UOL Notícias Internacional
 

23/08/2009

Surgem novas dúvidas sobre a foto "morte de um miliciano" de Capa

The New York Times
Larry Rohter
Depois de quase três quatros de século, a foto "A morte de um miliciano" de Robert Capa, que retrata a Guerra Civil Espanhola, continua sendo uma das imagens de combate mais famosas de todos os tempos. É também uma das mais discutidas, com uma longa fila de críticos afirmando que a foto, de um soldado aparentemente no momento de sua morte, foi montada. Agora, um novo livro escrito por um pesquisador espanhol afirma que a foto não poderia ter sido feita onde, quando ou como os admiradores de Capa e seus herdeiros alegam.
  • Robert Capa

Em "Shadows of Photography", José Manuel Susperregui, professor de comunicação na Universidade do País Basco, conclui que a foto de Capa foi tirada em Cerro Muriano, um pouco ao norte de Córdoba, mas próximo de outra cidade, a cerca de 56 quilômetros dali. Como o local estava longe das linhas de batalha quando Capa esteve por lá, diz Susperregui, isso significa que "a foto do 'Soldado Caindo' é montada, assim como todas as outras da série tirada naquela frente de batalha".

Especialistas do Centro Internacional de Fotografia em Manhattan, onde os arquivos de Capa estão guardados, dizem que acharam alguns aspectos da investigação de Susperregui intrigantes e até mesmo convincentes. Mas eles continuam a acreditar que a imagem vista em "A morte de um miliciano" é genuína, e alertam para que não sejam tiradas conclusões precipitadas. "Em parte a dificuldade disso está no fato de as pessoas dizerem: 'Bem, se não foi aqui e foi lá, então, por Deus, é uma montagem'", disse Willis E. Hartshorn, diretor do centro, em uma entrevista. "Esta é uma conclusão que acho que precisa de muito mais pesquisa e muito mais estudo para ser tirada."

Susperregui disse que começou sua investigação examinando o cenário de outras fotos da mesma sequência de "A morte de um miliciano", nas quais pode-se ver uma cadeia de montanhas ao fundo. Então, ele enviou a mais clara dessas imagens para bibliotecários e historiadores de cidades na região de Córdoba, perguntando se eles reconheciam o cenário e eventualmente recebeu uma resposta positiva de uma comunidade chamada Espejo.

"Não disse a ninguém que isso estava ligado à 'morte de um miliciano' porque esse assunto tem uma carga emocional e ideológica muito forte", explicou em uma entrevista por telefone de sua casa a leste de Bilbao. "Mas um professor mostrou a foto que eu havia mandado para sua classe, e imediatamente um dos alunos reconheceu o lugar."

Retomando a investigação do ponto em que Susperregui parou, a imprensa espanhola, liderada pelo jornal de Barcelona "El Periodico de Catalunya", enviou recentemente repórteres para Espejo. Eles voltaram com fotos nas quais a linha do horizonte parece corresponder quase que perfeitamente à que é vista ao fundo das fotos de Capa, tiradas em setembro de 1936, menos de dois meses depois do começo da Guerra Civil Espanhola.

Cynthia Yong, curadora do Arquivo de Robert Capa no ICP, disse que as novas provas que sugerem que "A morte de um miliciano" tenha sido fotografado em Espejo são "convincentes, até mesmo persuasivas". A confusão em relação ao local deve ter surgido, acrescentou, porque Capa "legendou muito poucas fotos" durante a viagem, sua primeira como fotógrafo de guerra, e "muito possivelmente não se lembrava" de onde tirou a foto, provavelmente deixando seus agentes e editores em Paris tentando adivinhar quando revelaram o filme. Não se sabe da existência de nenhum negativo de "A morte de um miliciano".

Historiadores espanhóis dizem que apesar de ter havido um combate intenso em Espejo no final de setembro, nenhuma batalha aconteceu lá no começo do mês, quando Capa, então com 22 anos, e Gerda Taro, sua colega e companheira, teriam passado por lá. Até "o final de setembro, nenhum tiro foi dado ali, houve apenas alguns bombadeios aéreos", disse Francisco Castro, um morador do local que tinha 9 anos na época, ao jornal El Periodico. "Os homens da milícia passeavam pelas ruas e comiam o melhor presunto da cidade".

Uma explicação alternativa da criação de "A morte de um miliciano", que o centro de fotografia acha plausível, é que a foto de Capa tenha sido tirada "não durante o calor da batalha", como diz Hartshorn, mas durante as manobras, talvez realizadas em benefício de Capa, "e que houve um momento no qual o exercício se tornou real, e este é o resultado daquele momento". Ele acrescentou: "sempre se supôs que havia um atirador de elite" que acertava os homens da milícia à distância.

Mas Susperregui desafia essa crença também, dizendo que ela "precisa ser completamente descartada". Não só as linhas de frente dos dois lados ficavam muito distantes uma da outra, o que tornava "o alvo da artilharia muito inexato" para tornar essa hipótese viável, como também "não há referência documental, escrita ou visual, sobre o uso de atiradores de elite" na frente de Córdoba, diz ele.

O novo debate sobre o "A morte de um miliciano" coincide com a abertura de uma exposição, que já passou por Nova York e Londres, de quase 300 fotos e anotações de Capa e Taro no Museu Catalão de Arte Nacional em Barcelona. As feridas da guerra civil ainda não cicatrizaram completamente na Espanha e o governo socialista do país se sentiu obrigado a defender a fotografia - que ainda é uma imagem simbólica para a esquerda, que perdeu a guerra para o general Francisco Franco - contra as acusações de que foi montada.

"A arte é sempre manipulação, desde o momento em que você aponta uma câmera para uma direção e não para outra", disse a ministra da cultura espanhola, diretora de cinema e roteirista Angeles Gonzalez-Sinde, depois de visitar a exposição no mês passado. Mesmo que a nova controvérsia prove que a foto é algo diferente do que Capa e seus admiradorse sempre alegaram que ela é, isso não diminui a genialidade de Capa, ela sugeriu.

A primeira contestação com provas contra a autenticidade de "A morte de um miliciano" surgiu em meados dos anos 70, no livro "The First Casualty" de Philip Knightley. Mas, 20 anos depois, uma identificação preliminar do miliciano morto como sendo um anarquista chamado Federico Borrell, conhecido por ter morrido em Cerro Muriano em 5 de setembro de 1936, pareceu silenciar a controvérsia.

Susperregui, entretanto, visitou Cerro Muriano e notou que é "uma área de bosque, com árvores centenárias", completamente diferente da campina aberta mostrada na foto de Capa. Seu livro também se refere a um artigo publicado em 1937 numa desconhecida revista anarquista em tributo a Federico Borrell, no qual um colega combatente contava que Borrell estava atirando "atrás de uma árvore" quando foi morto e acrescentava: "ainda posso vê-lo estendido atrás daquela árvore que serviu como barricada, com os cabelos desgrenhados caindo sobre sua face e um filete de sangue escorrendo de sua boca."

Em 1996, a Magnum Photos, agência que Capa ajudou a fundar e que foi administrada durante muitos anos por seu irmão Cornell, divulgou uma declaração afirmando que a citação do nome de Borrell provava sem dúvida que a foto "A morte de um miliciano" era genuína. A Magnum não respondeu aos pedidos para uma entrevista sobre as descobertas de Susperregui.

No livro, Susperregui também vê outras contradições em relação ao relato oficial. Ele observa, por exemplo, que Capa falou em várias entrevistas sobre os homens da milícia caindo por conta de explosões ou do fogo de metralhadoras, e não por causa de uma bala de um atirador, e o fotógrafo também ofereceu vários relatos amplos sobre o ponto de observação e a técnica que usou para tirar a foto do "A morte de um miliciano" e outra imagem, quase idêntica, pouco tempo depois.

A verdade dos fatos, diz Hartshorn, do centro de fotografia, "é como uma história de detetive, da qual não conhecemos nem o cerne nem a chave do quebra-cabeça.

"Há uma especulação enorme", acrescentou, "mas há muito pouco sobre o que se possa dizer: 'isto é o que sabemos'. Há simplesmente muitas peças e muitas partes em movimento que não se podem verificar ou provar."

Tradução: Eloise De Vylder

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