UOL Notícias Internacional
 

29/08/2009

Taleban usa cidade paquistanesa como centro para o crime organizado

The New York Times
Sabrina Tavernise*
Em Karachi, Paquistão
Combatentes do Taleban há muito usam esta cidade de 17 milhões de habitantes como local para se reagrupar, contrabandear armas e até mesmo arrumar empregos sazonais. Mas recentemente, eles descobriram outra forma de obter dinheiro rápido: o crime organizado.

A polícia daqui diz que o Taleban, trabalhando com grupos criminosos, está usando redes ao estilo da máfia para sequestrar, roubar bancos e praticar extorsão, gerando milhões de dólares para a insurreição militante no noroeste do Paquistão.

"Há uma enorme evidência de que se trata de uma política organizada", disse Dost Ali Baloch, inspetor-geral assistente da polícia de Karachi.

A criminalidade associada aos jihadistas despontou em outras cidades paquistanesas, como Lahore. Mas Karachi, o sistema nervoso central da economia do Paquistão, lar de seus empresários mais ricos, é o centro. Ela esteve livre dos atentados a bomba que atormentaram outras grandes cidades paquistanesas neste ano, o que algumas autoridades acreditam se tratar de uma estratégia calculada.

"Este é o local onde se escondem, onde levantam dinheiro", disse uma autoridade de contraterrorismo em Karachi. "Eles não querem perturbar isso."

O risco não é de uma tomada pelo Taleban - Karachi é dirigida por um poderoso partido secular que despreza o Taleban - mas de um santuário urbano para financiar e equipar a insurreição a partir deste porto no sul.
  • Rizwan Tabassum/AFP - 07.08.2009

    Família paquistanesa é deslocada em operação contra a ofensiva do Taleban no Paquistão


Essas redes criminosas ajudaram a elevar o número de sequestros no Paquistão no ano passado aos mais altos em uma década, segundo a polícia, e também geraram um pico em assaltos a banco. Acredita-se que 80% dos assaltos a banco estejam relacionados à insurreição e outros grupos militantes, disseram as autoridades.

"O Taleban é um grupo de ladrões", disse o proprietário de uma casa de câmbio daqui, que teve quase US$ 2 milhões roubados no ano passado e que não quis se identificar, por temer mais problemas. "Se fosse Deus, eles roubariam Dele também."

As autoridades paquistanesas de contraterrorismo disseram acreditar que sequestros visando pagamento de resgate podiam ser a maior fonte de receita do alto comandante do Taleban no país, Baitullah Mehsud, antes de ser morto neste mês em um ataque americano com aeronave não-tripulada.

No ano passado, a rede de Mehsud pode ter feito até 70 reféns, disse uma autoridade de contraterrorismo paquistanesa, que não disse seu nome por motivos de protocolo. O controle sobre estas redes criminosas e o dinheiro que geram pode estar no centro do que parece ser uma luta pela sucessão de Mehsud.

"O mundo acha que isso envolve religião, mas é um erro", disse Sharfuddin Memon, diretor em Karachi do Comitê de Ligação entre os Cidadãos e a Polícia, um grupo dirigido pela comunidade empresarial que monitora a criminalidade. "Trata-se de poder e dinheiro. Fé não tem nada a ver com isso."

Os sequestradores que no ano passado levaram Shawkat Afridi, um empresário proeminente, não cometeram nenhum erro, disse a família. Uma pessoa que telefonou para transmitir suas exigências alternou uma variedade impressionante de sotaques. Primeiro ele soava como afegão. Depois como um homem da tribo Mehsud. Após mais de 50 telefonemas ao longo de cinco meses, a família de Afridi finalmente concordou em pagar US$ 2,5 milhões pela sua libertação.

"Nós entendemos que não se tratava de um sequestrador comum", disse Gul Afridi, o irmão da vítima. "Não havia escapatória."

Geralmente, nesses casos, o grupo, que a polícia diz ter relação com o Taleban, escolhe seus alvos cuidadosamente: os Afridis são empresários ricos que fornecem combustível para as forças da Otan no Afeganistão. Outros casos recentes incluem um proeminente distribuidor de cinema, o proprietário de uma tecelagem e o gerente de uma fábrica de canos.

Apesar de apenas 10% dos sequestros estarem ligados ao Taleban, segundo a polícia, os resgates resultantes - geralmente entre US$ 60 mil e US$ 250 mil cada - rendem mais dinheiro do que todos os outros casos combinados.

"Eles são verdadeiros profissionais", disse Ahmed Chinoy, um fabricante têxtil que é vice-chefe do comitê dos cidadãos, que foi criado em 1989 pela comunidade empresarial para proteção contra o avanço da criminalidade. "Eles sabem com certeza que aqueles que eles sequestram podem pagar."

O mesmo vale para os assaltos a banco. Raja Umer Khattab, um alto oficial de polícia da Unidade de Investigações Especiais de Karachi, notou algo estranho no início do ano passado. Os assaltantes tinham barbas e armas maiores do que as habituais e, diferente dos assaltantes comuns, tendiam a matar os seguranças. Eles também levavam os sistemas de vigilância dos bancos juntamente com o dinheiro.

"Nós começamos a ver um tipo diferente de crime, mais profissional, mais agressivo", disse em uma entrevista. "Nós percebemos que esses criminosos eram associados aos jihadistas."

Khattab cavou mais fundo. Esses criminosos trocavam cartões SIM de celulares como se fossem passagens de ônibus e tinham uma palavra em código para cada bairro. Em agosto de 2008, ele realizou uma série de prisões e uma bomba explodiu sob seu carro. Cicatrizes de estilhaços ainda marcam seu pescoço.

Um recente afluxo de pessoas em Karachi, deslocadas pela ofensiva militar no noroeste, expandiu as oportunidades para o Taleban. Muitos são pashtuns, o grupo étnico mais estreitamente associado ao Taleban. Incitada pelos políticos locais, as tensões étnicas resultaram em confrontos que mataram dezenas no primeiro semestre em Karachi. As autoridades disseram que os crimes ligados ao Taleban caíram bastante desde então, com as prisões dos lídere, o que ajudou a quebrar as redes.

Mas muitas das redes resistem, cortando a cidade como uma teia, com laços fortes com os santuários do Taleban no noroeste.

No caso do assalto à casa de câmbio no ano passado, dois seguranças, que eram da tribo Mehsud, foram os autores do crime. Os proprietários da casa de câmbio acreditavam que os homens trabalhavam diretamente para Mehsud. Eles eram analfabetos e foi dito a eles que a casa recebia dinheiro da CIA, que seus dólares eram a prova.

"Eles sofreram lavagem cerebral", disse um dos proprietários, que pediu para não ser identificado por temer retaliação. "Foi dito a eles: 'Se fizerem isso, será bom para o Islã'."

De muitas formas, são os pashtuns aqueles que mais sofrem. Os militantes extorquem dinheiro desde os maiores comerciantes de petróleo até os menores empregados domésticos, e os pashtuns pouco podem fazer para resistir, porque suas famílias permanecem em áreas controladas pelos militantes.

Shahid, um serviçal tímido de 22 anos em Karachi, se contorceu ao descrever como metade de seu salário mensal de US$ 100 vai para o comandante militante local em sua aldeia, perto da fronteira afegã. Ele não quis que seu nome completo fosse usado por temer retaliação do Taleban. O comandante já foi um motorista de ônibus, mas se tornou rico em seu novo posto, já possuindo mais de 200 veículos utilitários esportivos, disse Shahid.

Reagir tem consequências: quatro que combateram recentemente a extorsão apareceram mortos, disse Shahid. Não foi permitido que seus corpos fossem enterrados na aldeia, um sinal de vergonha.

"Se damos, estamos encrencados, se não damos, estamos encrencados", disse Abzal Khan Mehsud, um membro da Associação dos Proprietários de Caminhões-Tanque de Petróleo, que disse não poder retornar a sua aldeia há anos por temer os militantes que a controlam.

Em uma área industrial no norte de Karachi, empresários resolveram tratar do assunto por conta própria. Idrees Gigi, um fabricante têxtil, está construindo um alto muro de concreto em torno de sua propriedade. Do outro lado fica Sorabgoth, um bairro pobre pashtun.

A esperança é de que o muro ajude a manter o crime de fora de sua fábrica, só que mais precauções de segurança não tratam do problema real, que Gigi acredita ser a pobreza. Partes de Sorabgoth carecem de estradas e água corrente.

Em um sábado recente, jovens contornaram o muro de Gigi cruzando um rio de esgoto vermelho por uma ponte feita de calhas de drenagem. Ele dá emprego a milhares de moradores, construiu quatro escolas, mas não é suficiente.

"Quanto pior está a economia, mais jihadistas ela criará", disse Gigi. "Esta é uma guerra por dinheiro."

*Contribuíram Ismail Khan, em Peshawar, Paquistão, e Dania Khan, em Karachi

Tradução: George El Khouri Andolfato

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