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23/08/2009

Renascimento jamaicano começa, mas não termina, com Bolt

The New York Times
Christopher Clarey
Em Berlim (Alemanha)
Na euforia pós-recorde mundial diante do Estádio Olímpico, um jovem alemão se aproximou do treinador de atletismo Stephen Francis em busca de autógrafos. Ele usava uma camiseta e um boné que diziam "JAMAICA".

O país de Francis, no Caribe, ainda não é uma verdadeira superpotência do atletismo - eles têm eventos de campo na Jamaica? Eles correm mais que 400 metros? -, mas a ilha natal de Usain Bolt está se tornando rapidamente um país indispensável no esporte. Bolt tornou-se uma força da natureza de fama mundial nas Olimpíadas do ano passado e de certa forma superou a comoção da moda nesses campeonatos mundiais.

Não importa o esquecimento pós-Pequim. Bolt cortou 11 centésimos de segundo de seus recordes mundiais nos 100 e 200 metros e continuou esnobando seus adversários sem fôlego. Eles não pareceram se importar - pelo menos por enquanto - com o fato de Bolt os embaraçar antes, durante e depois da corrida. Fingir aceitar parece mais submissão do que competição nesta fase.

Não é apenas que Bolt vence, é como ele vence. Nos 200 metros em uma noite quente de quinta-feira, quando o público e a atmosfera finalmente pareciam dignos de um campeonato mundial, Bolt estava claramente correndo contra o relógio, e não contra os homens vários metros atrás dele. Apesar de um ligeiro vento de frente e ninguém a pressioná-lo, ele ainda terminou em 19.19 segundos.
  • Adrian Dennis/AFP

Com um vento pelas costas, verdadeiros adversários e tempo para amadurecer plenamente, uma prova em menos de 19 não parece mais absurda.

"Eu já disse a vocês", disse Bolt aos repórteres na quinta-feira, "que meu principal objetivo é me tornar uma lenda."

Até agora, tão rápido, com o revezamento 4x100 masculino ainda por vir, a equipe da Jamaica chegou até as finais para um duelo com a equipe americana depois que as duas fizeram corridas de sucesso nas semifinais. A equipe jamaicana correu sem Bolt, que estava descansando depois de sua façanha nos 200 m. Ele recebeu a medalha de ouro na sexta-feira, dia do seu 23º aniversário, e a multidão cantou parabéns.

Mas claramente há mais no sucesso da Jamaica do que Bolt, que foi responsável por apenas duas das cinco principais medalhas de ouro do mundo conquistadas pelo país. Três mulheres do grupo de treino de Francis, chamado MVP, ganharam as outras três, com Shelly-Ann Fraser vencendo os 100 m femininos, Brigitte Foster-Hylton os 100 com barreiras e Melaine Walker os 400 com barreiras.

Fraser e Walker foram campeãs olímpicas em 2008. Foster-Hylton veio de um lugar menos provável, tendo perdido seu contrato de patrocínio de calçados no ano passado por causa de resultados decepcionantes. Ela até se retirou por um tempo antes de repensar o caso.

"A temporada começou devagar, mas eu acho que sempre sentimos que se pudermos ter o tempo certo para nos sair bem em agosto, ela terá uma grande chance de vencer", disse Francis.

Três ouros mais a prata de Shericka Williams nos 400 m femininos e o bronze de Asafa Powell nos 100 m masculinos é uma ótima resposta para as autoridades da federação atlética jamaicana, que queriam excluir os atletas de Francis desse certame depois que eles decidiram continuar treinando na Itália, em vez de ir para um campo de treinamento da equipe nacional na Alemanha.

Francis disse que a disputa apenas aguçou o desejo de seus corredores de provar que os burocratas estavam errados, e advertiu que o sucesso da Jamaica é frágil.

"Eu acho que isso mostra o que o livre mercado pode alcançar", disse Francis. "Nada foi realizado através de um plano mestre. São apenas indivíduos ou grupos de pessoas fazendo o que gostam, e tudo dá certo."

"Se deixarem como está, acho que continuará florescendo", ele disse. "Mas sempre tem a mão do 'big brother' que poderia entrar, tentar dirigir e estragar tudo. Então, quem sabe?"

O sucesso, particularmente em um pequeno país como a Jamaica, pode atrapalhar as coisas. O grupo de Francis foi ofuscado ultimamente pelo grupo de Glen Mills, que também treina na capital jamaicana, Kingston, e inclui Bolt. Antes de Bolt ter entrado em cena, Francis tinha o principal atleta do país, Asafa Powell, que deteve o recorde mundial com 9.72 segundos até que Bolt o superou em junho passado.

"As pessoas não têm esperança, mas quando Asafa começou a correr elas não podiam acreditar que alguém conseguisse correr em 9.7 e 9.8 com tamanha regularidade", disse Francis. "Hoje, se você não está correndo 9.7, não está correndo nada. O fato de Bolt chegar lá, tenho certeza que vai produzir uma série de superdesempenhos, porque quando os seres humanos conquistam alguma coisa tende a ser muito mais fácil para todos os outros. Não acho que precisamos nos preocupar muito. As coisas vão mudar e as pessoas vão se motivar de outro modo. Talvez ele seja apenas um Secretariat, mas acho que vocês descobrirão no futuro que as coisas vão se nivelar."

Mas isso dificilmente é uma certeza. O livro de recordes do atletismo tem diversos exemplos de congelamento do relógio. Todos os recordes mundiais de corrida feminina têm duas décadas ou mais: ninguém chegou perto das marcas de Florence Griffith Joyner em 1988, de 10.49 nos 100 ou 21.34 nos 200.

Apesar dessa grande lacuna e de alegações de doping, Griffith Joyner nunca falhou em um teste durante sua carreira. A única outra mulher que superou 10.7 nos 100 m, Marion Jones, dos EUA, admitiu ter usado doping.

Surge Bolt, que sobe ao palco quando a vigilância e a consciência aumentaram, juntamente com o ceticismo do público. Por mais que possa ser infeliz e desagradável, lidar com isso faz parte do trabalho de Bolt.

"Eu sempre digo às pessoas que estou limpo", ele disse. "Se elas não acreditam em mim, não posso fazer nada. Continuo correndo e treinando duro. Sou testado o tempo todo."

Esse comentário não deve implicar que o ambiente estava sombrio na quinta-feira à noite. Era festivo, com a multidão alemã de cerca de 50 mil desfrutando o espetáculo, que incluía um salto em altura feminino de alto perfil vencido por Blanka Vlasic da Croácia contra a alemã Ariane Friedrich.

Na sexta-feira, uma chuva torrencial atrasou o início das provas de corrida à tarde, mas afinal elas aconteceram sem Bolt.

Mas o astro essencial da corrida ainda não terminou aqui, nem a Jamaica.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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