não nesse momento."

Hilda Gruber, 84, olhou por cima de suas cartas. "O que isso tem a ver com o preço dos ovos no Afeganistão?", ela perguntou.

De volta ao salão de baile, onde o aparelho de karaokê foi financiado por um fornecedor de cadeiras de roda motorizadas, Scrop disse que o melhor cuidado com a saúde parte de uma atitude positiva e exercícios regulares. Ela disse que joga tênis nove vezes por semana, e além disso dança.

"Não estou pronta para deixar esse planeta, porque eles só aceitam pessoas boas lá em cima", disse ela com um sorriso irônico. "Uma vez que vou ficar aqui ainda muito, muito tempo, não quero que minha cobertura de saúde seja muito cara."

Tradução: Eloise De Vylder

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