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24/08/2009

Uso de doping é questionado entre atletas idosos

The New York Times
John Leland
Em seu apartamento perto de Filadélfia, Frank Levine puxou uma lista de remédios prescritos presa à geladeira, com as mãos tremendo levemente. Havia metaformina HCl e glipizide para seu diabetes; lisinopril para a pressão sanguínea; e Viagra.

"Preciso disso", disse ele.

Levine, que tem 95 e passou por operações em ambos os joelhos, estabeleceu em junho o recorde nos 400 metros para homens entre 95 e 99 anos, apenas para vê-lo ser quebrado no USA Masters Outdoor Track & Field Championships poucas semanas depois. "Nada conta a menos que você seja o primeiro", disse ele.
  • Angela Jimenez/The New York Times

    (Esq. para dir.) Tom Rice, 81; Robert Bruce, 81; e Edward Cox, 82, competindo nos 100 metros


Levine pertence a uma geração de atletas que estão quebrando recordes de velocidade, distância e resistência com idades antes consideradas muito avançadas para a competição. Num esporte repleto de escândalos por doping, os atletas mais velhos levantam a questão do que constitui um corpo natural para as pessoas que estão numa idade em que as drogas fazem parte da vida.

"Quem tem 75 anos de idade e não toma nenhum remédio?" pergunta Gary Snyder, presidente nacional do comitê masters da USA Track & Field, que supervisionará mais de cem competições este ano para atletas acima dos 30 anos.

A maioria das drogas como as de Levine não são proibidas para os competidores, mas alguns tratamentos comuns para asma, menopausa e inflamações contêm esteróides que podem desqualificar atletas se eles não conseguirem isenções médicas por escrito.

"Tenho certeza de que há caras tomando coisas como Manny", disse Snyder, referindo-se a Manny Ramirez, jogador de beisebol para os Los Angeles Dodgers que este ano foi suspenso durante 50 jogos por violar a política antidrogas do esporte. "Mas a maioria está usando drogas por razões médicas."

Ray Feick, 77, disse que suspeitou que "dois ou três" colegas estavam usando esteróides para melhorar suas atuações, incluindo um lançador de peso que de repente conseguiu vencê-lo. "Meus colegas e eu conversamos sobre isso", disse ele. "Não é justo com a classificação etária e não é justo com seus corpos. E um a um, eles desistem."

A USA Track 7 Field, que fiscaliza o esporte, tem uma política de tolerância zero para o doping, mas não faz teste de drogas nos eventos de categoria master porque seriam muito caros - cerca de US$ 500 por atleta e outros US$ 10 mil para levar uma organização testadora para o evento, disse Snyder.

Mas existem testes no World Masters Championship, que aconteceu este ano em Lahti, Finlândia, no final de julho e começo de agosto. Em 1999, a corredora norte-americana Kathy Jager, 56, teve suas medalhas retiradas e foi proibida de competir por dois anos depois de ter testado positivo para esteróides anabolizantes, que tinham sido receitados a ela como parte de um tratamento popular para a menopausa chamado Estratest HS.

"Quando batemos recordes, os europeus olham para nós e pensam: 'Ah, claro, esse e aquele estão tomando coisas'", disse Snyder.
  • Angela Jimenez/The New York Times

    (Esq.) Frank Levine, 95, disputa os 5000 metros; (dir.) Roslyn Katz, 67, no lançamento de peso


Para Rosalyn Katz, 67, lançadora de Nova York que disse que não toma nenhum remédio, a questão do abuso de drogas é irrelevante. Numa manhã recente, Katz, uma administradora escolar aposentada, e sua parceira de treino, Neni Lewis, 49, estavam lançando pesos num parque da cidade. O martelo de Lewis foi muito longe para a esquerda e ficou pendurado num galho de árvore como um enfeite de Natal de quatro quilos. As duas mulheres praticam antes das sete da manhã, duas vezes por semana, o ano inteiro.

"Não acho que ninguém que tome medicamentos para asma irá lançar ou correr melhor", disse Katz. "Acho que eles tomam porque não conseguem respirar."

Como muitas outras mulheres que competem depois da idade de 60 anos, Katz disse que ela não teve nenhum programa de prática esportiva durante seus anos de escola e faculdade e nunca havia praticado o esporte até chegar perto dos seus 50 anos.

Levine, da mesma forma, só começou a correr depois dos 65. Com sua mulher num asilo, um amigo sugeriu que eles corressem juntos, treinando na época para a maratona. Ele correu 18 maratonas antes de começar a correr distâncias curtas. Ele disse que não acha que seus colegas tomam drogas a não ser por motivos médicos.

"Há todo um grupo de pessoas acima dos 70 anos que fazem parte do mundo", disse Levine. "Em 1950, você já era velho quando tinha 50 anos. Agora eu me sinto velho quando tenho que usar os meus dedos."

Em relação a suas conquistas como atleta idoso, ele diz: "Estou mais desapontado do que surpreso, porque meus tempos ficaram muito mais lentos. Eu me sinto bem. Então o corpo ficou mais lento."

Em sua juventude, Levine ganhou um título de boxe Golden Gloves para peso mosca, e seu ímpeto competitivo não o abandonou. No prédio onde mora, ele cumprimentou um visitante pelo interfone perguntando: "você quer pegar as escadas ou o elevador?". Ele mora no sétimo andar.

Nas competições de masters, os atletas são agrupados em grupos etários de cinco anos de duração. Levine acabou de passar para a categoria de
95 a 99 anos, o que ele vê como uma vantagem uma vez que agora será o menino de sua categoria. "Faz com que você fique ansioso para ficar mais velho", diz ele.

O reverendo Champion Goldy, 92, corredor e arremessador de Haddonfield, Nova Jersey, disse que seu objetivo é correr os 100 metros quando tiver 100 anos. Goldy, ministro de uma igreja metodista, disse que gosta da camaradagem do circuito mas teme as ausências inevitáveis nas competições.

"Você diz: 'onde está fulano e sicrano?'", disse ele. "E daí você fica sabendo que 'ah, ele teve um ataque cardíaco e morreu', ou 'ele está com câncer'."

Em 2002, Goldy correu os 100 metros com um centenário chamado Everett Hosack. Goldy disse que quando eles chegaram em suas raias, ele disse a Hosack, que morreu em 2004, "Everett, é melhor você descer aqui e começar essa corrida."

"Ele disse: 'Olha, se eu descer aí, eu nunca me levanto de novo'", disse Goldy.

Mesmo com a camaradagem, entretanto, há uma desconfiança ocasional. Tom Rice, 81, disse que ficou desapontado ao ver alguns colegas com aumento muscular suspeito.

"Eu disse, como isso é ridículo - eles devem estar tomando alguma coisa", disse Rice, que toma Zocor para o colesterol alto e hidroclorotiazida para pressão alta, nenhum dos dois é proibido.

"Não consigo nem imaginar isso nessa idade", disse ele. "Não são as Olimpíadas. Os caras ficam tão malucos que querem tomar remédios para destruir sua saúde para ganhar uma medalha que é um pouco melhor do que o que eles poderiam ganhar."

Mesmo para os atletas que não tomam nada, o objetivo é ultrapassar o que as pessoas esperam de seus corpos envelhecidos. Depois de bater o recorde para sua faixa etária nos 400 metros em 3 minutos e 20 segundos nos campeonatos regionais em East Stroudsburg, Pensilvânia, em 27 de junho - Michael Johnson tem o recorde mundial em 43,18 segundos - Levine estava exausto e exultante.

"Tudo o que eu podia fazer, eu fiz", disse. "Toda força que eu tinha, todo esforço mental. Na minha mente, se eu soubesse que havia uma possibilidade de morrer porque eu estava correndo ou forçando, acho que mesmo assim eu faria. É estupidez, mas acho que é verdade para muitos atletas."

Tradução: Eloise De Vylder

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