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26/08/2009

Questionamento de sexo de velocista enfurece sul-africanos

The New York Times
Barry Bearak
Em Johannesburgo (África do Sul)
Para muitos sul-africanos, a confusão internacional gerada quando quiseram determinar se Caster Semenya seria demasiadamente masculina para competir em provas de atletismo feminino tem sido uma afronta a todo o povo daqui, como se um mundo insensível desejasse espiar o que há sob as roupas de baixo do país e avaliar aquilo que vê.

Alguns comentaristas acharam a questão tão humilhante que compararam as agruras de Semenya àquelas de Saartjie Baartman, uma mulher africana levada para a Europa no início do século 19 e exibida como um animal selvagem sob o nome de Vênus Hotentote. Cientistas escrutinaram os órgãos genitais dela.
  • Joao Silva/The New York Times

    Semenya, uma jovem de 18 anos musculosa
    e de voz grossa, teve a sexualidade questionada



Semenya retornou de Berlim para casa na terça-feira (25/08). Na capital alemã, na quarta-feira passada, ela ganhou facilmente a corrida de 800 metros no campeonato mundial de atletismo. A vitória ocorreu apenas horas após uma autoridade internacional do esporte ter afirmado que Semenya, uma jovem de 18 anos musculosa e de voz grossa, precisaria ser submetida a um exame para determinação de sexo, a fim de confirmar se ela estava qualificada para participar do evento.

Desde então, ela tornou-se uma heroína nacional e a sua história - de uma garota pobre de uma vila remota - virou uma fonte de inspiração.
Mais de mil pessoas a saudaram no aeroporto principal de Johannesburgo.
Muitos levavam cartazes dizendo: "A Nossa Garota Dourada" ou "Simplesmente a Melhor". Enquanto aguardava, a multidão cantou músicas sobre a luta pela libertação da África do Sul e dançou ao som de um tambor.

Horas depois, uma escolta de motocicletas liderou o comboio com a equipe de atletismo até a casa de hóspedes presidencial em Pretória. Semenya, usando trajes de atletismo e com a sua medalha de ouro pendurada no pescoço, caminhou ao lado de Jacob Zuma, o líder do país, para falar com a mídia.

A corredora não tinha muito a dizer, restringindo os seus comentários à corrida que venceu: "Eu assumi a liderança nos quatrocentos metros e as liquidei. Elas não conseguiram me acompanhar. Eu comemorei nos últimos 200 metros porque sabia que ia vencer".

Zuma, falando por uma nação indignada, foi contundente nas suas colocações. Ele disse que o governo redigiu uma carta endereçada à Associação Internacional de Federações de Atletismo, o órgão que controla o esporte, "expressando desapontamento" com a maneira como as coisas foram feitas.

Geralmente, durante uma investigação da associação, o atleta investigado desfruta do anonimato. "Uma coisa é procurar determinar se um atleta teve ou não uma vantagem sobre os outros", afirmou Zuma. "Mas outra coisa é humilhar publicamente uma atleta honesta, profissional e competente".

Lamine Diack, presidente da Associação Internacional de Federações de Atletismo, admitiu que a confidencialidade foi desrespeitada. Ele disse que o fato é "lamentável" e pediu a abertura de um inquérito. Mas o fato de ele ter admitido o erro não reduziu a indignação.

A África do Sul é o país mais rico do continente. Traumatizado pelo apartheid, o país é atualmente uma democracia jovem que, sob muitos aspectos, procura encontrar o seu ponto de equilíbrio. O governo é ultra-sensível a críticas. No ano que vem, o país sediará a Copa do Mundo de Futebol, a primeira realizada na África. O povo daqui fala frequentemente como se o resto do mundo - especialmente o Ocidente - desejasse que o evento fracassasse, confirmando dessa forma todos os preconceitos negativos.

De forma similar, os problemas enfrentados por Semenya são vistos como mais uma tentativa de degradar o sucesso africano. Denúncias de racismo foram feitas mais uma vez durante a recepção de boas vindas à atleta, um evento que parecia ser mais uma festa coreografada pelos políticos profissionais do que uma explosão espontânea de entusiasmo por parte dos fãs do esporte. Grande parte da multidão presente no aeroporto foi transportada de ônibus por membros do partido governista, o Congresso Nacional Africano. Outros partidos políticos enviaram contingentes menores.

Uma comemoração adicional foi feita no pátio de estacionamento de um aeroporto. Semenya tinha pouco a dizer do palanque, a não ser, "Oi, pessoal". Mas Julius Malema, o líder da liga jovem do Congresso Nacional Africano, fez uma observação sobre a composição étnica da multidão.
"Onde estão os sul-africanos brancos para receber Caster?", questionou ele.

Uma questão paralela envolvendo essa polêmica tem sido o jogo de palpites no sentido de determinar quem reclamou de Semenya junto à associação. Reportagens de jornais responsabilizaram australianos não identificados. Mas, na terça-feira, Leonard Chuene, o presidente de Federação de Atletismo da África do Sul, alegou que indícios secretos demonstram que o acusador é da África do Sul, e Malema acrescentou que trata-se de "uma instituição de mídia".

Chuene, que fiscaliza o programa de atletismo do país, tem sido a principal voz a desafiar a associação internacional. Ele renunciou ao seu cargo na diretoria do órgão devido à questão. "Nós não permitiremos que europeus definam e descrevam os nossos filhos", disse ele, acrescentando que a África do Sul não cooperará com nenhum teste de sexo feito por "alguma universidade estúpida em qualquer lugar".

"Os únicos cientistas nos quais eu acredito são os pais desta garota", disparou Chuene.

Na semana passada, os sul-africanos pareciam encarar o problema com estupefação. Foi sugerido que dever-se-ia simplesmente examinar a certidão de nascimento da moça. Ou fazer uma "visita supervisionada" com ela ao banheiro. Ou perguntar à mãe dela. Ou ao pai. Ou então a alguém como a sua tia, Johanna Lamola, que disse: "Eu sei o que Caster tem. Fui babá dela. Eu troquei as suas fraldas".

Somente nos últimos dias a mídia passou a falar de genes, hormônios e todas as ambiguidades que às vezes estão envolvidas na determinação de sexo. Os exames prescritos pela associação internacional para Semenya envolvem relatórios feitos por um ginecologista, um endocrinologista, um psicólogo e outros profissionais.

O exame para a determinação do gênero de atletas surgiu na década de 1960, quando a União Soviética e outros países comunistas eram suspeitos de inscrever homens nas provas femininas. No início, os médicos simplesmente examinavam os corpos nus. Mas logo exames de cromossomo começaram a ser utilizados, à vezes gerando evidências que contradiziam o exame visual. A corredora polonesa Ewa Klobukowska passou em um exame de corpo nu, mas a seguir foi proibida de competir em 1967 quando o material genético dela contou uma história diferente.

Semenya, que estuda na Universidade de Pretória, estaria "traumatizada"
pelas dúvidas quanto ao seu sexo. Mas anteriormente já houve suspeitas de que ela seria homem. "Os garotos mexiam com ela o tempo todo", diz a sua tia-avó, Martina Mpati. "Algumas vezes ela precisou bater neles".

Semenya é da vila de Ga-Masehlong, na província de Limpopo. Assim como outras garotas, ela deveria catar lenha no mato assim que o dia raiasse. Mas, em vez disso, ela saía para jogar futebol com os garotos.

Na escola secundária, Semenya concentrou-se em correr. O diretor da escola disse ao jornal sul-africano "The Star" que, em algumas provas de corrida, as outras equipes exigiam provas de que Semenya, com o seu físico masculino, era de fato mulher. "Mas todas às vezes em que eles retornavam do banheiro, ela era liberada e a competição recomeçava", diz o diretor.

Tradução: UOL

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