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28/08/2009

Com guerra e família deixadas para trás, jovens afegãos buscam a vida na Europa

The New York Times
Caroline Brothers
Em Paris (França)
Em uma fila de sopa do Exército da Salvação em Paris, um garoto afegão de fala mansa contou recentemente a história de como foi parar na Europa, sozinho.

O menino, que dizia ter 15 anos, mas parecia mais jovem, contou como sua família deixou o Afeganistão após sua mãe ter perdido sua perna em uma explosão, em 2004. Eles passaram três anos no Irã, onde ele frequentou a escola pela primeira vez, aprendendo inglês e descobrindo a Internet. Após seu pai ter sofrido uma lesão nas costas que dificultava o trabalho, o menino, que se recusou a dizer seu nome, seguiu na direção oeste.
  • AP Photo/Kevin Frayer

    Fugindo dos horrores da guerra, milhares de meninos afegãos estão ingressando na Europa


Ele passou dois meses trabalhando turnos de 11 horas em uma confecção em Istambul, ele disse. Ele então conseguiu entrar ilegalmente na Grécia, onde foi forçado a trabalhar em uma fazenda de batatas e cebolas perto de Agros, por nove meses, quando finalmente escapou na traseira de um caminhão. Ele chegou a Paris de trem, após quase um ano na estrada.

"Eu quero ir à escola", ele disse em inglês. "Eu gostaria de ser se pudesse - parece pedir muito - um engenheiro de computação."

Milhares de meninos afegãos solitários estão ingressando na Europa, uma tendência que tem acelerado nos últimos dois anos, à medida que as condições para os refugiados afegãos se tornam mais difíceis em países como Irã e Paquistão. Apesar de alguns terem apenas 12 anos, a maioria é composta de adolescentes à procura de educação e um futuro impossível em seu próprio país, que ainda está lutando com a pobreza e violência oito anos após a queda do governo do Taleban.

Os meninos representam um desafio para os países europeus, muitos dos quais com tropas enviadas para combater no Afeganistão, mas cujas populações questionam o argumento para a guerra. Apesar de cada país ter a obrigação segundo a lei nacional e internacional de prover suas necessidades, o custo de fazê-lo é outro problema para um continente que já lida com dezenas de milhares de imigrantes.

Na Itália, 24 adolescentes afegãos foram descobertos dormindo em um esgoto em Roma no primeiro semestre, e no ano passado dois adolescentes morreram em portos italianos - um sob um reboque em Veneza e outro dentro de um contêiner de carga em Ancona. Na Grécia, que diz estar sobrecarregada por pessoas de muitos países que pedem asilo, não há sistema de lares provisórios para menores estrangeiros; apenas 300 puderam ser acomodados em todo o país, disseram as autoridades.

E em Paris neste ano, os afegãos pela primeira vez superaram em número os africanos sub-Saara como maior grupo de menores estrangeiros desacompanhados a pedirem auxílio aos serviços de proteção à criança, disse Charlotte Aveline, uma alta conselheira para proteção à criança da prefeitura.

"Alguns chegam muito surrados, muito cansados, mas se ficam aqui por apenas uma semana, eles rapidamente voltam a ser adolescentes de novo", disse Jean-Michel Centres, da Exiles10, uma organização de cidadãos que trabalha principalmente com imigrantes africanos que se reúnem ao redor da Praça Villemin, perto do Gare de l'Est.

"Primeiro eles perguntam onde precisam ir para obter documentos, então onde podem ir à escola e, depois disso, onde podem arrumar um emprego", disse Centres.

A União Europeia não mantém estatística do número de crianças estrangeiras que perambulam pela Europa sem suas famílias, e os números dos grupos de ajuda e agências governamentais variam enormemente. Mas os pedidos de asilo por menores afegãos desacompanhados sugerem que há milhares pela Europa. Os pedidos fornecem uma base, dizem os especialistas, porque um número muito maior de jovens não pede o status de refugiado.

Blanche Tax, uma alta funcionária do escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, em Bruxelas, disse que, no ano passado, 3.090 menores afegãos pediram asilo na Áustria, Dinamarca, Noruega, Reino Unido, Suécia e Alemanha - os países da União Europeia onde os números cresceram mais acentuadamente - mais que o dobro dos 1.489 pedidos nesses países em 2007.

"O Afeganistão está sofrendo uma hemorragia de seus jovens para a Europa", disse Pierre Henry, diretor da France Terre d'Asile, uma organização que trabalha com a União Europeia, a agência de refugiados da ONU e com o governo francês em assuntos de asilo.

Os cinco meninos afegãos entrevistados para este artigo disseram ter sido explorados como mão-de-obra infantil na Grécia e Turquia e de terem escapado de agressão policial. Nenhum informou seu nome para poder falar mais livremente.

Um jovem de 17 anos da cidade afegã de Ghazni, disse que a polícia tentou repetidas vezes retirar a ele e outro garoto dos caminhões no porto de Patras, Grécia, onde as autoridades destruíram um acampamento de invasores afegãos em 12 de julho.

Assim que chegaram à França, os meninos enfrentaram mais dificuldades. A polícia de Paris deu início a batidas noturnas para impedir os imigrantes afegãos de dormirem na Praça Villemin. O menino de 15 anos foi colocado em um hotel barato, enquanto outros foram colocados em um abrigo temporário em uma estação de metrô desativada. Outros encontraram seu próprio abrigo sob pontes e ao lado de um canal.

A moradia, financiada pelo Estado, é administrada pela France Terre d'Asile. O grupo ajuda a guiar os meninos pelo processo de requisição de assistência da agência francesa de proteção à criança, registra seus nomes e lhes dá aulas de francês.

"Nós tivemos algumas histórias muito boas de sucesso", disse Aveline, a conselheira da prefeitura.

Os meninos entrevistados para este artigo disseram que estavam no limbo, sonhando em ir à escola e ter uma vida normal.

Um adolescente que esteve em Paris por dois meses estava profundamente preocupado com o que ainda o espera. "Como posso ter um futuro?" ele perguntou. "Eu já tenho 15 anos. Estou por minha própria conta. O que posso fazer?"

Mas poucos dias depois, ele estava cheio de empolgação, porque a France Terre d'Asile o levou a uma piscina, a primeira vez em que esteve em uma. Ele também estava tendo aulas de francês. De seu bolso ele tirou um lápis e papel com imagens de frutas. "Eu gosto de bananas", ele disse em francês. "Eu gosto de maçãs."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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