UOL Notícias Internacional
 

07/09/2009

Assassinatos em banco revelam os altos e baixos da justiça iraquiana

The New York Times
Rod Nordland e Riyadh Mohammed
Em Bagdá (Iraque)
A quadrilha de ladrões não teve que se preocupar com a polícia porque, naquele bairro, eles próprios eram a polícia, muitos eram guarda-costas de um dos homens mais poderosos do país, o vice-presidente Adel Abdul Mahdi.

O plano deles era brutalmente simples e audaciosamente estúpido: eles amarraram oito guardas - alguns dos quais eles conheciam - na agência do banco Rafidan em Zuwiya e executaram-nos sem hesitar, usando armas com silenciadores. Então eles escaparam com pelo menos dois carregamentos de dinheiro no valor de US$ 4,3 milhões (R$ 8 mi).

Mas os ladrões se esqueceram das câmeras de segurança. E se esqueceram do nascer do sol, que aconteceu antes de eles terminarem o roubo em 28 de julho. Assim, quando eles saíram já estava claro o suficiente para as pessoas que estavam na área pudessem vê-los, assim como os uniformes que usavam e os carros de fuga.

Na quarta-feira, depois de um rápido julgamento, um tribunal em Bagdá condenou à morte quatro dos nove suspeitos do roubo. Um homem foi absolvido e os outros quatro estão foragidos. Mas o caso está longe do fim, tendo uma grande repercussão por causa do que ele revelou sobre a corrupção no alto escalão e a aplicação desigual da lei no Iraque.

Nesse caso, os assaltantes serão enforcados. Mas os líderes da quadrilha, que têm ligações notórias com a elite política xiita, escaparam.

Mesmo assim, o roubo em Zuwiya também demonstrou, de uma forma um tanto débil, que as jovens instituições do Iraque, o judiciário, a imprensa e a política cada vez mais democrática dificultaram as coisas mesmo para as pessoas mais poderosas do país, que não conseguiram estalar os dedos e fazer o caso constrangedor desaparecer.

À medida que os detalhes vinham à tona, o vice-presidente e o Conselho Islâmico Supremo do Iraque, seu partido e o maior agrupamento xiita, sofriam um duro golpe de relações públicas, que poderá afetar as ambições de Abdul Mahdi para se tornar o próximo primeiro-ministro nas eleições em janeiro.

"Tenho certeza que Adel Abdul Mahdi não estava envolvido", disse Ahmad Abdulhussein, um jornalista ameaçado por causa de um artigo que escreveu sobre o caso. "Mas o povo iraquiano precisa pensar se quer um líder que tem guarda-costas que roubam bancos e matam."

E, diferente do estado de coisas sob o governo de Saddam Hussein, houve um julgamento aberto que podia ser criticado por qualquer um - o que de fato aconteceu - mesmo que as sentenças de morte tenham sido proferidas em apenas dois dias e meio.

"Nunca houve um caso que acontecesse tão rápido", disse Ghalib al-Rubaie, um dos advogados dos acusados.

A brutalidade a sangue frio do crime, com a execução dos guardas amarrados, tornou este um caso difícil de ignorar.

Três dias depois do roubo, o ministro de Interior Jawad Bolani anunciou que as autoridades haviam identificado os criminosos e recuperado o dinheiro. Ele disse claramente que "partes influentes" estavam envolvidas no crime.

A implicação era óbvia: de que os envolvidos no crime certamente pertenciam aos serviços de segurança - possivelmente ligados ao partido de Abdul Mahdi. Toda a área estava sob controle de um batalhão de guarda-costas da Brigada de Proteção Presidencial, designada para proteger Abdul Mahdi, sua família e auxiliares. A gangue inicialmente escondeu o dinheiro numa casa nas proximidades, que é propriedade do jornal de Mahdi, aparentemente seguindo a tese de que ninguém ousaria procurar lá.

"Temos comunicações intensivas com algumas partes para que eles entreguem as pessoas envolvidas", disse Bolani.

Isso desencadeou uma extraordinária mistura de acusações e autoproteção, na qual um confuso roubo a banco se misturou com o topo da política nacional e xiita e com o poder das relações de sangue nessa sociedade ainda altamente tribal.

Bolani, assim como Abdul Mahdi, tem aspirações de se tornar primeiro-ministro, e no dia seguinte seu porta-voz anunciou que eles haviam prendido três homens - dois deles considerados líderes da quadrilha - e esperavam pegar todos os oito ladrões.

Abdul Mahdi rapidamente se juntou à ofensiva. Ele disse que, logo que ficou sabendo do roubo, conversou com o primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki, que divulgou uma declaração dizendo que Abdul Mahdi havia recuperado o dinheiro mas não havia entregado todos os criminosos. Al-Maliki venceu Abdul Mahdi por uma pequena margem de votos para o posto de primeiro-ministro em 2006 e tem a intenção de se manter no cargo.

Abdul Mahdi também alegou crédito, dizendo que os membros corretos de seu batalhão de guarda-costas resolveram o caso - e que Bolani estava fazendo jogo político.

"O sucesso em cumprir o dever de impedir o crime organizado foi arruinado por nada mais do que politicagem", disse numa declaração.

Sob pressão, o Ministério do Interior divulgou um esclarecimento, elogiando Abdul Mahdi por ajudar a prender a "quadrilha de guarda-costas". Ele respondeu com um obrigado, mas insistiu que apenas um dos assaltantes pertencia a seu grupo de guarda-costas. Testemunhos posteriores no tribunal, entretanto, estabeleceram que cinco dos nove que foram eventualmente acusados eram de fato membros do batalhão de guarda-costas de Abdul Mahdi.

Quatro outros desapareceram e, se a política parece nebulosa, a rede de culpados se mostrou ainda mais.

Os dois homens presos como líderes da quadrilha foram identificados como o capitão Jafr Lazim e o tenente Amin Kareem, ambos membros da segurança de Abdul Mahdi e da elite da Brigada de Proteção Presidencial.

Os dois homens, de acordo com um policial que não quis ser identificado, e de acordo com uma testemunha no tribunal, estão relacionados ao coronel Ali Lazim, chefe dos Serviços de Segurança Conjunta em Karada, bairro onde aconteceu o crime.

Esse órgão controla todos os serviços de segurança iraquianos em sua área. Não foi possível encontrar Lazim para que falasse à reportagem.

E enquanto o vai e vem entre os políticos perdia força, Lazim e Kareem não pareciam mais estar sob custódia.

Um dos sites mais populares do Iraque, o Kitabal, que publica comentários sobre as notícias, alegou que eles foram soltos como parte de um acordo entre o vice-presidente e o Ministério do Interior. O escritório de Abdul Mahdi disse que eles haviam fugido do país. O site sugeriu que todos queriam Lazim fora de cena por causa de suas relações poderosas, e também por causa do medo de que ele dissesse que estava agindo em prol do partido de Abdul Mahdi para levantar fundos para sua campanha política.

No julgamento sem os supostos organizadores, membros das famílias dos guardas mortos reagiram com raiva ao ver os suspeitos que estavam presentes e o irmão de uma das vítimas tentou pular para a área onde estavam os prisioneiros para agredi-los, enquanto a mãe idosa de outro cuspiu neles.

Dois dos acusados, Ahmed Khalid e Ali Aidan, antes eram guardas do banco, de acordo com os testemunhos; um deles, Khalid, foi suspeito de ser o atirador, junto com Kareem.

"Como você pode; você dormia com eles e comia com eles, como pode matá-los?", gritou o irmão.

Ambos os guardas alegaram que haviam confessado o crime sob tortura nas mãos do brigadeiro general encarregado do batalhão de Abdul Mahdi. Os juízes zombaram da alegação, notando que a arma usada nos assassinatos havia sido ligada a eles.

As sentenças foram estabelecidas poucos dias depois que a Anistia Internacional criticou duramente o poder judiciário iraquiano por conceder números excessivos de sentenças de morte. A Anistia disse que mais de mil pessoas estão no corredor da morte do Iraque hoje, muitas delas depois de julgamentos secretos e rápidos, normalmente envolvendo tortura.

Khalid e Aidan não tinham advogado para representá-los, então, no final do segundo dia de julgamento, o juiz pediu a um dos outros advogados de defesa para resumir o caso deles.

"Deixe a justiça tomar seu curso", foi tudo o que ele disse.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host