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23/08/2009

No Brasil, ambientalistas tentam pagar fazendeiros para manter as árvores em pé

The New York Times
Elisabeth Rosenthal
Em Querência (Brasil)
José Marcolini, um fazendeiro daqui, tem permissão do governo brasileiro para desmatar 5 mil hectares de floresta tropical neste ano, para criar novas plantações de soja altamente lucrativas.

Florestas brasileiras ameaçadas

  • Damon Winter/The New York Times

    Área de floresta nativa fica ilhada entre área devastada para cultivo de soja em Mato Grosso

  • Damon Winter/The New York Times

    Devido aos lucros resultantes de seu solo, parte das florestas da região foi derrubada

Mas ele está lutando com sua consciência. Um grupo ambiental brasileiro está lhe oferecendo um pagamento anual em dinheiro para deixar sua floresta intacta, para ajudar a combater a mudança climática.

Marcolini diz que se preocupa com o meio ambiente. Mas também tem família para sustentar e tem dúvidas de que a oferta inicial do grupo na negociação -US$ 12 por acre (aproximadamente 0,4 hectare)- seja suficiente para que possa aceitar.

"Para resistir à pressão, cercado de soja, eu terei que receber... muito", diz Marcolini, 53 anos, notando que terra desmatada que pode ser trabalhada aqui no Estado do Mato Grosso é vendida por até US$ 1.300 o acre.

No passado, o Mato Grosso fazia jus ao seu nome. Mas hoje, o Estado brasileiro é um centro global de desmatamento. Devido aos lucros resultantes de seu solo fértil, as densas florestas da região foram agressivamente derrubadas ao longo da última década e o Mato Grosso atualmente é o principal exportador de soja, milho e carne bovina do Brasil para todo o mundo, por meio de empresas multinacionais.

O desmatamento, um dos fatores que mais contribuem para a mudança climática, representa 20% das emissões de dióxido de carbono do mundo e 70% das emissões do Brasil. Deter um maior desmatamento, dizem os especialistas, é uma forma tão poderosa de combater o aquecimento quanto fechar as usinas elétricas a carvão do mundo.

Mas até agora, não há recompensa financeira por manter as florestas em pé. Um crescente número de cientistas, políticos e ambientalistas argumenta que pagamentos em dinheiro -como o oferecido a Marcolini- são a única forma de deter a destruição da floresta tropical e fornecer uma estratégia capaz de mudar o jogo nos esforços para limitar o aquecimento global.

Diferente de soluções de alta tecnologia como captura e sequestro de dióxido de carbono ou a produção de combustível "verde" de algas, a preservação de uma floresta rende um resultado ambiental notavelmente simples: o proprietário reduz as emissões de sua propriedade a zero.

Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, disse que o desmatamento precisa ser tratado pelo novo acordo climático internacional sendo negociado neste ano. "Mas as pessoas cortam árvores porque há uma razão econômica para fazê-lo, e é preciso fornecer a elas uma alternativa financeira", ele disse.

Tanto o mais recente esboço do acordo quanto o projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, em junho, incluem planos para empresas e países ricos pagarem aos pobres para preservarem suas florestas.

As estratégias podem incluir pagamentos diretos aos proprietários para conservar as florestas, assim como subsídios indiretos, como preços mais altos pela carne bovina e soja produzidas sem a necessidade de desmatamento. O desmatamento cria emissões de carbono por meio das queimadas e maquinários usados para derrubar as árvores, e também destrói a vida vegetal que ajuda a absorver as emissões de dióxido de carbono de carros e fábricas ao redor do mundo.

Mas conseguir os incentivos em dinheiro certos é um negócio complexo e não mapeado. Em grande parte do mundo em desenvolvimento, incluindo aqui, o desmatamento está ligado ao progresso econômico.

Pedro Alvez Guimarães, um homem calejado de 73 anos sentado à beira do Rio dos Mortos da região, chegou ao Mato Grosso em 1964 em busca de terra gratuita, avançando na floresta até encontrar um local e construir um barraco como base para criação de gado. Apesar da lamentar a perda da floresta, ele considera bem-vindos os confortos como a escola construída há poucos anos, frequentada por seus netos, ou a eletricidade instalada no ano passado, que permitiu que ele comprasse seu primeiro freezer.

Além disso, os grupos ambientais alertam que, se mal projetados, programas pra pagar pela preservação da floresta podem se transformar em uma fonte de dinheiro para as mesmas pessoas que as estão destruindo. Por exemplo, uma versão proposta do novo plano da ONU permitiria que plantações de árvores, como as palmeiras cultivadas para extração do óleo de palma, sejam contadas como floresta, apesar das plantações de árvores não terem o mesmo potencial de absorção de carbono de uma floresta genuína e serem bem menos diversas em vida vegetal e animal.

"Há potencial de um resultado bastante perverso", disse Sean Cadman, porta-voz da Wilderness Society of Australia.

Forças econômicas globais e locais estimulam o desmatamento.

O Brasil e a Indonésia lideram mundialmente em extensão de floresta tropical perdida a cada ano. As florestas são derrubadas para ajudar a alimentar a crescente população mundial e atender seu crescente apetite por carne. Grande parte da soja do Brasil é comprada por empresas americanas como a Cargill ou Archer Daniels Midland e usada para alimentar gado em locais tão diversos quanto a Europa e a China. Na Indonésia, as florestas tropicais são derrubadas para plantação das palmeiras para o óleo de palma, que é um componente de biocombustíveis.

O Brasil tem tentado equilibrar desenvolvimento e preservação.

No ano passado, com uma doação da Noruega que poderá trazer ao país US$ 1 bilhão, ele criou o Fundo Amazonas para ajudar as comunidades a manter sua floresta. As leis nacionais estipulam que 80% de cada extensão de terra no alto Amazonas -e 50% em regiões mais desenvolvidas- deve permanecer coberto de floresta, mas é um vasto território com pouca fiscalização. Os exportadores de soja contam oficialmente com uma moratória no uso de produtos de terras recém-desmatadas.

Aqui no Mato Grosso, 1.800 quilômetros quadrados de floresta tropical foram desmatados apenas nos últimos cinco meses de 2007, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial do Brasil, que monitora o desmatamento.

"Com tanto dinheiro em jogo, não há leis que mantenham a floresta em pé", disse John Carter, um fazendeiro que se estabeleceu aqui há 15 anos, enquanto sobrevoava há alguns meses com seu Cessna a terra desmatada.

Até recentemente, o desenvolvimento da Amazônia era a prioridade, e alguns dos colonos se sentem traídos pelo novo estigma que cerca o desmatamento. Semelhante ao Oeste americano no século 19, o governo brasileiro encorajou assentamentos por meio de benefícios como terras baratas e subsídios para habitação, muitos dos quais existentes até hoje.

"Foi triste e revoltante quando o mundo disse que o desmatamento era ruim -nos foi dito para virmos para cá e que tínhamos que derrubá-la", disse o secretário da Agricultura do Mato Grosso, Neldo Egon Weirich, 56 anos, que se mudou para cá em 1978 e notou que para ter direito aos empréstimos para compra de tratores e sementes, um fazendeiro tinha que desmatar 80% de suas terras.

Ele tem orgulho de ter transformado o Mato Grosso de uma zona de malária em uma potência agropecuária. "O Mato Grosso está sob um microscópio -nós sabemos que temos que fazer algo", disse Weirich. "Mas não podemos simplesmente parar a produção."

Mesmo hoje, colonos em todas as partes do mundo estão comprando ou ocupando floresta barata "inútil" e a transformando em terra produtiva.

O desmatamento é frequentemente a melhor forma de declarar e assegurar a propriedade. A terra que Carter intencionalmente manteve como floresta pelo seu benefício ambiental tem sido frequentemente ocupada por invasores -um problema comum aqui. Em partes do Sudeste Asiático, as experiências iniciais de pagamento aos proprietários para preservação da floresta foram atrapalhadas por frequentemente não se saber ao certo quem é dono ou controla a propriedade.

Há várias ideias sobre como frear o desmatamento.

Carter lançou um grupo ambiental dos proprietários de terras, chamado Aliança da Terra, cujos membros concordam em ter suas propriedades fiscalizadas por boas práticas ambientais e suas florestas monitorados por satélite pelos cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), para assegurar que não cultivarão em terra recém desmatada. Carter está negociando com empresas como o McDonald's para que comprem apenas de fazendas certificadas.

O programa da ONU chamado Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal, ou Redd, recompensará os países que preservarem as florestas com créditos de carbono, que podem ser vendidos e transformados em dinheiro pelos donos das florestas, por meio do mercado global de carbono. A ONU já concede esses créditos pela limpeza de fábricas e plantação de árvores. Os créditos de carbono são comprados por empresas e países que ultrapassaram seus limites de emissão, como uma forma de equilibrar seu orçamento de emissões.

Daniel Nepstad, um cientista do Woods Hole Institute, mapeou recentemente grandes áreas da Amazônia "pixel por pixel" para determinar o valor das terras caso fossem convertidas em pastos de gado ou plantações de soja, para ajudar a determinar quanto os proprietários deveriam receber para preservar a floresta. A maioria dos especialistas sente que os proprietários aceitarão preços mais baixos à medida que perceberem os benefícios de salvar a floresta, como conservação da água e a melhora de sua imagem junto aos compradores.

Weirich, o secretário da Agricultura, se mostrou cético a respeito disso, mas ele também sente que, pela primeira vez, pode haver algum retorno financeiro em preservar a floresta, de forma que recentemente decidiu ser certificado pela Aliança da Terra.

"Nós queremos adotar práticas que nos coloquem à frente no mercado", ele disse.

A oferta inicial que Marcolini recebeu do grupo ambiental talvez não seja suficiente para salvar a floresta aqui. Mas, ele disse, se sua terra fosse em uma parte mais remota da Amazônia, com menos potencial agropecuário, "eu aceitaria a oferta".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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