UOL Notícias Internacional
 

30/08/2009

EUA dizem que Paquistão alterou mísseis vendidos para defesa

The New York Times
Eric Schmitt e David E. Sanger
Em Washington (EUA)
Os Estados Unidos acusaram o Paquistão de modificar ilegalmente mísseis feitos nos EUA para expandir sua capacidade de atingir alvos terrestres, numa ameaça potencial à Índia, de acordo com altos funcionários do governo e autoridades do Congresso.

A acusação, que desencadeou um novo surto de tensões entre os Estados Unidos e o Paquistão, foi feita no final de junho num protesto diplomático sigiloso endereçado ao primeiro-ministro Yusuf Raza Gilani e outras altas autoridades paquistanesas.

A acusação vem à tona num momento particularmente delicado, quando o governo está pedindo ao Congresso a aprovação de US$ 7,5 bilhões (cerca de R$ 14 bilhões) em ajuda para o Paquistão durante os próximos cinco anos, e quando Washington está pressionando o relutante exército paquistanês para concentrar sua atenção na luta contra o Taleban, em vez de expandir suas forças convencionais e nucleares contra a Índia.

Apesar de os funcionários norte-americanos dizerem que a arma em questão é convencional - baseada nos mísseis antinavios Harpoon, que foram vendidos ao Paquistão pelo governo Reagan como uma arma de defesa durante a Guerra Fria -, as entrelinhas da disputa revelam uma preocupação crescente em relação à velocidade com a qual o Paquistão está desenvolvendo novas gerações de armas nucleares e convencionais.

"Há um esforço concentrado para fazer com que esses caras desacelerem", disse um alto funcionário. "As energias estão sendo mal dirigidas."

O que está em pauta é a detecção, por parte das agências de inteligência norte-americanas, de um teste de míssil suspeito em 23 de abril - um teste que nunca foi anunciado pelos paquistaneses - que pareceu dar ao país uma nova arma ofensiva.

Autoridades do Exército e dos serviços de inteligência dos EUA suspeitam que o Paquistão tenha modificado os mísseis Harpoon, numa iniciativa que seria uma violação do Ato de Controle de Exportação de Armas. O Paquistão negou a acusação, dizendo que desenvolveu o míssil por conta própria. Os Estados Unidos também acusaram o Paquistão de modificar o avião P-3C, fabricado nos EUA, para missões de ataque terrestre, outra violação da lei norte-americana contra a qual o governo Obama protestou.

Qualquer que seja a origem desses mísseis, eles representam uma aquisição significativa para o arsenal paquistanês contra a Índia. Eles permitiriam à pequena marinha do Paquistão realizar ataques contra alvos terrestres, complementando o arsenal considerável de mísseis terrestres que o Paquistão desenvolveu. Isso, por sua vez, poderia incentivar outra rodada da corrida armamentista contra a Índia, que os Estados Unidos vêm tentando impedir sem sucesso.

"Nossa maior preocupação é que isso seja uma modificação desautorizada de uma ferramenta de defesa marítima antinavios, transformada em míssil ofensivo de ataque em terra", disse outro alto funcionário do governo, que também falou sob condição de anonimato por que o assunto envolve informações confidenciais.

"O potencial para a proliferação e as violações das finalidades de uso são coisas que nós observamos bem de perto", acrescentou o funcionário. "Quando temos preocupações, agimos agressivamente".

Um alto funcionário paquistanês, também falando sob condição de anonimato porque as relações com Washington têm sido delicadas e altamente confidenciais, disse que acusação norte-americana era "incorreta". O funcionário disse que o míssil testado foi desenvolvido pelo Paquistão, da mesma forma que o país havia modificado modelos norte-coreanos para construir uma variedade de mísseis de terra que poderiam atacar a Índia. Ele disse que o Paquistão havia tomado uma iniciativa incomum ao concordar em permitir que funcionários norte-americanos inspecionassem o arsenal de mísseis Harpoon do país para provar que não violou a lei, uma medida que os oficiais do governo elogiaram. Alguns especialistas também são céticos em relação às acusações norte-americanas.

Rob Hewson, editor da Jane's Air-Launched Weapons, um anuário e serviço de informações na internet, disse que o míssil Harpoon não tinha o alcance necessário para um míssil de ataque terrestre. Além disso, segundo ele, o Paquistão poderia comprar tecnologia de mísseis mais moderna de países como a China ou África do Sul.

"Eles não têm necessidade de adaptar antigos modelos norte-americanos", disse Hewson numa entrevista por telefone. "Eles são mais sofisticados que isso". Hewson disse que o novo míssil de navio-para-terra que o Paquistão estava testando fazia parte de um esforço orquestrado pelo país para desenvolver uma variedade de mísseis convencionais que poderiam ser lançados do ar, da terra ou do mar para combater o arsenal bastante superior de mísseis convencionais da Índia.

A disputa evidencia o nível de desconfiança que ainda existe entre os Estados Unidos e os militares do Paquistão, embora funcionários norte-americanos gostem de retratar o país como um parceiro militar cada vez mais confiável no esforço para eliminar as forças do Taleban e da Al Qaeda no território paquistanês. Um elemento central da iniciativa norte-americana é fazer com que os militares se concentrem novamente na ameaça interna que o país enfrenta, e não na ameaça que o país ainda acredita enfrentar em relação à Índia.

Autoridades paquistanesas insistiram que estão fazendo essa mudança. Mas os fatos continuam a apontar para altos investimentos em armas nucleares e convencionais que os especialistas dizem que não têm utilidade na batalha contra os insurgentes.

Ao longo dos anos, os Estados Unidos forneceram um total de 165 mísseis Harpoon para o Paquistão, incluindo 37 modelos antigos de armas que foram entregues entre 1985 e 1988, disse Charles Taylor, porta-voz da Agência de Cooperação para Defesa e Segurança.

O arsenal do país está se expandindo mais rápido do que o de que qualquer outra nação. Em maio, o Paquistão fez um teste de lançamento de míssil de médio alcance Babur, uma arma que, segundo os especialistas militares, pode potencialmente ser acoplada a uma ogiva nuclear. O teste foi realizado em 6 de maio, durante uma visita do presidente Asif Ali Zardari a Washington, mas não foi divulgado por autoridades paquistanesas até três dias depois do encontro terminar, para não atrapalhar as conversações. Apesar de ser tecnicamente possível equipar os mísseis Harpoons com pequenas armas nucleares, especialistas dizem que isso provavelmente não seria necessário.

Antes de o Congresso entrar no recesso de verão, funcionários do governo informaram legisladores importantes sobre o protesto contra o Paquistão. A disputa poderá provocar um atraso ou até mesmo impedir a aprovação da lei que prevê uma ajuda civil de US$ 7,5 bilhões (cerca de R$ 14 bilhões) para o Paquistão ao longo de cinco anos; os legisladores devem votar sobre o pacote de ajuda quando retornarem de seu recesso no mês que vem.

O projeto de lei é apoiado pelos senadores John Kerry de Massachusetts e Richard G. Lugar de Indiana, por líderes democratas e republicanos do Comitê de Relações Exteriores, assim como pelo congressista Howard L. Berman, democrata da Califórnia, que lidera o Comitê de Assuntos Estrangeiros da Câmara. Auxiliares do Congresso estão agora reconciliando as versões da lei na Câmara e no Senado.

Frederick Jones, porta-voz de Kerry, recusou-se a comentar os detalhes da disputa, citando sua natureza confidencial, mas sugeriu que o projeto de lei pendente sairia do Congresso "em poucas semanas" e ajudaria a reverter desacordos semelhantes no futuro. "Houve problema nas relações entre os EUA e o Paquistão no passado e continuará havendo no futuro", disse Jones numa declaração, notando que a legislação pendente daria ao presidente Barack Obama "novas ferramentas para lidar com um comportamento problemático."

Tradução: Eloise De Vylder

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