UOL Notícias Internacional
 

04/09/2009

Berlusconi desentende-se com a Igreja Católica devido ao seu estilo de vida

The New York Times
Rachel Donadio
Em Roma (Itália)
Durante meses, o sério jornal da Conferência dos Bispos Italianos, o "Avvenire", manteve-se distanciado daquilo que é o principal assunto das conversas aqui: a apimentada vida pessoal do primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

Mas quando os leitores reclamaram, dizendo que o jornal da Igreja Católica talvez tivesse a obrigação moral de denunciar o divórcio, os relacionamentos com garotas adolescentes, as festas com mulheres nuas à beira da piscina e o fato de a voz do primeiro-ministro ter sido gravada quando ele dizia a uma prostituta de luxo que o aguardasse na "cama de Putin" enquanto ele tomava banho, o editor do jornal começou a pensar sobre a questão.
  • Jean-Christophe Verhaegen

    Berlusconi reage às críticas: "Não sou santo"



"O povo entendeu o desconforto, a mortificação, o sofrimento que esta negligência arrogante quanto à sobriedade causou à Igreja Católica", escreveu no mês passado o editor Dino Boffo.

Na quinta-feira (03), Boffo estava sem emprego.

Na semana passada, o "Il Giornale", o jornal do irmão de Berlusconi, chamou Boffo de "um homossexual conhecido pelos serviços secretos italianos" e disse que ele é acusado em um processo de assédio sexual. O ataque do "Il Giornale" expandiu-se na quinta-feira, com um outro editorial que tinha como alvo a própria Igreja Católica, zombando não apenas da "hipocrisia" dos padres sexualmente ativos em relação à "carne fraca", mas até mesmo do sotaque "Mitteleuropean" do papa Bento 16, que é alemão.

A lição aprendida com o episódio: ninguém mexe com Silvio Berlusconi, nem mesmo a igreja.

A outra realidade é que os problemas pessoais de Berlusconi e as tentativas dele de limpar o nome passaram a dominar a vida pública italiana em detrimento de quase tudo mais, incluindo o governo do país, mesmo que a Itália esteja passando ainda por uma grave crise financeira.

"Ele possui um ego, e não um plano", diz Giuliano Ferrara, indivíduo que às vezes assessora Berlusconi e que é editor do "Il Foglio", um jornal conservador que tem a mulher de Berlusconi como uma das proprietárias.
"Ninguém acredita que Berlusconi irá para o céu, mas ele está decidido a se juntar aos seus inimigos no inferno".

Berlusconi zombou várias vezes das alegações, que surgiram durante o verão italiano, tendo dito em certa ocasião: "Não sou santo". Ele ainda goza de ampla popularidade e governa praticamente sem enfrentar oposição, graças a uma esquerda fragmentada e ineficiente.

Mas a sua popularidade, conforme refletem as pesquisas, está em queda, e Berlusconi parece estar altamente preocupado com a possibilidade de ela sofrer um estrago ainda maior, especialmente junto aos eleitores católicos moderados. Nesta semana ele anunciou que moverá processos milionários por difamação contra vários veículos de imprensa que o criticaram, naquilo que tanto os críticos quanto os aliados temem que seja uma tendência perigosa a tratar as críticas como deslealdade e possivelmente considerá-las ilegais.

Até mesmo os amigos de Berlusconi afirmam que ele está se metendo em um terreno perigoso no que se refere à igreja, agindo de uma maneira que poderá prejudicá-lo politicamente. Apesar do declínio do comparecimento da população à missa, a Igreja Católica continua sendo a instituição essencial aqui, e muitos italianos se preocupam em saber quais candidatos contam com o apoio normalmente implícito do Vaticano. Os integrantes do alto escalão da igreja geralmente apoiam candidatos de direita, como Berlusconi e os seus aliados.

A julgar pelo tom da discussão entre o jornal de Berlusconi e o jornal da igreja, e pelos sussurros das autoridades de ambos os lados do imbróglio, a afeição mútua não é grande neste momento.

"Fofocas não são um elemento suficiente para a crucificação de alguém", escreveu na última sexta-feira Vittorio Feltri, o editor do "Il Giornale", defendendo Berlusconi dos rumores a respeito da sua vida sexual, e atacando Boffo com alegações de que ele seria gay e que teria assediado por telefone a namorada de um homem com o qual o jornal afirma que ele estaria romanticamente envolvido.

"Ou, poderíamos dizer que fofocas foram suficientes para isso somente nos casos de duas pessoas: Jesus Cristo, por causa de alguns dos seus milagres, e, mais recentemente, Silvio Berlusconi, devido às suas danças com mulheres que, a bem da verdade, estavam disponíveis", escreveu Feltri.

Boffo escreveu simplesmente que o ataque de Feltri, que ele comparou a pisar em fezes de cachorro, degradou o jornalismo. "Parabéns", acrescentou Boffo.

Nesta semana um juiz anunciou publicamente que Boffo foi multado em um processo relativo a um caso de assédio sexual que foi encerrado em 2004.
Na quinta-feira, no "Avvenire", Boffo negou ter feito ligações telefônicas que teriam se constituído em assédio. Ele afirmou que uma terceira pessoa fez as ligações usando um telefone celular ao qual ele também tinha acesso.

Boffo acrescentou que jamais foi feita qualquer alegação sobre suas supostas tendências homossexuais em um processo judicial, e disse ainda que o ministro do Interior ligou para ele para lhe garantir que a polícia italiana jamais o vigiou.

Ao apresentar a sua renúncia ao cargo na quinta-feira, Boffo disse que o escândalo tornou-se uma distração para a igreja.

"A minha vida, a vida da minha família e a da minha editoria foram violadas em um ato de sacrilégio que eu jamais pensei que seria sequer imaginável", escreveu ele. Boffo previu "uma grande tempestade pela frente", e afirmou que viu-se encurralado em "uma guerra entre grupos editoriais, poderes fossilizados e ambições arrogantes e crescentes".

"Se ele faz isso com jornalistas independentes, qual será o futuro da informação livre e responsável?", indagou Boffo, referindo-se a Berlusconi.

Na última quarta-feira, Feltri, que é aliado antigo de Berlusconi, disse ter publicado as notícias sobre os processos judiciais envolvendo Boffo "para despertar o interesse da opinião pública e vender jornais". Tanto ele quanto Berlusconi disseram que não conversaram sobre a cobertura do assunto. Feltri qualificou a questão de "insultante, para não dizer injuriosa".

Boffo não respondeu aos pedidos para que tecesse comentários.

Para piorar as tensões entre igreja e Estado há o fato de o "Avvenire"
ser um defensor declarado dos imigrantes, pedindo que os italianos solidarizem-se com eles, ao invés de hostilizá-los. Isso vai de encontro à agenda de segurança do governo Berlusconi. Uma nova lei patrocinada pela poderosa Liga Norte criminaliza os imigrantes ilegais, que muitos italianos veem como uma ameaça.

Porém, enquanto Berlusconi e os seus defensores cuidam da fachada, as bases do Estado italiano não estão inteiramente sólidas.

Acredita-se que até 2010 a dívida nacional da Itália chegará a 116% do produto interno bruto do país, o que representa quase o quádruplo da meta estabelecida pela União Monetária Europeia. A sonegação fiscal é generalizada; o índice de desemprego está elevado e as pensões correspondem a 30% dos gastos públicos, o que é o dobro da média na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Os líderes empresariais dizem que, sem mudanças estruturais, incluindo reforma das pensões e contratos mais flexíveis, a Itália perderá vantagens em competitividade em relação à Ásia e a outros países da União Europeia.

Tais notícias raramente são apresentadas nos telejornais noturnos. Assim como ocorre no que diz respeito à sua vida pessoal, Berlusconi dificilmente admite que algo está errado. Muitos italianos acham que isso contrasta cada vez mais com os fatos.

Beppe Grillo, um comediante e provocador de esquerda, compara a situação de Berlusconi àquela de Wile E. Coyote, o adorável e sempre ardiloso personagem de quadrinhos que passa sobre a borda de um despenhadeiro, mas que só cai se olhar para baixo.

"Eles estão suspensos no ar, e não estão olhando para baixo", afirma Grillo, referindo-se a Berlusconi e à liderança de centro-direita do país. "E não há nada embaixo para segurá-los".

Tradução: UOL

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