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02/09/2009

Maior desafio de jovem presa por 18 anos é mudar de família, dizem terapeutas

The New York Times
Benedict Carey
Jaycee Dugard sofreu abuso sexual, negligência e manipulação emocional a um grau difícil de imaginar, de acordo com as acusações no caso de sequestro. Terapeutas, contudo, dizem que o maior desafio diante de Dugard, que foi encontrada viva na semana passada após 18 anos em cativeiro, talvez seja mudar de família.
  • AP

    Foto mostra Jaycee Lee Dugard, que desapareceu em 1991

  • AFP / CNN

    Imagem da CNN mostra casa onde foi encontrada Jaycee

  • Phillip e Nancy Garrido foram presos como suspeitos no caso

  • O padastro Carl Probyn exibe a foto de Jaycee Lee Dugard



"Seu captor era seu principal relacionamento e pai de seus dois filhos; em algum nível, a separação talvez seja difícil para todos eles", disse Douglas F. Goldsmith, diretor executivo do Centro Infantil de Salt Lake City. Goldsmith acrescentou que a terapia "deve levar em conta que há três vítimas, não uma, e que estarão entrando em uma vida nova juntas".

Cerca de dois terços das crianças sequestradas ou violentadas sofrem de problemas mentais prolongados, em geral sintomas de estresse pós-traumático e depressão.

Estudos recentes revelaram que aproximadamente 80% das vítimas apresentam melhora significativa após três a quatro meses de terapia semanal centrada no trauma. Ainda assim, os especialistas acreditam que Dugard e seus dois filhos enfrentarão uma tarefa extraordinariamente complexa, com as informações disponíveis até agora.

Seu padrasto, Carl Probyn, diz que ela já expressou culpa por ter se associado ao homem que a sequestrou quando tinha 11 anos. Ela e seus filhos terão que aprender a confiar em sua primeira família, da qual foi tirada em 1991.

"Penso que é uma versão extrema de um fenômeno que de fato não é incomum: uma criança envolvida em um relacionamento de abuso quando jovem e, sem conhecer algo diferente, o aceita como sua vida, adaptando-se da melhor forma que pode. Certamente que cada caso é diferente, mas agora temos algumas intervenções comprovadas que podem ser usadas", disse Lucy Berliner, diretora do programa de trauma do Centro Médico Harborview em Seattle.

Os terapeutas dizem que a transição de Dugard para uma nova vida deve levar certo tempo, talvez anos. Elisabeth Fritzl, a austríaca que foi mantida em um porão por seu pai por 24 anos, passou por terapia intensiva e ainda tem dificuldades mentais, 16 meses após ser libertada.

Shawn Hornbeck, sequestrada em Missouri aos 11 anos em 2002 e mantida em cativeiro por quatro anos, disse aos repórteres quase dois anos após ser libertada que ainda estava aprendendo a lidar com os efeitos emocionais do trauma.

Por outro lado, Elizabeth Smart, jovem em Utah que foi sequestrada com 14 anos em 2002 e mantida em cárcere privado por nove meses, agora está bem, estudando na Universidade de Brigham Young. "Quando voltei, passamos um tempo como família, que era a melhor coisa que eu podia ter feito", disse à CNN na semana passada.

O principal desafio em tais casos, segundo os especialistas, é romper o laço com o captor ou perpetrador. David Wolfe, professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Toronto, estudou vítimas e perpetradores em relacionamentos abusivos de longo prazo.

Nesses casos, como em muitos sequestros, os perpetradores esforçam-se para conquistar a confiança de suas vítimas. "É um elemento comum", disse Wolfe. "A criança está assustada, e o perpetrador se esforça para reconquistar sua confiança, para parecer uma pessoa realmente boa: 'Não vou te machucar, tudo vai ficar bem' e assim por diante. Então, a criança nunca sabe se deve lutar ou fugir. 'Espero até ficar pior? Ou acredito nele para não me machucar?'"

Os seres humanos naturalmente formam laços sociais, e tais migalhas de gentileza podem aprofundar até um relacionamento de manipulação e abuso. Algumas vítimas têm sentimentos profundamente ambivalentes em relação aos seus captores e tendem a se sair melhor quando admitem seus sentimentos confusos, dizem os psicólogos. Pensar no perpetrador como monstro parece injusto; por outro lado, seria errado dizer que meramente enganou-se.

Quando as vítimas saem da influência do perpetrador e restabelecem a confiança com seus entes queridos, podem aprender com a terapia a diminuir o impacto da experiência, disse John A. Fairbank, professor de psiquiatria e ciências de comportamento da Universidade de Duke e co-diretor do Centro Nacional para Estresse Traumático Infantil de Ucla-Duke.

A terapia mais testada é chamada de terapia comportamental cognitiva centrada no trauma. Em sessões semanais, em três a quatro meses, as pessoas aprendem a examinar e a refutar premissas suspeitas sobre o acontecido. Uma das mais comuns é: "Não posso mais confiar em ninguém". Outra é: "Por minha culpa, parei de resistir".

"É claro que não é culpa delas, e comunicamos isso", disse Berliner, terapeuta em Seattle. "Mas, ao mesmo tempo, em muitos casos as vítimas colaboram, fazem decisões de não lutar nem fugir. Nesses casos, ajudamos os pacientes a examinarem porque fizeram essas decisões -a compreenderem que um duro julgamento em retrospectiva talvez não seja justo com as crianças que eram então."

Em geral, as pessoas que fazem terapia centrada no trauma também aprendem métodos para regular a força de suas emoções. Esses métodos incluem técnicas simples de respiração e relaxamento, assim como a observação consciente, um exercício que permite que uma emoção chegue e passe sem que a pessoa aja sobre ela.

Por fim, as vítimas frequentemente trabalham com o terapeuta para construir uma narrativa, oral ou escrita, de toda a experiência, e depois arquivá-la como um capítulo de suas vidas, e não a história toda. Se apropriado, elas também podem "reviver" a experiência várias vezes, até que seu poder emocional se esvazie. Essa abordagem não é para todos -parece que deixa algumas pessoas mais perturbadas- mas os especialistas dizem que pode ajudar em alguns casos.

Até agora, Jaycee Dugard parece estar fazendo como a outra vítima de sequestro, Smart, aconselhou: ficando com a família e mantendo-se longe do público. São bons instintos, dizem os terapeutas.

"Não descartamos a capacidade de resistência em um caso como este. Em muitos casos de sequestro, as pessoas se saem notavelmente bem, e esta mulher já mostrou recursos de sobrevivência impressionantes", disse Judith A. Cohen, diretora do Centro de Estresse Traumático em Crianças e Adolescentes no Hospital Geral Allegheny, em Pittsburgh.

"O fato de ela ter conseguido sobreviver tanto tempo sugere que pode se sair bem nos próximos anos".

Tradução: Deborah Weinberg

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