UOL Notícias Internacional
 

29/08/2009

Na campanha eleitoral japonesa, as questões econômicas ficam em 2º plano

The New York Times
Martin Fackler
Em Tóquio

Enquanto os japoneses parecem prestes a colocar um fim à quase hegemonia no poder do Partido Democrático Liberal, neste domingo, a campanha eleitoral surpreendentemente deu pouca atenção aos problemas urgentes que ameaçam a segunda maior economia do mundo.

Raio-X do Japão

  • Arte UOL
  • Nome oficial: Japão
    Capital: Tóquio
    Divisão política: 47 províncias
    Línguas: japonês
    Religião: xintoísmo 83,9%, budismo 71,4%, cristianismo 2%
    Natureza do Estado: parlamentar, com monarquia constitucional
    Área: 377.915 km²
    População: 127.078.679 de pessoas
    Grupos étnicos: japoneses 98,5%, coreanos 0,5%, chineses 0,4%, outros 0,6%
    Economia: terceira maior economia do mundo, seu PIB soma US$ 4,348 trilhões; a dívida externa equivale a 170% deste montante
    Taxa de desemprego: 4,2% (em 2008)

  • Fonte: CIA - The World Factbook


Os desafios do Japão são enormes e cada vez mais graves. O país ainda está à procura de uma nova receita para o crescimento, quase duas décadas após seu modelo movido pelas exportações ter pisado no freio. E agora também precisa encontrar um meio de pagar por uma população que esta envelhecendo rapidamente, ao passo que conta com uma dívida pública esmagadora que, em breve, se tornará duas vezes maior que sua economia de US$ 5 trilhões.

A fraqueza do Japão foi exposta durante a atual crise financeira, quando sua economia caiu mais do que outras grandes economias - encolhendo cerca de 11,7% no primeiro trimestre. O governo do primeiro-ministro Taro Aso respondeu à crise com uma dose de gastos públicos à moda antiga, no valor de US$ 270 bilhões, que até agora só produziram uma pequena recuperação, dizem os economistas.

O Partido Democrático, o principal da oposição, que as pesquisas indicam que colocará um fim a meio século de governo quase ininterrupto dos liberais, não oferece muito mais que soluções magras para os grandes problemas do Japão. Nenhum partido propôs soluções politicamente difíceis, como permitir mais imigrantes - um assunto indesejado no racialmente homogêneo Japão - ou aumento de impostos para ajudar a reduzir o grande fardo da dívida pública.

"Ambos os partidos estão se esquivando das questões difíceis", disse Takatoshi Ito, um professor de política econômica da Universidade de Tóquio. "O que eles estão apresentando é um band-aid para esses problemas, não a cirurgia real que o Japão necessita."

É claro, é difícil para políticos de qualquer país defender medidas dolorosas, particularmente durante uma eleição. Mas com as eleições de domingo oferecendo aos japoneses sua primeira escolha verdadeira na memória entre partidos concorrentes, o nível de debate sobre os assuntos urgentes tem sido decepcionantemente baixo, disseram analistas políticos e muitos eleitores regulares.

Os dois partidos parecem estar competindo para se distanciar das políticas de governo do ex-primeiro-ministro Junichiro Koizumi, talvez o líder mais dinâmico que o Japão teve nos últimos anos. Sua abordagem agora recebe a culpa por ter prejudicado a segurança do emprego e agravado as desigualdades sociais. Os dois partidos dizem preferir medidas que escorem a rede de bem-estar social do Japão e estão oferecendo novos gastos generosos para atrair os eleitores.

"É improvável que algum dos partidos tenha uma filosofia econômica, fora que vamos gastar mais dinheiro", disse Robert Feldman, um economista em Tóquio do Morgan Stanley.

Os democratas lideram a investida com um manifesto de 23 páginas prometendo itens variados como estradas sem pedágio e renda mínima para os produtores rurais. Uma de suas propostas de gastos, o pagamento mensal às famílias de US$ 270 em dinheiro por filho, foi recebida favoravelmente pelos economistas. Ela visa encorajar uma maior natalidade em um país que enfrenta uma população em encolhimento e uma força de trabalho que está envelhecendo.

Os liberais que estão no poder atacam as promessas da oposição como irresponsáveis, apesar de seu próprio manifesto oferecer basicamente o mesmo. Os democratas insistem que podem pagar pelos novos gastos, que deverão custar US$ 177 bilhões por ano, cortando gastos eleitoreiros e outros desperdícios.

Ainda assim, a crescente dívida nacional continua sendo um grande obstáculo ao crescimento e aos gastos que nenhum partido parece disposto a enfrentar. Até o momento, o país tem financiado sua dívida crescente, que é várias vezes maior que a dívida pública americana como percentual do produto interno bruto, explorando seus US$ 15 trilhões em poupanças pessoais, o produto da alta taxa de poupança e imensos superávits comerciais.

Mas quando ele finalmente queimar toda a pilha de dinheiro doméstico, o Japão poderá descobrir que os investidores estrangeiros exigem taxas de juros nas alturas, ou evitarão comprar títulos da dívida japonesa.

"Isso poderia ser um Armageddon financeiro", disse Naoki Iizuka, um economista sênior da Mizuho Securities, em Tóquio. "Os investidores estrangeiros poderiam considerar os títulos do governo japonês como papéis inúteis."

Iizuka diz que o Japão tem no máximo mais cinco anos para colocar sua casa fiscal em ordem, antes de enfrentar a perspectiva de uma fuga séria de capital.

O Japão tem que fazer isso ao mesmo tempo em que confronta um dos piores problemas demográficos do mundo. A baixa taxa de natalidade significa que haverá menos contribuintes em idade de trabalho para sustentar um número crescente de aposentados. Em 2005, havia três pessoas trabalhando para cada aposentado; essa relação cairá para 1,8 por aposentado em 2040, segundo o Ministério da Saúde.

Soluções existem, mas são politicamente impopulares, dizem economistas e analistas políticos. Além da imigração, o Japão poderia permitir que seus cidadãos de vida invejavelmente longa trabalhassem além da atual idade de aposentadoria, que ainda é de 60 anos em muitas grandes empresas. Outra abordagem seria aumentar a produtividade, permitindo que um número menor de trabalhadores produzisse mais riqueza.

Este último passa provavelmente exigiria a abertura da economia ainda ordeira do Japão a uma maior concorrência, um assunto sobre o qual nenhum partido quer falar no atual clima anti-Koizumi. Os economistas dizem que burocratas poderosos e grupos industriais reprimem o tipo de empreendedorismo jovem necessário para criar novas empresas.

Os economistas culpam esse sistema esclerosado por 12 anos de crescimento perdido: as estatísticas do Escritório do Gabinete mostram que a economia do Japão tinha o mesmo tamanho no ano passado que em 1996. Durante esse mesmo período, a economia norte-americana cresceu mais de 50%.

Mas a atual eleição pode oferecer um grande benefício econômico, se provocar uma troca da guarda política do Japão. A saída dos liberais removeria o maior defensor dos interesses entrincheirados do Japão e abriria a porta para recém-chegados.

"Este seria o fim do velho sistema", disse Iizuka. "Isso possibilitaria as mudanças que todos nós sabemos que o Japão precisa."

Tradução: George El Khouri Andolfato



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