UOL Notícias Internacional
 

31/08/2009

Suspeito de manter jovem presa por 18 anos parecia mais desequilibrado nos últimos anos

The New York Times
Jesse McKinley e Carol Pogash
Em San Francisco (EUA)
Não havia dúvidas de que Phillip Garrido, um agressor sexual em prisão condicional, era conhecido há tempos por ser uma figura esquisita e às vezes atemorizante para seus vizinhos, colegas de trabalho e até pessoas que o consideravam como amigo.

As crianças eram alertadas para ficarem longe de sua casa, e os adultos que se aventuravam nas proximidades acabavam ouvindo mais do que desejavam sobre suas crenças ardentes e com freqüência pouco ortodoxas durante sermões improvisados na calçada.
  • AP

    Foto mostra Jaycee Lee Dugard, que desapareceu em 1991

  • AFP / CNN

    Imagem da CNN mostra casa onde foi encontrada Jaycee

  • Phillip e Nancy Garrido foram presos como suspeitos no caso

  • O padastro Carl Probyn exibe a foto de Jaycee Lee Dugard



Mas nos últimos anos, Garrido - que as autoridades dizem ter sequestrado, estuprado e mantido presa Jaycee Dugard durante 18 anos num terreno atrás de sua casa - parece que era ainda mais desequilibrado, tendo aparentemente postado mensagens confusas na internet que indicam delusões mais profundas.

Muitas delas apareceram num blog registrado no nome de Garrido, e eram cheias de referências a estratégias de controle mental por parte do governo e a algo que ele chamava de "transe cultural", segundo o qual "grandes quantidades de pessoas aceitaram algo como verdade."

"O Criador me deu a capacidade de falar a língua dos anjos", dizia uma mensagem de 14 de agosto, sob o título TheManWhoSpokeWithHisMind (OHomemQueFalavaComSuaMente). "Você também pode testemunhar o que o mundo acredita ser impossível de produzir. (sic)"

No sábado, oficiais de polícia continuaram as buscas na casa de Garrido no subúrbio de Antioch, próximo a Bay Area, procurando pistas tanto em relação ao caso de Dugard quanto a uma possível conexão com uma rede de nove assassinatos, ainda sem solução, de mulheres na região, que datam de até uma década atrás. Garrido e sua mulher, Nancy, enquanto isso, foram mantidos sob custódia sem fiança por mais de duas dúzias de acusações relacionadas ao sequestro de Dugard, que foi arrastada para dentro de um carro perto de sua casa em South Lake Tahoe em 1991.

Dugard, 29, foi repetidamente abusada sexualmente e teve duas filhas com Garrido, disseram as autoridades, enquanto foi mantida em cativeiro num abrigo de péssimas condições atrás da casa de Garrido, feito de tendas, casebres feitos à mão e chão de terra.

Ela se reencontrou com sua mãe e vários outros membros de sua família depois de uma série de acontecimentos desencadeados pela polícia do campus da Universidade da Califórnia, Berkeley, numa das várias interações que sugeriram que Garrido tinha pouco medo de sua captura.

De acordo com documentos e mensagens em seu website, fazia tempo que Garrido era atraído pelo campus de Berkeley, a cerca de 40 quilômetros a oeste de sua casa em Antioch, onde ele aparentemente quis dar aulas e "demonstrações ao vivo" de um "novo método que tinha potencial para ajudar as pessoas que ouvem vozes a possivelmente parar e reexaminar seus pensamentos antes de cometerem um ato violento contra si mesmas e/ou contra os outros."

Na segunda-feira, Garrido havia abordado novamente funcionários da universidade com o objetivo de realizar um evento religioso e oferecer literatura sobre esquizofrenia. Mas a polícia do campus achou esse comportamento suspeito, principalmente por causa das duas meninas que Garrido levava consigo. Agora se sabe que as garotas são suas filhas com Dugard, de 11 e 15 anos.

"Elas não pareciam bem", disse Lisa Campbell, gerente da unidade de polícia especial do campus, observando que as crianças estavam pálidas e introvertidas. Campbell contatou Allyson Jacobs, um oficial de patrulha do campus, que investigou Garrido e ficou sabendo de seu passado criminoso, incluindo condenações por estupro e sequestro em Nevada em meados dos anos 70.

(A agência de notícias Associated Press informou que Garrido, que usava uma tornozeleira com GPS que rastreava seus movimentos, também havia deixado cair documentos contendo passagens confusas no escritório do FBI em San Francisco na segunda-feira.)

Na terça-feira, Garrido e as meninas voltaram para o campus, e Jacobs, fingindo que ela dividia o escritório com Campbell, participou da reunião. Num determinado momento, as meninas mencionaram ter uma irmã mais velha em casa. E durante a entrevista com Garrido, ele falou abertamente que tinha sido condenado por sequestro e estupro mas desde então tinha mudado de vida e estava "fazendo o trabalho de Deus".

No dia seguinte, Jacobs procurou o oficial de condicional de Garrido para discutir suas preocupações, mencionando as crianças por acaso.

"Ele me interrompeu quando eu falei que ele trouxe as duas filhas", disse ela. "Ele falou: 'Ele não tem duas filhas.'"

"Aquilo me revirou o estômago", disse Jacobs.

Garrido depois trouxe as duas meninas, sua mulher e Dugard, que usava o nome de Alissa, para uma reunião com o oficial de condicional, que a questionou e eventualmente ficou sabendo sua verdadeira identidade.

Entretanto, o caso levantou uma série de questões sobre como Garrido, que tinha estado sob supervisão do Departamento de Correção e Reabilitação da Califórnia desde 1999, conseguiu esconder Dugard por quase duas décadas.

Na sexta-feira, o xerife do condado de Contra Costa, Warren E. Rupf, cuja jurisdição inclui Antioch, desculpou-se com a família de Dugard por terem aparentemente perdido as oportunidades para resolver o caso, incluindo visitas pelos oficiais do xerife à casa de Garrido em 2006 e 2008.

Também na sexta-feira, Gordon Hinkle, porta-voz do departamento de correções, disse que "nunca houve nenhuma indicação de que havia crianças naquela casa" apesar de inúmeras visitas feitas pelos oficiais de condicional.

Hinkle disse que não estava claro se a saúde mental de Garrido havia sido um tema de preocupação para seu oficial de condicional, mas disse que os aposentos em que Dugard era mantida presa ficavam bem escondidos atrás de uma cerca de 2,5 metros e muitas árvores.

Ainda assim, pessoas que conhecem Garrido dizem que havia inúmeras pistas de que sua vida se inclinava, talvez propositadamente, para uma revelação. Cheyvonne Molino havia usado os serviços de impressão de Garrido para seu ferro-velho durante vários anos, e recentemente o viram pregando numa barraca próxima ao ferro-velho.

Garrido disse a ela que havia criado um amplificador que ele acreditava ter qualidades de outro mundo, apesar de ela dizer que aquilo não parecia nada além de um aparelho para audição. Ele também disse a ela algo que mais tarde a deixou assustada.

"Ele falou: 'Vou abrir os segredos do passado'", lembra-se Molino.


Tradução: Eloise De Vylder

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