UOL Notícias Internacional
 

03/09/2009

À medida que cai o apoio à guerra no Afeganistão, Obama poderá precisar dos falcões republicanos

The New York Times
Helene Cooper
Em Washington (EUA)
Enquanto o presidente Barack Obama se prepara para decidir se enviará tropas americanas adicionais ao Afeganistão, o clima político parece cada vez mais adverso a ele, o deixando na posição desagradável de depender do apoio do Partido Republicano, e não do seu.
  • Keith Bedford/The New York Times

    Soldados dos Estados Unidos vigiam a prisão da base aérea de Bagran (Afeganistão). Pesquisa revela que 41% dos americanos são favoráveis a uma redução do número de soldados no país


A narrativa política simples da guerra no Afeganistão - de que era uma boa guerra, na qual os Estados Unidos caçariam os perpetradores dos ataques terroristas do 11 de Setembro - desapareceu com o tempo, com queda do apoio popular, aumento das baixas americanas e declínio na confiança no governo afegão. Além disso, as contestadas eleições afegãs e as acusações de fraude eleitoral feitas contra o presidente Hamid Karzai contribuem ainda mais para a erosão do apoio público.

Uma pesquisa CBS News, divulgada na terça-feira, aponta que 41% dos entrevistados querem uma redução no número de soldados no Afeganistão, em comparação a 33% em abril. Bem menos pessoas - 25% - querem um aumento no número de soldados, em comparação a 39% em abril. E o índice de aprovação à forma como Obama está lidando com o Afeganistão caiu oito pontos desde abril, para 48%.

Os democratas no Congresso, particularmente aqueles à esquerda, informam um crescente desencanto entre seus eleitores com a ideia de um longo conflito, e possivelmente uma escalada, no Afeganistão, especialmente à medida que a estratégia americana passa a lembrar uma abordagem de construção de nação a longo prazo em vez de uma operação de contraterrorismo.

"Eu e o povo americano não podemos tolerar mais tropas sem algum compromisso a respeito de quando esta ocupação terminará", disse o senador Russ Feingold, democrata de Wisconsin, em uma entrevista na quarta-feira. Feingold disse que compareceu a 60 reuniões em prefeituras em seu Estado até o momento neste ano. Durante a primeira metade do ano, ele disse, não havia comentários sobre o Afeganistão ou o Iraque. Mas nos últimos dois meses, isso mudou, com mais pessoas concentradas nas baixas de soldados no Afeganistão.

Andrew J. Bacevich, um professor de relações internacionais e história da Universidade de Boston, disse: "Houve um tempo, em 2003 e 2004, em que era possível obter apoio popular à guerra utilizando o argumento de que os Estados Unidos da América estavam eliminando o mal e promovendo a democracia e os direitos das mulheres."

"Mas estes muitos anos depois, com a economia em pedaços, com 5 mil soldados americanos mortos no Iraque e no Afeganistão, essas noções não são mais tão atraentes quanto antes. O cansaço da guerra se instala", disse Bacevich, autor de "The Limits of Power: The End of American Exceptionalism" (Os limites do poder: O fim do excepcionalismo americano).
  • Presidential Palace/AP

    Os falcões de segurança nacional do partido Republicano, longe de ser a base de apoio
    mais natural de Barack Obama, ainda apoiam
    o presidente no Afeganistão, Hamid Karzai



Até mesmo uma corrente de pensamento conservadora se tornou negativa em relação à guerra. O colunista George Will escreveu em uma coluna publicada na terça-feira que os Estados Unidos deviam reduzir substancialmente sua presença no Afeganistão.

Mas apesar do argumento de Will, os falcões de segurança nacional do Partido Republicano - longe de ser a base de apoio mais natural de Obama - ainda apoiam o presidente no Afeganistão.

"Até o momento, para crédito deles, eles permaneceram calados ou demonstraram apoio, pessoas como McCain e Graham", disse Matt Bennett, vice-presidente do Third Way, um centro de estudos com ligeira inclinação à esquerda, se referindo aos senadores John McCain, do Arizona, e Lindsey Graham, da Carolina do Sul, ambos republicanos.

No momento, Obama parece ainda contar com o apoio dos líderes democratas no Senado e na Câmara, incluindo o líder da maioria, Harry Reid, e a presidente Nancy Pelosi.

O deputado Howard L. Berman, democrata da Califórnia e presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, indicou na quarta-feira que não está pronto para abandonar o barco. Mas também não pareceu dar um apoio sólido.

"Eu não tenho problemas com os esforços e metas do presidente no Afeganistão", ele disse em uma entrevista por telefone. "Ao mesmo tempo, estou aberto para ouvir se são realizáveis ou não, e ao debatermos isso, também precisamos pensar nos custos da mudança de curso."

Mas foi o Comitê Nacional Republicano, e não os democratas, que tem demonstrado maior apoio ao presidente no Afeganistão. Após a mudança de posição de Will na terça-feira, o Comitê Nacional Republicano enviou rapidamente um e-mail e emitiu uma declaração: "Permaneça firme, sr. presidente" em seu site, em resposta a Will.

"Nós concordamos com o presidente Obama que 'nós temos que vencer'no Afeganistão e assegurar que nossos comandantes em terra tenham as tropas e recursos que precisam", disse o presidente do Comitê Nacional Republicano, Michael Steele, na declaração. Ele pediu a Obama para "permanecer firme e expor os motivos para estarmos lutando lá", acrescentando que Obama disse muito pouco até o momento "sobre por que as vozes derrotistas estão erradas".

O senador Saxby Chambliss, republicano da Geórgia, disse que continuará apoiando Obama no Afeganistão "enquanto continuarmos fazendo progressos".

Na semana passada, o senador Graham esteve no Afeganistão como coronel Graham, ao servir seu rodízio dos reservistas da Força Aérea. Ele se encontrou com oficiais militares e soldados, e conversou com autoridades do governo de Cabul. Ele apoia a estratégia de Obama para o Afeganistão.

O Afeganistão, disse Graham em uma entrevista na terça-feira, "foi onde o 11 de Setembro foi planejado e executado. Este não é o Vietnã".

Ele disse que apoiaria o pedido de mais soldados para o Afeganistão, mas acrescentou que Obama teria que apresentar um argumento público para convencer as pessoas tanto na direita quanto na esquerda.

"O presidente precisa ser mais agressivo ao assumir a propriedade desta estratégia, e reforçar para o país as consequências do Afeganistão ser perdido e se transformar em um santuário para a Al Qaeda", disse Graham.

O debate em torno do Afeganistão se desdobrará nas próximas semanas, à medida que as forças armadas decidem se pedem por mais tropas; os comandantes no Afeganistão já disseram que suas forças são insuficientes para que o trabalho seja feito lá.

O próprio Obama deve decidir se defende de forma mais pública um compromisso americano mais profundo. Funcionários do governo disseram privativamente que acreditam ter 12 meses para exibir algum progresso significativo no Afeganistão, antes de perderem totalmente um apoio público que já está diminuindo.

Um risco para Obama é que pode ser forçado a trocar seu próprio partido pela direita na questão do Afeganistão, o que o colocaria em uma posição perigosa caso os republicanos decidissem não querer apoiar o presidente democrata nesta questão.

"Algumas pessoas na direita acham que não há salvação para o Afeganistão, algumas pessoas acham que esta é a guerra de Obama e querem fazer com o Obama o mesmo que a esquerda fez com Bush no Iraque", disse Graham.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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